o saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade III

Beethoven Für Elisen Bagatela en lá menor

Falar de amor à beira do abismo refere-se àqueles que superam um traumatismo e experimentam muitas vezes uma impressão de sursis[1], que multiplica o gosto da felicidade e o prazer de viver o que ainda é possível. Neste ensaio vibrante sobre a vida, o autor mostra que mesmo os que têm graves feridas afectivas podem transformá-las em grande felicidade. O título traz uma figura de retórica que o autor transforma em conceito para caracterizar os resilientes. Trata-se do oximoro, que consiste em associar dois termos antinómicos: falar de amor/beira do abismo.
Aqueles que vencem um traumatismo conseguem fazer coabitar doravante o horror e a poesia, o desespero e a esperança, a tortura gelada e o calor humano. Esse título paradoxal surpreende-nos; é uma nova e rica contribuição que o autor desenvolve ao longo da obra.

Cyrulnik considera, no seu amor à beira do abismo, que, depois de um trauma psíquico, como o trauma físico, instala-se uma perda de tecido afectivo, com necrose e escarras. É carregar a morte dentro de si. Acrescenta: Todo traumatizado é obrigado a mudar, senão fica morto.

A obra de Cyrulnick passou a ser o panteão glorificante da salvação de muitos que têm sofrido desgarros na sua vida infantil, mas são capazes de os superar, tal como o autor que leva no bolso o trauma guardado dentro de um lenço[1].

Entre as crianças por mim observadas ao longo dos meus quarenta anos de trabalho, sou capaz de apreciar os desvios que elas fazem somente para não passarem pelo trilho do murmúrio dos seus fantasmas. Ideia retirada de uma das obras de Cyrulnick onde, ele próprio, acaba por confrontar esses meios que fazem dele um ser humano criativo, que guarda a força que dá o sofrimento, para construir obra. Como muitos de nós, ao longo da vida, tentamos esquecer as nossas tristezas e limitações emotivas, no meu caso, recorrendo à escrita. No dia em que não escrevo, sinto um dedilhar desse passado que no presente me atormenta na criação dos meus descendentes. Sempre pensamos estar a fazer o melhor, criamos rituais que, se não contribuem em nada, parece-nos ficarmos sem alternativas. Todavia, há sempre uma criação à nossa espera. Mas o que mata? A pouco e pouco essa resiliência acaba por ser parte da nossa condenação em vida. Especialmente se estamos ao pé de pessoas que têm sofrido traumas e não sabem usar essa capacidade oxymoron ou resiliência, como já definido dentro deste texto que hoje escrevo[2]. Cyrulnik, que foi capaz de sobreviver e criar novas ideias para apoiar as pessoas traumatizadas na infância, foi capaz de escrever não apenas textos sobre resiliência, bem como comentar como ela deve ser tratada. No livro citado em nota de rodapé, no Capítulo que corresponde, diz:  Governados pela imagem que se faz de nós próprios.  

A criança no decorrer das suas interacções quotidianas, aprende a contestar perante si, a ideia estruturada por ela própria, na relação de “ela com os outros”. Todo o ser vivente inevitavelmente reage às percepções que advêm do mundo externo, mas um ser humano pequeno, a partir do sexto mês de idade, contesta também as representações formuladas por ele ou representações “de ele com os outros”, construídas pelo próprio que impregnam a sua memória. Um ser humano recém-nascido apenas sobrevive se tem junto de si as imagens de referência de carinho, de vínculo protector, de afeição ou de apego emotivo. Sozinho, não tem nenhuma alternativa para se desenvolver, para crescer. No desenvolvimento espontâneo dos factos biológicos, a imagem afectiva, é, na maioria das vezes, a imagem da mãe, que tem levado a criança dentro de si. No entanto, toda a pessoa que tenha alimentado com amor e boa vontade, outra mulher que não seja a mãe, ou um homem ou, ainda, uma instituição, passa a assumir a função de figura terna de apego, composta de imagens afectivas, de sentimentos afectivos e de factos carinhosos endereçados ao recém-nascido. Entre gesto e gesto de ternura e simpatia, esta realidade sentimental, sensorial, emotiva, impregna-se na memória do mais novo e ensina-lhe a pôr atenção a comportamentos certos que advêm das figuras de afeição. Toda a mãe infelizmente vencida pela sua história, pelo seu marido ou pelo contexto social, apenas pode emitir sentimentos de mulher deprimida: face pouco expressiva, falta de sedução corporal, olhares desviados dos outros, uma verbalização decaída. Por causa desse patamar de sentimentos da mãe, que invade e influência os sentires dos outros, o bebé aprende a reagir com comportamentos de decaimento emotivo. A partir do primeiro ano de idade, é-lhe suficiente perceber essa figura de afecção, como uma imagem de apego emotivo infeliz, causando dor. O bebé não reage apenas a essa percepção de mãe triste, a sua reacção é do amor à beira do precipício, da falta de carinho emotivo aprendendo tristeza com antecedência, porque é infelicidade o que lhe é ensinado pela figura afectiva.

