Resumo resumidíssimo do que me ficou de Dawkins

 (Texto enviado por uma amigo, colega oftalmologista, José Maria Soares)

 

Qual a maior ambição de um ser humano?

A vida eterna. Ao concluir ser essa aspiração impossível, de que se serviu para a manter? Das diferentes religiões que duma ou doutra forma lha prometem.

 Porque ambiciona o homem uma vida eterna’

Porque tem memória e uma vida afectiva. Quer encontrar e perpetuar os seus afectos terrenos numa outra vida já que nesta tem de se submeter ao nasce, cresce, reproduz e morre. A única maneira que tem o homem para justificar a morte é a existência de uma outra vida, a extra-terrena.

 Como nasceram as religiões?

Alguém a par daquelas e de outras ambições, de acordo com os interesses da comunidade, do estado civilizacional dos seus comparsas e da sua capacidade de digerir ficções, criou-as com mais ou menos sofisticações. Nasce assim uma religião, uma profissão e uma classe social : o clero.               

 Como encontrar o erro de tudo isto

Pela experiência, observação da vida e da morte, sou levado a concluir que essa vida extra-terrena não pode existir porque quem criou a vida foi a natureza (que também não foge à lei da morte) e não um deus. Este teria de ser supremo em tudo, até na afectividade. Não poderia separar filhos de pais, e separar entes queridos, colocando-os depois da morte numa condição de amnésia afectiva. Acima de tudo temos de notar que estaria a ser um mau pai porque seríamos também seus filhos. Sendo assim, a vida só pode ter sido criada por alguém sem vida afectiva, e esse alguém foi a Natureza que com os seus milhares de milhões de anos, através das reacções químicas mais diversas, formou proteínas que unidas deram origem ao ADN, ARN, e células. E estas à vida. A vida, inicialmente primitiva, foi evoluindo por adaptação ao meio e por mutações genéticas, acabando por definir espécies. Há cento e oitenta milhões de anos surgiu o antepassado comum do homem e do chimpanzé dando a linhagem que, evoluindo através do homem primitivo, homem erecto, chegou ao homem inteligente. Este, por razões climáticas e alimentares espalhou-se desde a África a todo o planeta terra, planeta bem diferente do que é hoje, com os continentes por separar. Mais do que uma teoria ou uma hipótese é assim a lógica criação da vida, sem termos de recorrer a argumentos sobrenaturais, dogmas ou mistérios de que todo o criacionista terá de se servir para explicar, através do deus de qualquer religião, o aparecimento do homem na terra, e acrescentar-lhe uma alma imortal. Para quem aspira a uma vida eterna na companhia dos seus entes queridos, aquela explicação é a desilusão, mas como disse, a Natureza não tem vida afectiva. Criou vida e através do ADN o instinto de conservação das espécies em todos os seres vivos. Sobre estes assuntos escreveram-se milhões de papiros e folhas, desde o antigo testamento a S. Tomás de Aquino, dos ateus aos agnósticos o que me leva a concluir, como alguém já disse, ser o homem o mais infeliz habitante do planeta, por ser inteligente e ter de justificar a si mesmo e aos outros o porquê da vida e da morte, principalmente desta.

No meu modesto entender, a origem do homem é mais fácil de compreender através da evolução do que por um sopro de deus sobre um molde de barro. Falta apenas comprovar cientificamente a teoria do “Big Bang” para deixar de haver discussão quanto à origem do universo, mas essa comprovação vem a caminho. Há quem não goste de ser primo do chimpanzé, há quem afirme ser irmão em deus de todos os animais e eu chamar-lhe-ia primos por natureza. Um deus não criaria um filho para o fazer sofrer e por fim matar.

