O beijo

…para os meus netos…

Bem sei que não conhecem a língua portuguesa, mas os vossos pais podem-vos explicar em inglês ou en neerlandês. Escrevo na língua impossível para vós, porque há obras do ser humano que impressionam os nossos sentimentos.

Esta imagem que vós apresento, foi esculpida em mármore pelo escultor francês Auguste Rodin (1840-1917), esculpida em 1883. Foi exibida na exposição internacional de Paris, em 1989, época em que se inaugurou A Torre Eiffel, cheia de luzes para a exposição. Em 1879, Thomas Edison tinha criado a iluminação eléctrica, base não apenas para a exposição, bem como para substituir os faróis a gás que iluminavam as ruas à noite. Foi a base do sucesso de exposição Internacional de Paris de 1889. A Exposição de Paris de 1889, centrava-se na “Torre de Gustav Eiffel” com 300 m., de altura, pesando mais de 7.000 toneladas e tendo mais de um milhão de rebites. Tinha duas longas galerias devotadas às Belas-Artes e às artes decorativas, por detrás ficava o imponente “Palácio das Máquinas”. Este último, projectado por Ferdinand Dutert e construído por M. Contamin, excedia em tamanho qualquer vão coberto construído até á data, com as suas 20 treliças principais, cobrindo um comprimento de 380 m., e cada uma vencendo 144 m., de vão livre. As treliças trianguladas, formavam arcos apontados sendo articuladas na sua base por eixos. Os visitantes circulavam num comboio interior em vagões abertos e sentados em cadeiras, sendo treliças um conceito arquitectónico que significa sistema de vigas cruzadas usado no tracejamento das pontes.

Com o aparecimento da electricidade, as esculturas em mármore de Rodin, brilhavam, não apenas pelo seu esplendor, bem como realçava cada toque de martelo que resultava em belas imagens. O título real da escultura de 181,5 cm × 112.3 cm, era “O Beijo” originalmente tinha o nome Francesca da Rimini, pois descreve a nobre do século XIII italiano imortalizado no Inferno de Dante (Círculo 2, Canto 5) que se apaixona pelo irmão mais novo do seu marido Giovanni Paolo Malatesta. Tendo-se apaixonado ao ler a história de Lancelot e Guinevere, o casal é descoberto e morto pelo marido de Francesca. Na escultura, o livro pode ser visto nas mãos de Paolo. Os lábios dos amantes não se tocam realmente na escultura, sugerindo-se que eles foram interrompidos aquando da sua morte, sem seus lábios nunca terem sido tocados.  Quando os críticos viram pela primeira vez a escultura em 1887, sugeriram um título menos específico: Le Baiser (O Beijo). Fontes: esta e esta (biografia de Rodin escrita pelo seu amigo e secretário, o famoso poeta Rainer Maria Rilke).

Rodin, como todo bom artista, era desconfiado e de mal humor. Contava com uma equipa de quatro cinco jovens aprendizes, que desenhavam o que Rodin pensava, e, a seguir, construíam a peça em miniatura que o escultor criava em mármore ou bronze. Como artista de talento também, era ciumento, pensava que era roubado ou copiado, colocando sempre um sinal segredo para se saber que era a obra original. Namorou a Camille Claudel, a irmã do poeta e diplomata Paul Claudel. Viviam juntos, nunca casaram, porque todo o interesse do escultor era a obra de Camille. Não parece ser certo, mas Le beseur, é uma escultura original, em tamanho pequeno, realizada por Camille. Prova não há, Camille, no seu desespero e amor por Rodin, aceitava todas as punições que ele imaginava, copiava na sua presença, obras de Camille, para ironizar. É famoso o carácter burlesco do escultor.

Um dia, em desespero, por ter encontrado ao seu amado e mestre com outra pessoa, correu à casa, e partiu todas as suas pequenas esculturas, feitas ao seu tamanho, e não ao de Rodin, esse gigante escultor que era capaz de dar forma as pedras maiores que ele. Esta angustia de Camile a levara a loucura, foi internada num asilo, Rodin nunca mais a viu, vindo a falecer no asilo aos 90 anos de idade, sem saber quem era nem onde estava. Nunca mais esculpiu. Rodin, bem ai contrário, passou a ser um artista de imensa fama.

Nunca esqueço que, entrando a Tate Gallery em Londres, nos anos 70, observei a escultura e ia desmaiando: tive que me sentar ao observar esse amor puro e sereno de um homem por uma mulher. Era uma das cinco cópias que o ciumento autor, tinha feito. A original, está no Museu de Paris.

Não é uma história, queridos netos, é uma realidade que qualquer dia vos pode acontecer. Há um ditado: trás um grande homem, há sempre uma mulher, como a Imperatriz Josephine Bauhernais trás Napoleão. Foi o caso de Camille com Aguste, apenas que bem ao contrário. Mal retirou da sua companheira toda a obra que ela era capaz de fazer, a abandonou a sua sorte.

Sempre, trás uma beleza, há uma história dolorosa, Como Francesca e Dante, como Josephine e Napoleão, como esta que acabo de contar, ou a de Délia del Carril, a actriz de cinema argentina, a sua primeira mulher, abandonada quando Neruda já era um homem de letras famoso. Ela o sobreviveu por mais de quarenta anos: ele faleceu como 60 e vários anos, ela com 103.

A vida dos criadores tem as suas tristezas que o mundo desconhece. Apenas dentro do mundo da arte, é que a verdade aparece, como Maria Callas e Aristóteles Onassis .

Mas, O Beijo, esteve, está e estará sempre aí… para nos causar um tormento de amor… um ímpeto que nos empurra profundamente ao amor da nossa mulher…

Comments

  1. Margarete Louzano says:

    Uauuuu… queria ser sua neta. Amei o post

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.