Pelo seu terceiro ano de idade, o pequeno, já na idade de empatia, torna-se capaz de reabituar as representações que havia aprendido das representações do mundo mental da sua mãe, as suas motivações, as suas intenções e as suas crenças: “Ele ainda vai pensar que sou eu quem tem comido o seu chocolate, apesar de ser o seu irmão. Um bebé a crescer dentro de um mundo frio de afectividade, que se desenvolve num mundo frio, está prestes a pôr atenção a toda a afectividade fria que tudo dos outros lhe pode entregar”. Praticamente pensa:  “Toda relação afectiva arrefece ao ser humano. No caso inverso, uma criança que se sente amada, pensa-se amável, por causa dele próprio ser amado”. Este impingir na sua memória de afectividades de sobrevivência, pode criar no pequeno uma representação do seu ego confiante e amável, que usa com simpatia ao entrar na interacção social.

Esta aprendizagem cria um estilo de vida afectivo durável, que se estende, além do mais, para as relações externas, especialmente nos seus encontros amorosos:” Ao saber o que sou, nem por isso oiço aos que me desprezam, não vale a pena“. O jovem amado na sua infância pode também pensar :” Ao pensar no que eu sou, estou certo que ela vai-me aceitar”. Esta representação do eu com um outro, é “uma construção a dois” da vida social que depende dos encontros e reencontros, mas que pode-se desenvolver, como todo o fenómeno da memória em relação ao apagar ou esquecer, o reforço da mesma ou a metamorfoses das relações[3].

O texto original, em francês, tenho-o guardado tal e qual, para os leitores saberem que traduzir não é apenas uma mudança de palavras, é, antes sim, todo um estilo gramatical a ser alterado.

A resiliência passa a ser de uma importância capital para saber e entender o comportamento dos outros. Para, especialmente, entender o Id ou o Isto. Para além de tudo, esse saber das crianças. É a terceira via, para a qual tornamos agora.

Essa terceira via é o saber que o contexto social dá à criança, como Giddens tem desenvolvido nos seus textos, especialmente nos por nós citados nas páginas 54 e seguintes.

O governo e as várias associações cívicas deviam apostar na educação sexual da nossa população, pois, infelizmente, continuamos a ser recordistas, a nível da União Europeia, de gravidezes adolescentes e da prática de sexo desprotegido. Contudo, o mais confrangedor é saber que, relativamente ao primeiro caso, há gente que pensa que não se engravida na primeira relação sexual, e quanto ao segundo, está a aumentar exponencialmente em todas as faixas etárias o número de seropositivos.
Pelo que ficou dito, em nossa opinião, é urgente investir em campanhas de educação sexual a todos os níveis, nomeadamente entre os adolescentes, mais sensíveis aos impulsos da libido e ansiosos por experimentar determinadas fantasias sexuais, mas desconhecendo as suas implicações…Ideias impostas no meu argumento pelo blogue de Maldonado, escrito a 28 de Dezembro de 2008. Durante o dia denominado dos inocentes[4]. Dos Inocentes, pelas mortes causadas por Herodes Antipas, Rei dos Hebreus no Século I da nossa era, ao saber que ia nascer um rei que iria disputar o seu trono. Mandou matar. Quantos? Nem sabemos, mas eram crianças de Belém da Judeia, desde os dois anos de idade para cima. É o que as crianças, as nossas crianças, aprendem enquanto os nossos legisladores tencionam ultrapassar a crise económica que nos habita e não sabem resolver[5].