Concordo que um outro fabricante insensível o possa ter feito e, esse só pode ter sido o planeta terra com a sua água, oxigénio, carbono, azoto e outros produtos químicos, tendo como adjuvante a luz solar e a vulcanologia. Toda esta obra foi iniciada há biliões e não há milhares de anos como algumas religiões pretendem fazer crer.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    É bem verdade, mas quem tem a prosa para que precisa da poesia? E, no entanto, existem ambas, complementam-se. A vida “sem Deus” é mais feliz do que “com Deus”? Não me parece, mas que Deus tem servido para se justificar muita coisa má, não deixa de ser

  2. Carla Romualdo says:

    o problema, quanto a mim, destas teorias é que, na ânsia de desacreditar as religiões, esquecem a dimensão espiritual dos seres humanos, que não tem porque estar arregimentada por nenhuma religião em particular

  3. Luis Moreira says:

    Exacto, Carla, esquecem a poesia, o sonho. Outra coisa é o que faz deles.

  4. António Soares says:

    Não sou entendido em nada…mas ,se não houvesse tanta Hipocrisia no mundo…seria ele melhor?!…

  5. madalena says:

    acho que não concordo com essa afirmação de que a maior ambição do ser humano é a vida eterna. será de alguns , suponho , mas não de todos ( a minha não é . que tédio me dá só de pensar viver 300 anos !! e não me faz impressão nenhuma voltar a pó ) . aliás , é a religião que impede que muitos se suicidem ao ter convertido o suícidio em pecado.

    ( morrer em bom estado , ainda que velho , sem ter de passar pela decadência associada à velhice ? isso já é outra história )


  6. Carla, repara bem! A dimensão “espiritual” do ser humano, (para quem não aceita dualismos corpo-espírito) existe sempre, com deus ou sem deus, com alma ou sem alma, com materialismo ou sem materialismo. Ela é parte integrante do ser humano…e não só.


  7. Madalena, também concordo contigo. Não é, de modo algum, minha ambição a vida eterna, por mais afectivo que eu seja e por mais que eu queira fazer durar a minha memória afectiva. Aliás a vida é sábia nesse aspecto, ao desprender-nos progressivamente deste mundo à medida que os anos vão passando. O meu colega, ao escrever isso, creio que pretendeu dizer que o fim das espécies é durarem o mais possível, dentro da utopia da vida eterna. A vida eterna seria a maior seca, o maior presídio e o maior tormento do homem.


  8. Luis, a poesia e o sonho, o amor e o ódio, a noção da identidade e a força da utopia são sentimentos inerentes à natureza humana…e, segundo parece, não só. Seja qual for a crença, a religiosidade ou ausência de religiosidade, seja qual for a concepção filosófica ou teológica do indivíduo, isso nada tem a ver com a neuronalidade dos sentimentos, como fruto das emoções geradas pelos estímulos adequados à natureza humana, os quais, obviamente, são diferentes noutros seres vivos.

  9. Luis Moreira says:

    Sim, mas essa complementaridade “sobrenatural”, seja ou não real ( e para mim não é) faz as pessoas melhores e um mundo mais comedido. O Mundo não é melhor “sem Deus”. Basta as pessoas sentirem isso.

  10. madalena says:

    é uma discussão interessante , esta das funções da religião. por exemplo , se as religiões ( sobretudo as judaíco cristãs ) não tivessem sacralizado a vida humana , será que lhe dávamos tanta importância ? mataríamos ainda mais? como matamos moscas.
    os “sofredores” aguentariam o chicote do amo na Terra se não fosse pelo medo do Inferno ao deixarem o amo sem ninguém para chicotear?
    Sim , até parece que tem por base a sobrevivência da espécie.

  11. António Soares says:

    Temos aqui a Madalena,temos o Adão que por acaso é Cruz também.O Luís,falou em DEUS,e eu digo, que ELE nos deu o livre arbítrio,para sermos felizes…ou tentarmos,e aí é que está o problema para nós todos resolvermos!Também ando à procura…


  12. Luis, não se pode pôr as coisas nesses termos. Não se pode dizer que o mundo é melhor ou pior com deus ou sem deus. Há aqueles para quem, pessoalmente, o mundo é muito melhor sem deus, como é o meu caso, e há aqueles que não dispensam deus como parte da sua felicidade.

  13. Carla Romualdo says:

    Estou de acordo contigo, Adão, falava daquilo que acho que é uma tendência, a de cair nessa negação.

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