Anabela – final capítulo 2

casamento anabela1

Trazida ao mundo pela mãe, cuidada no mundo pelo pai. Anabela é também a feitura de duas situações diferentes. Situações das quais temos falado os antropólogos, por carinho e por pesquisa (Iturra 1990a), Reis 1991), e por intimidade amistosa. Por acolhimento. António é resultado de uma mãe que aí chega a Vila Ruiva do alto céu (Genealogia 8), conhece a Virgílio Lopes, que casa, faz o filho e a abandona. Com a desculpa de emigrar a Argentina. A procurar dinheiro. Lá fica com os irmãos que lá já estavam. Como também lá morre Virgílio no ano 82.

Sem ter visto ao lindo homem sedutor, que tinha feito. Um Virgílio sem terras, que precisa do dinheiro, como todos, para comprar de outro sistema senhorial que perde a propriedade. Como é também a aristocracia portuguesa morgada, descendente dos cálculos liberais de 1830, aristocracia mantida pelo ditador português do século 20. Essa ditadura que exporta força de trabalho que havia a mais nos campos lusitanos. Faz da exportação, uma indústria lucrativa para Bancos, comércios, advogados, convénios entre países. Deixa rapaziada com mais sós, as viúvas de Caroline Brettel (1988). Viúvas sem terra, sem pão, com o seu corpo para o trabalho e para tratar da descendência. Descendência que no caso da mulher do Virgílio, e da sua mulher Conceição à Sardinheira, é só uma. António, pelo que me tem dito, passa a infância a correr a fugir da mãe, mas a obedece-la. Porque a mãe tinha um rigor disciplinado para o tempo de trabalho: ir a pé os quilómetros entre Vila Ruiva e a vila de Nelas a seis quilómetros que são doze quando anda com uma cesta cheias de peso na cabeça. Trabalho que faz duas vezes por semana, para colocar um produto precisado pela freguesia. A barata sardinha. Na época que há. Que nem sempre é todo o ano. A enxada ao ombro, a trabalhar as terras que angaria de outros, o que trabalha para outros como jornaleira. Essa mulher que, nos seus 70 fortes anos, cruzava os braços nas cadeiras e dizia-me ai senhor doutor!, quanto é que nos poderíamos fazer juntos, com este calor, e riamos. Tirava o lenço da cabeça, coçava, e tornava a por. Enquanto riamos outra vez. Uma mulher habituada a corpos. Aos corpos dos mortos, que lavava e vestia, um tostão cada. Ao corpo do trabalho, o seu, enxada para o produto dos outros. Ao corpo do filho, que ia ficando em bebé com os vizinhos, ou era levado ao campo com a mãe ao trabalho, e que pelos seus seis anos ou antes, estava já a trabalhar com a mãe que, se não trabalhava, punia-o. Tanto, que, espírito jocoso como a mãe, dizia que andava mal do ventre e precisava…E a mãe, acreditava, não acreditava, mas, que remédio, deixava ir caso o caso for. Ele ia e não voltava tão rápido e tão facilmente. Tinha já nos bolsos os botões tirados as roupas penduradas para secar, dos vizinhos, e ia jogar ao botão com eles. Para ganhar. Para desafiar. Para se entreter. O que Peter e Yona Opie denominam treino na acção interactiva (1979), que Filipe Reis e eu temos estudado (1989), na base também do amigo. Do António. Do Sr. António. O proprietário do café que fez a sua volta da Alemanha. Esse indivíduo que fez a vida só. Que foi a escola local e, como conta, coçava a cabeça enquanto ouvia e pensava nos coelhos e nos pássaros. E acabou a Quarta classe entre os trabalhos que fazia com a mãe e para a mãe e para si. Até sair da aldeia, ir trabalhar a Lisboa a casa de comercio de uma prima, casada com o Sr. Ferreira das Amoreiras de Lisboa. Até ficar farto do tratamento que, o ontem desaparecido Ferreira, dava-lhe por ciúmes.  António pega em si, anda até Leiria, a casa de outra prima, e lá trabalha nas obras. Opções. Opção que António sabe tomar quando não gosta. Com calma, em silêncio, mais, de frente. Vida dura, só, a pensar na mãe da qual é melhor fugir. E no futuro que ele só, sem lar nem família, tem que fazer. Vida que começa pela Guiné e a guerra colonial, com tostões a juntar. Vida que continua pelo matrimónio e a entrada as terras da família da mulher. Pouca, mas a praticar um saber que na família Nicolau da mulher, já não fica. Família de ovelhas, de pastoreio, de venda de lã. É onde António conhece as várias alternativas da vida, para orientar a sua por onde for possível. E, casado já e com dois filhos, deixa a casa que comanda por falta de decisão de cunhado, por falta de homem em casa. E manda a mulher ir com ele à Alemanha. Onde passam 14 anos. Só com o filho, com a dor de ter longe a filha. Especialmente, a maternal Fernanda, habituada a um lar. Onde há um irmão filho da mamã e da irmã. Do qual a irmã aprende o oficio de mãe. Assim como do António, o de comerciante. Os dois juntos, a vida em países estranhos, de outras línguas, de outros hábitos, Catorze anos de investimento para alargar o café que tinham já instalado na aldeia. António cresce entre duas culturas: a ditadura que manda, e a de Vila Ruiva que ensina a solidariedade e a interacção e a família e o carinho. É a herança que Anabela começa a ter: ser filha de segunda preferência, como relata na sua Historia de Vida.