É-me impossível fechar o texto sem tornar a esse começo afectivo de Boris Cyrulnik. Não duvido que a teoria de Freud, Klein, Bion, e Miller, sejam teorias de importância capital, especialmente as de Alice Miller, para quem procura penetrar o saber da mente cultural da criança. Bem como me é impossível, após estudar tanta criança, analisar as suas aventuras e desventuras, deixar de referir que, se Freud fosse vivo, deveria rever e modificar a sua definição do Complexo de Édipo e a ideia da figura paterna ser um castrador ao mandar e impor ordem dentro da casa ou lar. Hoje em dia, são os pais – eles e elas –, esta péssima língua portuguesa machista tem palavras iguais para acções diferentes, que sofrem o denominado complexo de Édipo com a saída dos seus descendentes de casa, muito novos. Não casam, vivem juntos em amancebamento[6] ou concubinato[7], ou seja, não assinam contratos nem se juntam publicamente em cerimónia ritual, e se estão satisfeitos um com o outro, casam depois e trabalham em conjunto desde o primeiro dia em que começam a viver em concubinato, este é o seu experimento pré nupcial que, hoje em dia, a maior parte das pessoas faz, especialmente no Alentejo (Portugal), na Andaluzia (Espanha) ou nos meios burgueses, situação que se verifica pela inexistência contratual ou pela existência, como está definido no Código Civil Português, de impedimentos dirimentes[8]. Antigamente, na minha infância, o Natal era como nas aldeias portuguesas, galegas, polacas, húngaras e em várias da América Latina que o comemoram. Nem todos o fazem, porque na América Latina têm sobrevivido cultos ancestrais que os invasores portugueses, britânicos, franceses e espanhóis não conseguiram tirar.

 O melhor modelo para entender a vida e o saber das crianças, é o escritor Quechua- obrigatoriamente peruano por lei -, Ciro Alegría e o seu encantador livro El Mundo Es Ancho y Ajeno [9]. O Gabriel Garcia Marquez e os seus Cien Años de Soledad[10], ou ainda, de entre a sua vasta obra, Isabel Allende, especialmente com o seu livro Mi País Inventado[11].

É evidente que um saber para curar de maus-tratos infantis, definidos por Cyrulnik, acaba por nos dizer: senhores, sim, a mente humana é um labirinto de paixões, como diz Garcia Marquez no seu melhor livro: El General en su Laberinto[12]ou na obra El Amor en los tiempos del cólera[13]. Se assim não for, deveríamos lembrar Gabo ou Isabel Allende em La Casa de los Espíritus[14]. Também explica essa mente, o livro mais esquecido de todos, que herdei do meu pai, esse maravilhoso romance Gran Señor y Rajadiablos[15]. Texto que nos facilita entrar numa mente cultural muito desconhecida. Mente cultural, que luta por saber, liberdade e desamamenta os pais mais cedo ensinando-lhes a serem adultos.

O saber das crianças, nas suas três vias, acarinha a sua sexualidade e emotividade como Simón Bolívar no seu Labirinto, como a procura do indigenismo primevo de Ciro Alegría, como a nostalgia do que foi e já não é, no País Inventado. O saber das crianças precisa de psicanálise para entender esse precoce desejo, mas dos seus adultos, porque este texto é para os adultos entenderem as crianças e saberem que a liberdade delas conta desde o primeiro dia, como referi na minha obra Yo, Maria de Botalcura[16]. Texto que advoga pelo saber livre dos mais novos, sem serem impedidos ou travados pelos seus adultos. A psicanálise do saber e da sexualidade das crianças, é para os adultos saberem por onde andam como adultos maiores com descendência liberta pelo neo-liberalismo, que Blair e Giddens não souberam encontrar como terceira via para a liberdade desses adultos. Talvez Obama hoje…

Em jeito de conclusão.

Parece-me, na minha fantasia, não a definida por Freud, mas a definida e invocada ao longo deste texto, essa que às vezes me faz pensar, outras temer, outras ainda ter pesadelos, essa minha fantasia usada na infância quando pensava que os filhos do último Czar da Rússia não tinham perdido uma filha (assassinada) mas sim um filho (que a família Romanoff não queria reconhecer) oculto, bem-criado, tratado com doçura, amor e todo o carinho do mundo, esse filho, mais não era do que o meu pai.

