Gente rasca

As atitudes são quase símbolos e espelham bem o carácter de quem as toma.

Há umas semanas, o deplorável evento da omissão do PEC 4 ao Presidente e Parlamento. Dias depois, o absurdo discurso presidencial, quase de chefia de partido. Ontem e após o início da sessão para a discussão do mesmo, outra cena caricata, quando o 1º Ministro sai do hemiciclo, numa inegável demonstração de desprezo pelo mesmo. Pouco depois, dois Ministros – os mais importantes – ausentam-se ostensivamente, deixando Manuela Ferreira Leite discursar para deputados que não podiam desconhecer aquilo que tinha para dizer. Este tipo de ordinarice tornou-se de tal forma corriqueira que passou a fazer parte integrante do sistema vigente.

É este, o gabarito democrático da gente que diz governar Portugal. É esta, a gente que tem pretensões a concitar o respeito dos comuns mortais que lhes pagam as mordomias e a proeminência muitas vezes imerecida. É este, o resultado de um longo período de ausência do autêntico parlamentarismo em Portugal, esmagado pelos cacetes e lápis azuis de Afonso Costa e Salazar. Aqui está o resultado, esta é a República Portuguesa.

Mas o caso não ficou por aqui. No mesmo dia, o Presidente que diplomatas estrangeiros dizem ser um sujeito vingativo, tira a mesquinha desforra daquilo que se passou há duas semanas. Mal o seu ainda 1º Ministro saiu de Belém, apressou-se a divulgar o pedido de demissão que aquele lhe fora apresentar e sem sequer aguardar o comunicado oficial do dito cujo. Como diz António Barreto, o espectáculo não é dos melhores.

Eles já nem disfarçam, acham alguns, enquanto outros pensam ser essa, a grosseira essência do regime. Esta gente é tralha de um enorme baú de vulgaridades e bem podia ser reciclada na Inglaterra.

 

 

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    … Tudo certo! Apenas Salazar está a mais, nisto. Não é possível continuar a culpar Salazar, quando o 25 de Abril se deu há 37 anos; tempo mais do que suficiente para que as pessoas se educassem e corrigissem o que estaria mal.

    No entanto, a verdade é que, de cada vez que alguém chega ao poder, revela-se incorrigível ditador. Mas este não é o perigo. Enquanto ditador, Salazar tirou o País de uma crise; estes limitam-se a ser ineficazes ditadores de pacotilha; meninos mimados, imberbes e sem substância, aos quais não se pode contrariar as perrices —entreguem isto a quem saiba, a quem possa gerir sem promiscuidades. Se tiver que vir de fora… seja!

  2. Artur says:

    Pior do que a eventual incompetência ou incapacidade para governar é o mau exemplo que esta gente dá com o seu comportamento.
    Num país que tem poucas matérias primas,fracos recursos energéticos, uma parte significativa da população é iletrada, pouco empreendedora e de fraca inteligência; é compreensível que nem ninguém nem nenhum partido consiga fazer milagres.
    Agora, o que é extremamente nocivo para a sociedade é que os seus lideres não saibam (ou não queiram) ser bons exemplos morais para o povo. Não me refiro à moral doentia da religião católica, mas sim a exemplos de virtude que promovam o verdadeiro desenvolvimento da sociedade tais como a verdade, o respeito, a honestidade, ou o bom senso.
    Os pedopsicologos sabem bem o quanto os maus exemplos dos pais contribuem para o mau comportamento dos filhos. Ao nível da sociedade passa-se algo semelhante e é por isso que nas nossas ruas o povo vai gemendo “se os cães grandes fazem assim e assado e vão-se safando, porque é que eu haveria de ser burro e não fazer o mesmo?”

