Breve história do Carnaval


O termo Entrudo serve para designar o período que antecede a Quaresma e provém da palavra latina introitu – início. Quanto a Carnaval, está relacionado com o abuso da carne (em todos os sentidos) na mesma época do ano.
A comemoração do Entrudo perde-se na poeira dos tempos. Antes ainda do nascimento de Cristo, estava relacionada com os cultos da fertilidade, no início da Primavera. Era o regresso da luz e da abundância que então se comemorava. Os egípcios dedicavam a festa a Isis e a Apis, os atenienses dedicavam as suas «festas de Bacanais» a Dionísio, os Romanos a Saturno, protector da agricultura e das sementeiras.
Em 340, o Papa Júlio I autorizou que, em Milão, os cristãos pudessem despedir-se em grande dos prazeres da carne antes da Quaresma. Daí os excessos que se começaram a cometer no Carnaval a partir daí em países de forte tradição católica. Foi a forma encontrada pela Igreja, segundo algumas versões, de se apropriar de todo o simbolismo popular.
«Segundo uma lenda popular recolhida no concelho de Torres Vedras, existia no tempo de Cristo um santo que gostava muito de carne, chamado de Santo Entrudo, fazendo grandes festas com muitos convidados, onde só se comia carne. Quem não estava contente com essa situação eram os pescadores, que não vendiam o seu peixe e foram queixar-se a Jesus Cristo, que então definiu os dias em que se podia comer carne, dançar e fazer festas, e marcou a época para os pescadores, a quaresma, durante a qual não se podia comer carne, nem dançar ou fazer festas.» (Jornal Área, 4 de Março de 1980, in Venerando de Matos, «Carnaval de Torres: Uma História com Tradição»)
A moda das máscaras e dos cortejos de rua iniciou-se durante o Renascimento, na Itália dos séculos XV e XVI. Incomparável, em relação a todos os outros, era o Carnaval de Veneza. Um Carnaval que é hoje sinónimo de charme e de classe, mas que na época significava libertinagem sem limites. No resto da Europa, a quadra também se comemorava, mas de forma mais pobre e mais espontânea.
Em Portugal, uma das épocas de maior projecção do Carnaval ocorreu durante o reinado de D. João V, no qual o ouro proveniente do Brasil lhe conferia características palacianas e marcadas por um enorme luxo.
Desde o século XVI, pelo menos, que existem referências a certas brincadeiras que se faziam nesta época, como lançar fardos ou «jugando as farelhadas». A espontaneidade, desorganização e até violência marcavam esses dias, de tal forma que, nos inícios do século XVII, D. Filipe III viu-se obrigado a proibir as «laranjadas e brigas de Entrudo».
Em 1608, a Igreja Católica, sem qualquer resultado, introduziu o «jubileu das quarenta horas», uma tentativa de acabar com os festejos carnavalescos, desviando a população para missas e riquíssimas procissões. Foi com o advento do liberalismo que o Carnaval ganhou um novo estatuto, surgindo com uma forte carga de crítica social, simbolizada no «xexé», máscara que caricaturava os miguelistas.

«Os divertimentos eram diabólicos, como passamos a narrar: entrava-se em casa da vizinhança com as mãos cheias de cal e empoava-se o cabelo de toda a gente, estragando os fatos sem piedade. Besuntavam-se as escadas de sabão e os trambulhões eram certos. Quem quisesse apanhar uma moeda de prata do chão arriscava-se a grande vexame, porque a moeda estava presa a um cordel que se puxava no momento preciso. Das janelas faziam-se novas brutalidades. Despejavam baldes de água sobre quem passava e atiravam sobre os transeuntes tudo o que encontravam no caixote do lixo: folhas de couve, cascas de batata, ossos, espinhas, etc.» (Lourenço Rodrigues, Boémia de Outros Tempos, in « Venerando de Matos, «Carnaval de Torres: Uma História com Tradição»)
relação do Carnaval com as tradições rurais e populares é bem evidente. Em alguns locais, iniciava-se a 20 de Janeiro, no dia de S. Sebastião (Alentejo); noutros, dois dias depois, no dia de S. Vicente (Ericeira, Alenquer ou Vila Franca de Xira); noutros ainda, quatro semanas antes dos dias do Entrudo (Serpa). Costumes como o sacrifício do galo, o de «deitar pulhas» ou o «cavalinho» eram simultaneamente rituais de origem pagã.
Em finais do século XIX, as principais brincadeiras de Carnaval consistiam em pintar frases brejeiras nas paredes sobre a vida privada das pessoas; atirar para dentro das casas bocados de terra, cinza, pedras ou cascas de laranjas – os coqueiros; espetar seringas em quem passava; lançar uma pedra aquecida ao lume para, dentro de casa, alguém queimar as mãos; pôr «rabos de papel» presos com alfinete, nos transeuntes.
O uso de máscaras, por sua vez, remonta pelo menos à primeira metade do século XVII. Um alvará de 20 de Agosto de 1649 proíbe o seu uso nas igrejas. Ainda antes, o seu uso fora objecto de perseguição por parte da «Santa» Inquisição. E ainda antes disso, D. João II terá aparecido mascarado para comemorar o casamento do seu filho.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Belo texto. Eu mascarava-me de “cow boy” mais rápido que a sombra!

  2. Serviço público Ricardo. Bom trabalho, curioso e pedagógico.

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