Votos, negócios e temores

A actual situação de guerra total e sem olhar a meios, exige a obliteração do regime do Sr. Kadhafi. Não pode haver qualquer ensejo de contemporização para com o déspota, ou pretender a reforma de um regime que durante quarenta anos, empilhou provas insofismáveis da sua marginalidade. Propor um “período de transição” com a gente que comanda em Trípoli, pode levar muitos a pensar que consiste numa tentativa de “salvar o que possa ser salvo”. Ali, pouco ou nada existe para aproveitar e este deve ser um capítulo definitivamente encerrado.

O ministro Luís Amado finalmente acedeu a esclarecer a posição portuguesa, que contudo permanece prisioneira ao estranho princípio de um compromisso que todos sabemos muito difícil. De qualquer forma, as suas declarações no Maputo representam já qualquer coisa, mesmo verificando-se a existência de algumas zonas cinzentas no discurso. De facto, qualquer apeasement é inaceitável.

Hoje, nem Kadhafi pai ou qualquer outro membro da família, são hipóteses minimamente aceitáveis para a instituição de um Estado de Direito. Percebe-se facilmente que se não for possível obter uma vitória total com as óbvias consequências dela decorrente, o regime pretende pelo menos uma trégua que lhe permita reagir mais tarde, identificando adversários, consolidando posições e plausivelmente contra-atacar quando lhe for mais conveniente. Os Kadhafi não têm um mínimo de idoneidade no jogo diplomático entre potências, são avessos a qualquer noção básica de Direito Internacional, ameaçam sem escolher as palavras, não aceitam regras, nem hesitam quanto a reacções desproporcionadas. Pior que tudo, sempre foram absolutamente imprevisíveis. Comprovada esta verdade de décadas, deverão desaparecer da cena, por muito que isso custe aos seus amigos e recentes interlocutores da política e dos negócios. Que isto fique bem claro, pois para evitar desastres futuros, não há lugar para uma solução “à romena-Illiescu”. Nas Nações Unidas, os aliados tácitos de Kadhafi – russos, chineses, e comparsas menores, alguns dos quais, envergonhados europeus que não valerá a pena mencionar -, demonstram bem a necessidade de um forte sinal a enviar à comunidade internacional.

O comércio pode esperar, mas os princípios impõem-se a um Ocidente que não pode nem deve transigir. Até os americanos finalmente parecem render-se a esta necessidade.

Adenda: são 21.01H e dentro de uma hora, o C.S. da ONU votará a resolução. Esperamos para ver qual será a posição portuguesa. Ficaremos a saber se Portugal votará ao lado da sua aliada de mais de sete séculos – além da França e EUA -, ou se tergiversará no sentido da decisão ou apetite do seu “tutor” de Berlim, o que possivelmente significará uma abstenção igual á russa ou chinesa.

 

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