  3. Nuno Castelo-Branco says:

    Rodrigo Costa,
    Quando me refiro a Salazar, apenas faço notar a “normalização” do livre arbítrio e do claro afastamento da população quanto à escolha do seu destino. Isto teve consequências graves, especialmente no que respeita ao civismo, aliás cultivado durante todo o século XIX e do qual os republicanos como A. Costa beneficiaram e pretenderam ser os exclusivos arautos. Por vezes questiono-me acerca do que poderia ter sucedido em Portugal, se ao invés de miragens redentoras de substituição de cabeça – porque essa cabeça era muito mais que um nome -, os republicanos tivessem optado por enveredar pela criação de um partido Trabalhista, evitando-nos questiúnculas que ainda hoje nos sufocam. Hoje, um Salazar seria impossível e o “próprio candidato” – se fosse vivo – utilizaria outros métodos. Nascido em 1950, Salazar seria inteligente para entender este novo mundo. O que se passa na margem sul do Mediterrâneo, indicia algo de novo e que provavelmente, a nossa classe política com mais de 40 anos de idade, ainda não percebeu. O poder é mais difuso, bem ao contrário daquilo que as aparências indicam (refiro-me aos aglomerados financeiros, industriais e mediáticos). As pessoas querem escolher, mesmo que não apresentem uma alternativa ou um programa consistente. Há que ter isto em conta e quem assim não entender esta evidência, arrisca-se a ser obliterado. De facto, poderemos estar a um passo de revoltas democráticas dentro da democracia. Bem vistas as coisas, já disso houve um simulacro quando desapareceu o regime de 1946 na Itália. Democracia-Cristã, partido Comunista, partido Socialista, todos eles se desvaneceram e foram substituídos por outras realidades. Resta é saber se o novo pano de fundo é mais luminoso que o anterior.

    Artur,
    É precisamente isso o que quis dizer. Um caso destes em Espanha, é absolutamente impossível. Seja quem for o 1º ministro, o Chefe do Estado é solidário em termos institucionais e isso pode mesmo acontecer, após a cessação do mandato do governante. lembra-se do “Porque no te callas?”, uma exclamação que pretendeu defender um ex-1º ministro que o servira o país durante uma década? Crê tal coisa possível em Portugal. Claro que não é, todos o sabemos sem o dizer.
    Devo ainda acrescentar que existem maneiras de manifestar o desagrado, sem que as chamadas de atenção cheguem à praça pública. Zapatero, Cameron, Blair, Martens ou outros, jamais ousariam proceder nos seus países, tal como o eng. Sócrates e alguns dos seus antecessores normalmente o fizeram. É que existem certas distâncias a manter, bem impostas pela separação de poderes. Não cabendo nesta resposta um elogio à Monarquia Constitucional, creio que de tão óbvios, factos são factos. Cavaco, tal como um dia o foram Soares e Sampaio, foi e é um chefe de partido. Na verdade, todo este teatro já ultrapassou a comédia e aproxima-se perigosamente da tragédia.
    Não temos uma única pessoa em Portugal, na cúpula do Estado, capaz de ser um referencial. Nem uma única entidade, uma só!
    É certo que se agita sempre com o argumento da necessária elegibilidade dos cargos. Pois eu continuo a defender o carácter falacioso dessa suposição e sublinhe-se, em certos cargos e mais que a genialidade, existe uma imperiosa necessidade do senso comum. Os poderes “de facto”, não são nem jamais foram alguma vez elegíveis. Olhe à volta e conclua.

    • Rodrigo Costa says:

      Nuno,

      … Infelizmente, o problema de Portugal não pode ser analisado num contexto global, por ser muito específico; por ser uma questão de mentalidade. De todos os países que conheço —poucos, é certo— não há nenhum onde tanto vingue o xico-espertismo. Esta é questão de fundo.

      Salazar, ou outro, teria dificuldade em se impor, porque há um dado novo que é muito importante: os impérios da Comunicação Social.

      Porém, quer queiramos, quer não, do modo como as coisas se apresentam, só um grupo de pessoas decididas, conhecedoras de quem somos e do que nos rodeia, pode projectar e concretizar mudanças. A Democracia só faz sentido como regime estabelecido entre pessoas do mesmo nível, com a mesma capacidade de entendimento; porque não é sensato fazer depender a vida de um país de votos de eleitores impreparados.

      Por muito que doa, o País é um doente que tem que ser submetido a remédios amargos. Ou os toma ou… não tem qualquer hipótese.

  4. António Lopes says:

    Realmente Basta!…
    Com estas Atitudes, de todos os nossos Políticos incluindo o Presidente da Republica, Basta!
    Gostaria imenso de ajudar o nosso País, apoio qualquer movimento a partidário, quero participar no milhão de pessoas a dizer basta!
    A melhor altura para sair-mos todos à rua, era depois destas eleições onde poderia haver 1 milhão de votos em Branco!
    Vamos todos votar em branco! Vamos dizer basta a todos os nossos governantes!

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