Fantasia própria, que sempre povoou a minha mente e permitiu-me sonhar acordado, outorgando galardões aos meus seres mais queridos. Seres queridos, como o meu Senhor Pai, esse Engenheiro e Terratenente, o “el papá”, como era referido por nós, os seus descendentes, ou a nossa Senhora Mãe, Licenciada em Matemática e Línguas. Os dois, da mesma Universidade, essa Pontifícia Católica de Valparaíso, onde se conheceram, namoraram, mais tarde casaram e tiveram muitos filhos e, para acabar este parágrafo, é natural dizer que viveram felizes até ao fim das suas vidas. Final romântico, agradável e convencional.

É evidente que a paixão dessa juventude os levara a ser pais de imensos filhos, que foram estragando a felicidade da frase ritual do casamento: para sempre até ao fim dos seus dias. Colégios caros, a serem pagos todos os meses para que os filhos os pudessem frequentar, fim de mês sempre temido, quando as contas começavam a aparecer. As roupas que deviam ser de marca. Os descendentes eram filhos à Romanoff, dentro de um pequeno imenso estado, no qual, pela fantasia do “gallallla”, cabiam todas as Rússias. Mandava a torto e a direito, colaborava-se a direito e torto e montava-se a cavalo ao som do prazer numa praia imensa e privada. Uma fantasia de vida. Fantasia que devo ter vivido ao longo de toda a minha vida. Fantasia que, nesses tempos, me mantinha fechado na Quinta da Baía de Laguna Verde, a nossa pequena monarquia de luz, de sol, de um Pacífico verde-esmeralda, a brincar com irmãos e primos. Irmãos bem mais novos do que eu, primos de marca (não somente a roupa), filhos dos familiares consanguíneos dos nossos Senhores pais. Nem era preciso trazer amigos para casa: éramos tantos! Casa grande, sim, mas nem sempre capaz de receber tanta gente por longos períodos de tempo. Cada um de nós tinha os seus amigos, que adoravam visitar aquele jardim do Éden, comer repostarias bem preparadas pela multidão de servos da gleba que havia dentro da casa dos Senhores Pais. Às vezes, na casa de jantar, eu comia só, enquanto na copa e na cozinha havia mais pessoas do que no resto da casa. A fantasia ia crescendo: leituras de mitos, de Dickens, Jules Verne, Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Stephan Zweig, Pearl Buck, John Cronin entre outros e canto com Mozart, Vivaldi, Beethoven e especialmente Bach e os seus concertos de Brandeburgo, outros na imensidão das dívidas do Senhor Pai e da sua música, mas, também a fantasia da concertista de guitarra clássica, a nossa Senhora Mãe, com o seu Albeniz e Granados. Nós, os mais novos da casa, nem respeitávamos essa música que, por vezes, era acompanhada de música da casa Real de Espanha ou das impostas, anos mais tarde, pelo ditador (esse que matou a Segunda República de um dos Estados Ibéricos e foi rei até ao dia da sua morte, após cinquenta anos de tirania, essas matanças, também, a torto e a direito).

Eram senhores os meus pais? Mais do que isso, sabiam mandar com simpatia e doçura acolhendo em casa os mais desamparados, sabiam ensinar o que era trabalhar e, ainda, sabiam ensinar como fazer comidas que alimentassem. Ao mesmo tempo, divertíamo-nos com as peças de teatro que nós próprios encenávamos às quais toda a povoação assistia. Não pelo Senhor Pai ser quem mandava, empregava ou despedia pessoal da sua fábrica, mas porque não havia alternativas a este entretenimento, excepto as Missões de Padres organizadas pela Senhora Mãe, ou as sessões cinematográficas que o Senhor Pai promovia. Esse manda chuva que, na minha fantasia, ao longo do meu crescimento, de Romanoff, passou a ser, não na fantasia mas sim, na materialidade da vida, um senhor com quem foi preciso lutar para defender postos de trabalho, manter e respeitar os horários de técnicos e operários, que precisavam de descansar.