Preferência que faz mal ao pai mais tarde, e passa a tomar conta especial da rapariga, que dificilmente se adapta á vida em família. Família que lhe cai quando adolescente. E que foi criada na companhia de amigos e pares que hoje têm profissões como ela. Profissão que ela não podia decidir. A que queria, era importada do que tinha visto em nós, iludida idealmente por nós, antropólogos masculinos que por aí passamos dois anos a viver todos os dias. A sermos membros da sua casa e dos seus trabalhos. E o pai, corre com a ideia de ela de ser como nós. Como corre com o filho Luís, filho que não entende no quotidiano aldeão, porque ele não tinha modelo de ser filho de um homem. António só foi filho de uma mulher, e teve perplexidade com o pai longe. O com os homens  que fazem filhos com as mulheres e as deixam mais tarde. A herança de Anabela é complexa, entre o catolicismo disciplinado da avô materna, a solidariedade social á Durkheim (1912) do pai,  as ideais económicas da mãe á Polanyi (1944), e o comportamento novo e respeitado do Luís, Gestor á Friedman. O filho de um socialista líder da aldeia. De um socialista que organiza a  aldeia. De um socialista que dirige a Junta de Freguesia. De um socialista que passa de tirar o chapéu aos senhores, para os outros tirarem o chapéu a ele. Pasa ele ser senhor democrata. Sorridente. Se álcool. Sem tabaco. Sem outro divertimento que andar a correr no seu carro quando preciso. Homem sem lar, que deseja fazer o seu, e o faz com o carinho tenro que desde a infância guardou. Como guarda agora a sua mãe, com esse oitenta e muitos anos com tromboses. E á sogra, á qual deve o cuidado dos filhos. E a mulher, á qual deve o carinho da casa e o trabalho exacerbado destes anos todos. O investimento da mulher que se entrega ao marido. E essa a herança de Anabela, uma herança de entendimentos, zanga exprimida, silêncios quando convêm, intimidades carinhosas com os pais. Vida intelectual retirada do convívio com os antropólogos. Com este antropólogo, ao qual tem ajudado muito. Uma Anabela que reencontra aos pais aos seus catorze anos, que estuda na escola local, que vai de cedo manha a Vila para o ciclo e o secundário, que se desloca a quilómetros de distância para se preparar no Instituto Superior Técnico, para ser a professora que é. Ajudada pelos remorsos do pai, feitos devoção. Um grupo, todo, que vive a Ditadura em silêncio, abatida sobre eles pelos senhores locais, com cujas terras vão ficando na transição, vão comprando. Que não percebem a desordem do 25 de Abril, e vão disciplinando á aldeia, enquanto a aldeia aceita as novas leis. A herança de Anabela é também dupla, uma ideologia totalitária que fica, como tenho referido já (Iturra 1990 b) e 1992), e uma democracia que é feita lentamente ao longo dos anos. Anabela recebe estas ideias e as sintetiza nos seus próprios pensamentos, a distinguir o que é de homem e o que é de mulher. Ela pensa que as mulheres vão a missa, com a Avô materna, com essa avó que a criou., e que respeita como a uma mãe, saiba ou não. Como analiticamente diz na teoria o analista Guy Ausloos (1996), uma pessoa como Anabela, herda a família típica dos sítios dos pobres, que vão ascendendo lentamente, a força de investir o corpo no trabalho de juntar dinheiro. Como os de Victoria e os de Pilar. Também Anabela tem dois pais de origem diferenciado, mas socialmente mais perto. E de uma união emotiva que não quer ser partida e é cuidada por ela, como pelo pai. Esses, que, após longos anos de distância, encontram um lar, uma interacção, um bem-estar por eles feito. Como vamos ver no capítulo 3, quando tratemos dos ascendentes. António foi feito á metades e teve que por a outra parte ele próprio. Fernanda foi feita toda pelos pais, e teve que suplementar a emotividade como mulher de um homem disciplinado, Disciplinada como ela