Um conto da vida de Zé Pequeno (1)

 O dia começara como tantos outros.

Era mais um dia de trabalho.

Zé Pequeno levantara-se com o corpo dorido do trabalho que o fustigara no dia anterior. E na boca conservava o mesmo sabor amargo com que a vida o ia marcando, aos poucos, os socalcos que galgavam a pele escurecida pelo trabalho árduo. Não era velho. A sua juventude apenas se ia esvaindo por entre a fome e a labuta, que o fizera forte como os trepos que circundavam a pobre casa de seus pais que também era a sua.

Uma vez de pé, respirou fundo o ar de fuligem e caruma que impregnava a casa, a que se misturava ainda ao cheiro do azeite da sopa fervida, no preto caldeirão que parecia ter aterrado pela chaminé na lareira.

Seguiu mecanicamente os seus próprios passos até à rude porta. Abriu e sorveu o ar fresco da alvorada que corria livre e selvagem.

Para Zé Pequeno, a única liberdade que havia era a dos ventos e dos rios. O Portugal de então cobrara o preço da não participação na Segunda Guerra Mundial.

De selvagem ficara o coração de Zé Pequeno e a sua força que não cedia ao cansaço nem ao medo.

Mirou em volta à busca de um pedaço de pão que enganasse o seu estômago e iludisse a fome que sentia. Levou-o à boca e mastigou-o com a mesma convicção com que enfrentava cada dia. A mesma convicção que o fazia acreditar. Acreditar que um dia tudo iria mudar pela força do seu braço e da sua arte.

Naquela manhã estava arranjado que iria com sua mãe carregar fruta a uma casa de lavradio, para mais tarde fazer a venda. Era o negócio de sua mãe.

Zé Pequeno era pedreiro, mas sua mãe, Maria Pequena, precisava da sua força para tentar ganhar um pouco mais do que a arte de pedreiro lhe dava num só dia de jorna. A mulher surgiu à sala, em trajes de trabalho com os seus olhos vivos e brilhantes que destoavam das tantas dores de parto que marcaram o seu corpo e tresmalharam o seu cabelo.

“Então, minha mãe? Vamos negociar as laranjas?” perguntou Zé Pequeno.

Sua mãe anuiu com a cabeça, respondendo com a serenidade que as respostas curtas ganham com o passar da idade.

Partiram de casa pelo longo carreiro de terra que os levava à entrada da Vila, acompanhados por uns tantos homens que em comum tinham o frio da manhã e a têmpera de quem luta numa vida sem sonhos.

Caminharam pelo carreiro, marcando as suas pisadas na terra empoeirada por entre as silvas. Marcas que se iam dissipando pelo vento, como se espelhassem as suas vidas, as suas efémeras existências.

Mas não as pegadas de Zé Pequeno, cujo andar firme e decidido vincava fundo na terra a sua passagem, pronunciando, talvez, um futuro diferente.

Lá ia ele, olhando em volta das terras dos grandes senhores que as muravam a pedra.

Como pedreiro havia já feitos muitos muros para esses grandes senhores. Com as suas próprias mãos havia levantado as duras e agrestes fronteiras que separavam mundos opostos.

Zé Pequeno percebia isso como ninguém, caminhando pelo carreiro e esfregando as mãos calejadas. As mesmas mãos com que havia jurado a si mesmo se fazer também ele um senhor. Seriam aquelas mãos que iriam um dia construir os muros do seu próprio mundo.

(Continua)

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