No Paraíso encantado, havia uma fada madrinha, a minha Nana Griselda, que me criara e tinha a paciência de esperar o meu regresso a casa, às vezes pela noite dentro. Época em que eu organizava Sindicatos, defendia os plebeus definidos por Gracchus Babeuf em 1785 e teorizados por Marx em 1848. Por tratar de casos criminosos em bairros de lata, costumava chegar por volta das onze da noite. Lá estava ela, a tricotar e à minha espera para me servir a comida. Sem duvidar jamais, comíamos ambos na cozinha. Contava-me histórias, especialmente da nossa família que a nossa Senhora Mãe lhe havia contado e eu, depois, transmitia-as aos meus irmãos. Como na Casa dos Espíritus de Isabel Allende. Enquanto eu comia, ela tricotava, narrava e ria. Com um riso alegre e calmo, alimento de serenidade para o meu espírito rebelde e radical de combatente dos plebeus. A minha Fada Madrinha em breve passou a ser a Chela, alcunha inventada por mim ao longo da cronologia dos nossos cálidos jantares a dois, enquanto toda a casa dormia. De manhã, às seis, hora em que ela ainda dormia, eu acordava os meus irmãos e primos para o pequeno-almoço antes de partir para a cidade. A minha Fada Madrinha ou qualquer outra pessoa da cozinha, preparava a mesa da copa para os Iturra mais novos se alimentarem com queijos, o eterno porridge ou aveia com leite, ovos escalfados, torradas e manteiga, por vezes rins ou carne assada, era uma avalanche de alimentos para suportar essas enormes manhãs, sustentar o corpo e a nossa inteligência! A minha Fada Madrinha, que nos abandonou para entrar na eternidade, ainda muito nova, conheceu os seus “netos” – os nossos filhos – e orgulhava-se dos seus descendentes adoptivos. Foi ela, quando por motivos académicos saímos de Laguna Verde para Santiago, quem nos apoiou, enquanto os nossos Senhores Pais tratavam dos trabalhos da indústria nessa encantadora Laguna Verde. Baía que visito sempre que me desloco ao Chile e rememoro as nossas vidas especiais… A minha memória está incutida em Laguna Verde, na casa, hoje abandonada, que já não recebe a descendência dos Senhores meus Pais, espalhada pelo mundo, todavia acolhe a minha Chela, através das recordações. A sua passagem para a eternidade marcou o começo de um fim: das visitas dos primos, dos tios, dos amigos, dos artistas amigos dos Senhores pais; a criançada cresceu e o tango de Gardel, Adiós Pampa Mia, começou a ser cantado na materialidade da vida.

Chegava ao fim o Paraíso encantado, sem barulho, longe da cidade, com carros para nos deslocar, ou com as nossas bicicletas ou, simplesmente, a pé ou a cavalo.

 Com a minha amada irmã Blanquita, mal havia temporal, ou os bem conhecidos terramotos, normalmente um por ano, ou tremores de terra, quase diários, lá íamos à procura de asilo para os que sem casa ficavam solicitando aos ricos o empréstimo dos seus armazéns, das suas adegas ou terrenos abandonados para construir casas designadas meias águas, feitas em madeira com um tecto para a água da chuva, sempre muita, escorregar – daí, meias água (porque tinha apenas uma placa de madeira, para resguardo da água). O nosso crescimento fez-nos pessoas implicadas persistentemente na defesa dos direitos humanos. A minha doce irmã, nos Centros de Madres com a nossa Senhora Mãe, de uma simpatia e solidariedade impossível de descrever, doce e muito religiosa, de terço às tardes, de joelhos, a família toda, até que, a pouco e pouco, foi ficando apenas com os empregados de casa. O nosso irmão, a converter operários para o marxismo, eu a fundar sindicatos de pescadores e de operários da fábrica, outra a dançar andaluz o tempo todo enquanto criava uma escola para as raparigas operárias.

O primeiro sindicato a reclamar leveza no trabalho, organizei-o com quinze anos de idade e dois anos mais tarde, aos dezassete, criei o teatro; o Centro de Madre, foi fundado pela minha amada irmã apenas com catorze anos; o nosso irmão aos treze anos de idade formou centros marxistas de rebelião ao passo que a mais nova, completava os seus estudos.

Enquanto um era advogado para defender causas perdidas e apoiar os sindicatos (eu), outra formou-se como Assistente Social (Blanquita), mais tarde, já como analista, concebeu o Programa de Atención Integral en Salud, PRAISE, que hoje, após o terramoto da ditadura, coordena em quatro províncias do Centro do Chile, trabalhando desde as 8 da manhã até noite dentro, na constante procura de melhorar as depressões causadas pelo nefando assassínio que faleceu réu de crimes imensos, e em tribunal. O nosso irmão Jaime, Engenheiro Agrícola e Florestal, é hoje em dia membro do PC Chileno, enquanto Flor Maria foi educada, na mesma Universidade dos Senhores Pais, como de todos nós e dos nossos descendentes, para Ser Senhora. Assim, Senhora é, dedicando-se actualmente à pintura. Maria de los Ángeles estudou e criou família, filhos, netos e bisnetos – com esse programa, relatado por mim noutro livro.