é. Eis a herança de Anabela. Essa que o seu irmão Luís, homem, não consegue guardar, é um rapaz que quer estar fora da casa, não quer outro lar que não seja o lar que ele próprio tem feito hoje. Esse lar que, enquanto escrevo, virá, longe da aldeia, a dar rebentos que, como autónomo neo-liberal, deve criar em conjunto com a mulher. Anabela, guarda a solidariedade Mouneriana, criada pelo pai nas entreajudas, no culto de manter a família alargada junta, de ter em casa á cunhada da mulher, que lhe faz a agricultura, enquanto ele, faz o comércio e a política. De anónimo, passa a ser homem público, que pode resolver conflitos dos vizinhos. E, como distem antes, de ele tirar o chapéu, o chapéu é-lhe tirado a ele. Trato que aceita de forma natural. Clodomiro, Hermínio e António, Yeyé, Esperanza e Fernanda foram feitos por pessoas que os tiveram que deixar para se fazerem eles próprios, no meio das conjunturas Históricas dos tempos. Três grupos humanos, de três países diferentes, todos semelhantes pela sua subordinação ao capital. Capital que começa a manipular hoje, desde o seu canto, no ocidente mais desenvolvido da igualdade. Como Giddens (1992), Gellner (1992), Bourdieu (1993), Godelier (1996) dizem nos seus escritos da  pós modernidade. Ou, entre nos, Boaventura de Sousa Santos (1994). Todos os quais não conhecem os meus das aldeias, mas conhecem os seres dos países, porque conhecem o que John Stwart Mill (1844) queria dizer: nem todo homem é total em só um aspecto, o económico, há também as emoções. Esse Mill que bate um Smith (1776) da Riqueza das Nações, que escreve desde o estudo da aristocracia escocesa do Duque de Baccleuch, que imita a o seu Mestre Quesnay (1758), ao qual tenta superar e ultrapassar. A revolução estava já feita na Grã-bretanha com Cromwell, enquanto estava a se preparar com os Beaumarchais (1775), os Diderot (1751), os D’Alambert (1751), os Voltaire, (1759), na França de Quesnay, onde uma classe caia para subir outra. Essa que manda por sobre os meus Clodomiros, Hermínios e Antónios. Assuntos que Victoria, Pilar e Anabela não conhecem, nem suspeitam. Porque vivem a construção das suas vidas a partir do substantivo das mesmas. Há uma exclusão, como João Ferreira de Almeida gosta de dizer (1992), que divide o modelo que manipula o pensamento, da epistemologia de todas estas crianças que cresceram, como eu próprio gosto de dizer. Porque o vejo. Porque o tenho vivido com eles, nas suas casas, nos seus grupos, nas suas intimidades, por mim partilhadas faz já 43 anos. Eis a herança de Anabela, que eu observo e conheço melhor do que ela. Porque as suas vidas relativizam o meu etnocentrismo de intelectual. Os modelos que os Paulo Freire (1972 e 1975), os Meyer Fortes (1987), os Leach (1961), os Stuchlick (1976), Os Bourdieu (1984), e os amigos Godelier (1982) e Goody (1993), me ensinaram. Relativismo que a minha própria descendência tem-me imposto. E que a contraditória ascendência minha critica. Até ter que mata-los no mana, para amá-los no social. Como merecem. Eis a herança que Victoria, Pilar e Anabela têm recebido e transferido a mim, o seu observador participante de faz trinta anos. E que foi transferida a elas, via os seus feitores, pelos seus antepassados. Porque a criança que cresce, existe via pais, dos seus ancestrais. Ou via social, dos seus ancestrais. Dever de cada docente de eles, fazer como nos antropólogos, com eles fazemos: diário de campo, genealogias, mitos, ritos, historia local a serem sabidos antes de entenderem qualquer outro modelo. Ideias todas, que passamos doravante, a estudar.

Anabela Lopes casou na Igreja de Senhorim, Freguesia de Vila Ruiva, confidenciando comigo a sua boda como filha portuguesa adoptiva… esse 25 de Abril de 2009 dia do matrimónio com o Gestor Miguel Abrantes

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