Os troca-tintas e a troika-tintas

Em adição aos troca-tintas internos – por culpa de alguns destes, diga-se –  outros de fora vêm ao nosso encontro com idêntico ímpeto. É o caso, por exemplo,  de Olli Rhen, comissário europeu, e de Dominique Strauss-Khan, director-geral do FMI, ao pronunciarem-se sobre a ‘ajuda externa a Portugal’. Quase em simultâneo, Rhen afirma: “Apoio deve estar concluído nas próximas semanas””; Strauss-Khan, por sua vez, garante: “Não vai ser rápido, nem fácil”.

Afinal em que  ficamos? A pergunta é legítima.  Talvez fosse útil esclarecer junto do terceiro comandante da troika, o Sr. Trichet do BCE. Ou talvez não; correríamos o risco de levar com uma resposta do tipo: “Não vai ser lento nem rápido, nem fácil, nem concluído”.

Quanto aos homens de terreno da troika, lá andam por Lisboa. A ver documentos, contas e broncas  armazenados em computadores. Que se saiba, já chegaram à brilhante conclusão de que as casas em Portugal devem ficar mais caras, porque 76% dos portugueses vivem em casa própria. Como não tivemos bolha imobiliária – por enquanto – há que providenciar o seu enchimento artificial e promover o mercado de arrendamento.

Percebo o ponto de vista da troika ao denunciar a elevada taxa de portugueses com casa própria. Grande parte do endividamento externo e responsabilidades da banca em relação ao exterior têm aí origem. Como, de resto, os ganhos dessa mesma banca e o enriquecimento acelerado de construtores de prédios de habitação.

O erro, porém, foi cometido desde há muito; mas, acentue-se,  o nosso grau de incumprimento de dívidas de empréstimos para habitação não permite falar de bolha.

Parece-me, pois,  contraditória esta troika. É defensora do absolutismo do mercado e, portanto, da teoria do comportamento de preços mediante os mecanismos da oferta e da procura; porém, por outro lado, é favorável à “fixação administrativa” de elevados preços de aquisição de habitação. A fim de encorajar, dizem, o mercado de arrendamento, acenando com o benefício das rendas serem inferiores à prestação do crédito.

Os homens esquecem-se que, se a procura de casas para arrendar registar intensivo incremento, as rendas dispararão de imediato. Já apenas a notícia, tal como foi publicada, tende a despertar apetites nesse sentido. Ou não será assim? A troika que por cá anda sofre da síndroma dos chefes máximos. Diga-se, pois, que é uma “troika-tintas”.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.