Não ajude, que é pior

Um dos filmes mais divertidos de sempre é de certeza “O mundo é um manicómio (“Arsenic and old lace”), de Frank Capra. Nele se conta a história de Mortimer Brewster,  um solteirão inveterado, que, depois de anos a pregar contra o matrimónio, acaba por render-se aos encantos da filha de um pastor e resolve casar-se. Logo a seguir ao enlace, faz uma visita aos familiares mais próximos que lhe restam, as suas tias, duas adoráveis velhinhas que se dedicam à caridade e ao chazinho das cinco.

Mas uma vez na casa das tias, Mortimer começa a encontrar cadáveres escondidos por todos os recantos e descobre que as piedosas tias lamentam tanto a sorte dos velhos sem família, que recebem como hóspedes na sua casa, que decidem abreviar essa solitária velhice com um copo de vinho temperado com uma pitada de arsénico.

Elas não vêem nada de mal nesse acto, pelo contrário, entendem-no como uma obra caridosa, pela qual Deus há-de recompensá-las. Pois se esses pobres homens não têm família, ninguém para velá-los no leito da doença, que melhor do que uma morte rápida, sem sofrimento, que os poupe de vez às agruras da vida?

Mortimer fica com os cabelos em pé mas não se atreve a denunciar as tias e decide que é melhor encobrir os crimes e convencê-las a pôr um fim aos assassinatos piedosos.

As peripécias a que este imbróglio dá origem são divertidíssimas e o filme é uma pérola de humor negro.

Lembro-me muitas vezes das tias do Mortimer. Nunca soube de alguém que fosse tão longe quanto elas na intenção de ajudar, mas não são poucas as vezes em que se ultrapassa essa linha pouco nítida que separa a ajuda válida e oportuna da aselhice que, se até pode ser bem-intencionada, nem por isso é menos nociva.

O que move as tias de Mortimer é a profunda convicção de que aquilo que elas acham  ser o melhor para os seus solitários hóspedes é, com efeito, o melhor. Não lhes ocorre que aquilo que pensam possa não ser a melhor opção e, sobretudo, não lhes ocorre que o que deve prevalecer é a vontade do próprio.

Estão tão profundamente convictas das suas crenças pessoais que não admitem que outros possam seguir diferentes caminhos, e muito menos que essas escolhas alheias possam conduzir a locais bem mais interessantes do que aqueles que a sua imaginação é capaz de conceber.

Tão plenas de certezas na sua mundividência, que dessa certeza passarão à imposição, num piscar de olhos, e defenderão até ao fim que agiram guiadas pela generosa intenção de beneficiar o outro. E ainda se mostrarão ultrajadas quando as acusarem de insensibilidade e baterão no peito para se dizerem injustiçadas, elas que apenas buscavam o bem alheio.

Confesso que também já fui, em algum momento, uma das tias de Mortimer (ainda que desprovida de arsénico),  mas nem por isso deixo de fugir de cada vez que vislumbro uma a aproximar-se. Empenhadas em indicar-nos o caminho, são capazes de empurrar-nos pela ribanceira abaixo para que o encontremos mais depressa.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    É ajudar a velhinha que não quer atravessar a rua…

  2. Carlos Loures says:

    Lembro-me do filme, com o Cary Grant no papel de Mortimer. A condenação do voluntarismo, bem intencionado, mas de resultados negativos. Um filme delicioso, como quase todos os que fez. O Capra era um realizador genial. O meu filme preferido entre os muitos que dirigiu é o «João Ninguém» (Meet John Doe), com o Gary Cooper e a Barbara Stanwick. Cada filme do Capra era um hino á vida e à simplicidade das coisas verdadeiramente importantes. Gostei muito deste post, Carla (tentei não usar os adjectivos do costume).

  3. carla romualdo says:

    Obrigada, Carlos. Eu tenho um fraquinho pelo “It’s a Wonderful Life” (acho que em português é “Do céu caiu uma estrela”), aquele que os americanos vêem todos os Natais. Há muitos a chamar-lhe delicodoce e sentimentalão mas eu não lhe resisto. Na cena final, em que todos os amigos, vizinhos, conhecidos acodem para ajudar o Jimmy Stewart com as economias da vida inteira, ou simplesmente com um dólar, porque nada vale mais do que ajudar quem sempre se ocupara de todos, já eu estou a chorar baba e ranho. Um dia destes faço um post sobre ele.

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