Já não havia tempo para correr e cantar, como outrora. O teatro foi à vida, as danças andaluzas também, os Centros de Madres e de Escuteiras, orientados pela Senhora Mãe, e o Sindicato, pela lei que organizámos na segunda metade dos anos cinquenta do século XX. Agora, nos verões, dedicávamo-nos à alfabetização, recorrendo ao método de Paulo Freire, construíamos estradas, levantávamos escolas, ensinávamos higiene, lutávamos pelo nosso candidato, Dr. Salvador Allende e os seus ideais.

Nessa época, ganhei a mania de pregar nas homilias celebradas pelo nosso amigo Mário Erazo às 10 da manhã de todos os Domingos. Nessas manhãs dominicais, levado de carro até à Igreja, eu batia e batia o sino da solidariedade, até conseguir que paroquianos detentores de muitas terras oferecessem algumas das que não usavam, para construção de um bairro que, até hoje, tem por nome Don Raulito Iturra, tal como o que organizara em Viña del Mar, para os pescadores ou o de Caleta Abarca, que visitei em 2004, designado Raúl Iturra. Os santos padroeiros com muito dinheiro e terras comoviam-se com os meus sermões, especialmente quando, como um Lutero, um Calvino ou um Knox qualquer, afirmava que iam ganhar o Reino dos Céus. Foi com essa segurança que, o secretamente ateu Rir – eu – soube levantar a população, nomeadamente em alguns bairros de lata de Valparaíso. Foi assim que me formei em advocacia.

No decurso desses trabalhos de verão, conheci uma rapariga, doce como o mel; perdido de amores pela recentemente retornada ao Chile, vinda da Europa, solicitei ao meu Senhor Pai que a pedisse em casamento (para mim, claro). Foi longa a espera, mas a minha persistência foi tanta, que ela acabou por dizer sim. E porque sim, casámos. Partimos para a Europa, onde prossegui os meus estudos em Antropologia, e, como antropólogo, deslocámo-nos de novo para o Chile quando aconteceu o assassinato do nosso Presidente e da sua via chilena para o socialismo.

Tivemos duas filhas preciosas e extremamente bem cuidadas, especialmente pela mãe, a minha mulher, que, um dia, ficou farta de mim e pediu-me o divórcio. As suas perspectivas eram, afinal, bem diferentes das do radical revolucionário, com quem casara, que vivia para a prática do Direito e Lei e das Ciências Sociais. O resto, não é a minha história.

Paradoxalmente, a minha história de vida não me parece minha. Assim, para me entender, entre o Id, o ego, o superego, as fantasias e as relações sociais e porque um dia disseram-me que podia falecer por causas neurológicas, apressei-me a escrever as minhas memórias e as lembranças das minhas ultra amadas filhas e as dos seus filhos.

O resultado dessa escrita intensa, apareceu como Mis Camélias – Recuerdos de Padres interesados, texto pensado para ser escrito pela minha pequena família. Não aconteceu. Pelo contrário, criticam-no duramente, apesar de ter ganho um prémio. Esse livro fez-me perder a família. Louvores na escrita, profunda tristeza na vida familiar, solidão das solidões. Gostaria, no entanto, de realçar que pedi licença aos interessados, ao enviar-lhes um exemplar para lerem, sugerirem, darem a sua opinião e, naturalmente, autorizarem a edição. Mas os meses foram passando e uma vaga de silêncio instalou-se por um livro não lido.

Como Etnpsicólogo, como sujeito de uma psicanálise de dez anos para ser etnopsicólogo, decidi auto analisar-me. Por não saber qual o erro, recorri a Freud e aos seus discípulos.

Dir-me-ão porquê Freud? Porque ele, tal como Copérnico e Charles Darwin, revolucionaram a forma do ser humano se ver dentro do infinito Universo. Para Sigmund Freud, as acções e os desejos não são fruto da vontade e da vaidade humana, mas sim do Inconsciente, esta nova maneira de pensar a psique humana, abalou o mundo científico. Ansioso na obtenção de respostas plausíveis para aplacar o sofrimento dos seus pacientes, enveredou pela doutrina de Charcot e utilizou a hipnose nos seus estudos sobre histeria. Muito embora os seus estudos encontrassem resistência na ala conservadora da Medicina, que via nas teorias freudianas uma ameaça à primazia do ser humano, Freud prosseguiu a sua linha de pensamento e descobriu que o ser humano é dividido entre o Consciente e o Inconsciente, lançando as bases da Psicanálise.

