Falando de sentimentos.Resposta ao Prof. Adão Cruz

Caro Adão Cruz,
Por andar sempre a usar estas linhas para escrever do que sinto, vejo, analiso e psicoanaliso, não tinha reparado no seu texto tão temido por falar de sentimentos. Não me parece possível fazer uma biologia do espírito. Seria uma ofensa aos sentimentos. A Biologia, e a palavra o diz, é uma dissecção dos sentimentos, uma autópsia dos mesmos, o que me parece impossível: nem há ideias, nem há elementos para abrir o espírito. Repare, se quiser entender assim, que a minha frase no rasto da sexualidade, caminha o amor, indica já uma autópsia dos sentimentos. A sexualidade é uma força da natureza, sem a qual não podemos viver. É essa força colocada pela biologia em nós, para nosso prazer que não tem palavras, especialmente se quisermos definir o orgasmo e não apenas a paternidade. A paternidade é uma relação social em segunda instância, porque na primeira, é o amor. Não o amor com quem podemos sentir o prazer sem palavras, sempre a dois, mas eternamente solitário. Compara um filho seu, existente ou não, com um de uma favela. Os sentimentos que existem neles, embora não se conheceçam e pertençam a classes sociais diferentes, são exactamente iguais

A materialidade é essa penetração que nos seduz, a emoção é o desejo de estar dentro do corpo de quem amamos, sem classe, sem idade, sem género. Confesso não me lembrar do texto que escrevi – escrevo tantos – mas todos eles estão endereçados a apenas uma emoção, ao amor, que a materialidade sexual pode matar, como refiro  noutro texto intitulado a paixão pode matar o amor. O único problema das emoções, é ter a valentia de as aceitar, de falar delas, de as pôr de parte no entendimento para apenas as viver. Há esse famoso debate entre Hegel e o seu discípulo Marx, (na altura em que Hegel gostava de Karl Heinrich) no qual, o primeiro, diz que para entender é necessário ver o objecto, ripostando o segundo (acabada a paixão), que sem objecto não há nenhuma possibilidade de organizar o conceito. Debate que os levou a cortar os laços de carinho e históricos existentes entre eles. Penso que falar de emoção é a melhor poesia do mundo, um Shakespeare, um Frei Luís de León, um Calderón de la Barca, um Camões, um Delacroix…. um Goya junto a Modigliani e Van Gogh. Épocas diferentes, mas emoções sempre vivas. Goya nunca teria pintado A duquesa de Alba se não tivesse antes intimidades com Cayetana; ou os Fuzilamentos do três de Maio, se não fosse um ardente patriota anti Bonaparte;  nunca teria escrito o meu livro de 1998, se não amasse a família que me albergava enquanto eu estudava a sua história de vida, ou o de 2000, O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo – reparo no subtítulo, se não fosse pelas raparigas que orientaram o meu deambular pelos montes da Cordilheiras dos Andes. Falar de emoções pode ser um perigo social para outros, se  não aceitarmos que nos amamos a nós próprios. Não sou um homem de fé, é bem sabido, mas entendo bem Moisés a as suas Doze Tábuas da lei…E mais nada digo, a gripe é um sentimento que refreia a razão….e gripe tenho eu agora, enquanto tento animá-lo a ser de espírito aberto e  igual aos outros….como se pode apreciar nos seus outros textos. Deve trazer a pintura para si…. E terá uma biologia do espírito…

ADENDA

O texto anterior foi escrito antes da resposta de Adão Cruz ao meu comentário ut supra. Escreveu no seu texto A propósito do comentário do amigo Prof. Raúl Iturra, que desejava uma melhora da minha gripe, o que agradeço, mas infelizmente a gripe continua e não desejo demorar uma resposta. O importante do texto é essa frase de estarmos em campos opostos.

Parece-me que o oposto está no comentário de 29 de Março de 2010, e não no de 18 de Dezembro de 2009, texto  louvado por vários comentaristas, como um bom  ensaio: No rastro da sexualidade caminha o amor; no rastro do amor caminha a sexualidade, para a seguir e por causa do meu retardado comentário, entrarmos hoje num desencontro sobre o conceito de ciência. Bem sei que Freud era um neurologista, usa a biologia para entender as pulsões do amor e da paixão. Eis os motivos que me levaram a escrever o texto.

Não me parece estarmos em campos opostos, bem ao contrário, saliento em todos os meus textos o ego, o superego e o isso ou id: pulsões neurológicas que orientam o nosso comportamento, sintetizadas na libido. Antes de esse texto, tinha escrito outro sobre o método científico do 13 de Novembro de 2009. Texto que diz:

O método científico é um
 conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos…. No método científico, a hipótese é o caminho que deve levar à formulação de uma teoria. O cientista, na sua hipótese, tem dois objectivos: explicar um facto e prever outros acontecimentos deles decorrentes (deduzir as consequências). A hipótese deverá ser testada em experiências laboratoriais controladas. Se, após muitas dessas experiências, os resultados obtidos pelos pesquisadores não contrariarem a hipótese, então ela será aceite como uma lei e integrada a uma teoria e/ou sistema teórico. As minhas referências são as de Karl Popper (Viena, 28 de Julho de 1902Londres, 17 de Setembro de 1994). Popper cunhou o termo “Racionalismo Crítico” para descrever a sua filosofia, especialmente no livro A Sociedade Aberta e os seus Inimigos (1943), CUP, base dos meus textos ingleses. Et sequitur

Onde sim temos ideias opostas, é que eu analiso o comportamento neurológico modelado pela cultura de um povo e não apenas pelos sentimentos. Como os meus antigos professores me ensinaram, a partir das pesquisas de Malinowski no Arquipélago Kiriwina da Papua Nova Guiné e das minhas leituras do nosso fundador: é o hábito social o que molda o comportamento biológico e psicológico entre os nativos, como eu próprio tenho analisado entre os Picunche, clã Mapuche da Cordilheira dos Andes, povos que vivem no meio de seres humanos com orientação neurológica diferente, como o caso Picunche, onde cada homem tem sete mulheres em casas diferentes e filhos de todas elas Tenho confirmado no meu trabalho de campo, que aprendi de Devereux  e os seus Mohave, ao trabalharmos juntos em Paris, que a neurologia é diferente entre etnias de culturas de latitudes diferentes. Tem sido preciso, no caso Mohave, costumava dizer Georges D., criar leis diferentes às leis norte-americanas, como acontece entre os Picunche mencionados, e os Quechua, esses antigos Inca do Peru e do Equador.

A diferença entre nós está na base de dados. Estudamos seres humanos com neurónios, com circuitos biológicos iguais, mas educados histórica e culturalmente de forma diferente.  Se assim não for, Devereux, o meu muito cedo desaparecido amigo Pierre Bourdieu que viveu e estudou os Kabila de Argélia, ou meu quase irmão Maurice Godelier, quase um Baruya ele próprio, não teriam acordado a nossa curiosidade ao nos ensinar as formas diferentes da psicanálise entre estes povos, ou como o os Sambia de David Herdt ou os Maori da Nova Zelanda, até o dia de hoje.

Sim, o esquema neuronal é universal, mas as suas manifestações são diferentes como bem sabe e me lembra.

Agradeço a sua paciência para este debate. Longe de mim pretender convence-lo do que bem sabemos é diferente. Quanto ao meu comentário sobre a pintura, não é para os seus neurónios, é apenas um reconhecimento de louvor a sua obra de arte.

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