O regresso do rótulo ‘comunista’

Tenho assistido nos últimos tempos à utilização, por gente limitada e mal-intencionada, do rótulo ‘comunista’ para classificar quem discorde das ideias de que perfilham. É o estafado truque, a que, durante anos a fio, estive, ou melhor, estivemos submetidos no regime salazarista. 

Conveniente é esclarecer que o Estado Novo utilizava esse instrumento de forma consistente e, temos de reconhecer, inteligente. Ao agregar os opositores ao regime sob uma unicidade classificativa, comunista, atingia os objectivos de eficiência e eficácia pretendidos nos mecanismos de repressão aplicados.

Agora, como diria um meu amigo brasileiro, os “aprendizes de sapateiro” nem tão pouco são capazes de colocar um prego na sola. São fala-baratos desestruturados, auto-convencidos, sem tomar consciência de que a própria ignorância os expõe ao ridículo.

Tenho familiares e amigos comunistas, cujos ideais, embora discordando, respeito. Sucede até que, de determinada empresa industrial histórica, hoje transformada em armazém, fui afastado por um grupo de comunistas líderes da Comissão de Trabalhadores. O sucedido, por me recusar a filiar no PC, não provocou o meu desalinhamento pelos valores de justiça social e de esquerda, a que jamais renegarei. É na luta por valores socialmente justos, de que os socialistas e social-democratas portugueses são falsos defensores, que me empenharei até ao final da vida.

Portanto, nada me demove de pensamentos e doutrinas de sustentação dos meus ideais, sem ser comunista. E o meu posicionamento político não concede a terceiros o direito a críticas e epítetos gratuitos. Podem discordar e é tudo. Como, de resto, o faço em relação a comunistas com quem me relaciono, sempre em clima de diálogo e de mútua tolerância.

Comments

  1. maria monteiro says:

    Eu fiz parte da subcomissão de trabalhadores mas nunca me apresentaram ficha de inscrição. Filiada só fui no PUP, Partido de Unidade Popular. Depois, bem depois tornei-me simpatizante dum povo que mais ordena/dentro de ti ó cidade. Lá vou descendo avenidas, dizendo presente em encontros, … lá vou sendo mais uma entre eles mas sem necessidade de apresentar cartão.

  2. Carlos Fonseca says:

    Maria, tens que aceitar que cada um tem o seu percurso. Eu entrei na empresa em 1964, e por ser sindicalista dos anos 1960, fui admoestado pela própria administração – Eng.ª Olímpia Feteira.
    Do que me sucedeu, por ordem do Eng.º Carlos Gonçalves à CT, o nosso comum e saudoso amigo Eng.º Carvalhão Duarte seria testemunha insuspeita. É pena, primeiro por ele, que tenha desaparecido e que o seu testemunho não seja possível. Um lanche a três, na Mexicana, esclareceria a questão. Creio que dito por ele acreditarias. Mas, o Fernando Silveira e outros comunistas que estimo, também sabem a verdade e a explicação – a inveja.
    A tua situação é distinta e não a desminto. Mas não duvides da minha luta por ideais de esquerda.

  3. maria monteiro says:

    Claro que não duvido, Carlos.

  4. Carlos Fonseca says:

    Maria, sei que és uma pessoa de bem e uma ex-colega que respeito muito.

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