É interessante observar como ao comparar etapas da vida de si próprio com a da sua descendência é possível articular as suas descobertas com as experiências pessoais do psicanalista. Como a teoria que desenvolveu sobre o Complexo de Édipo, fundamentando-se na relação com o seu pai morto, recorrendo a uma linguagem metafórica e onírica. O conflito interior que Freud viveu, enquanto tentava penetrar no obscuro Inconsciente dos seus pacientes, temendo encontrar o inefável, o impensável, era, na verdade, receio de encontrar a sua própria essência. Esta questão, também é parte do conflito da minha auto-análise para entender o que foi desastroso na minha escrita de Mis Camélias.

Hoje em dia faço o possível e o impossível para defender que o complexo de Édipo devia ser virado do avesso: são os pais que precisam dos descendentes, especialmente quando a vida começa a ficar à beira do fim, na mais espantosa das solidões. Ou estamos no cume sem borrascas, como diria Emily Brontë, ou com borrascas por ficarmos sós e pensarmos ter feito tudo correcto na vida. Mas, Margaret Mitchell afirma, desde 1936, que o que não fica por escrito o vento leva. Eu não queria que o vento da vida levasse as minhas memórias, especialmente as mais queridas para mim, as da minha descendência.

Este livro, contrariamente ao Para sempre tricinco. Allende e Eu (no prelo), tem sido pesado. Passar pelo crivo da estrutura de personalidade, submetendo lembranças e emoções a teorias e autores que eu próprio analiso, tem sido duro. Não estou arrependido. É assim.

Há, ainda, uma outra intenção no surgimento deste livro. Entregar aos docentes uma teoria: é necessário saber de história da nossa cultura, ou das nossas orientações de religiosidade que guiam a mente humana, como também é preciso entender a estrutura de personalidade que a nossa cultura, no sentido antropológico do conceito, modela na nossa psicologia. O melhor sujeito para uma pretensão como esta é o nosso ego profundamente estudado com as nossas teorias e as dos sábios que as criaram. Ensinar é saber não apenas a ciência doutoral, mas também a ciência do povo.

Por fim diria, que nunca mais aprendemos tudo o que é necessário para viver e acabar a vida em paz. Seja o que for, está mal feito. Eis porque pus o meu ego sob o prisma da psicanálise, ao estudar a hipótese mais importante do fundador: a libido infantil. Que foi preciso ler o Talmude? Pois foi. Rever o Alcorão, o Mishnã, o Torah? Devia haver uma divindade para me compensar estes anos de aprendizagem, no mais absoluto silêncio, quebrado, por vezes, pela simpática companhia de Maria da Graça Pimentel Lemos, que não apenas fixou o meu português, bem como trabalhou à noite, em sua casa, para corrigir os meus erros, o que agradeço profunda e profusamente.

Raúl Iturra

Parede, Portugal, 20 de Janeiro de 2009


[1] Cyrulnik, Boris, 2003 : Le murmure des fantômes, Éditions Odile Jacob, Paris, a ligação é: http://www.comprar-livro.com.br/livros/1853362127/ (citado anteriormente).

[2] Parte do texto está retirado da minha experiência, outra, especialmente a vida de Cyrulnick, do texto antes citado, que pode ser lido em: http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486-641X2007000400016&lng=es&nrm=iso, denominado:  Falar de amor à beira do abismo, Boris Cyrulnik. São Paulo: Martins Fontes, 2006, 181 pp, em: Rev. bras. Psicanál v.41 n.4 São Paulo dic.  2007, da autoria de Josette Czerny. O livro em língua lusa é uma tradução do livro em francês: Parler d’amour au bord du gouffre, Ódile Jacobs, 2004, Paris, 256 páginas, pode-se aceder a extractos, em: http://www.odilejacob.fr/catalogue/index.php?op=par_titre&cat=0207&count=0&id_livre=1993&option=&desc=quatrieme. Um desses extractos, retirados do capítulo que cito a seguir, diz: Gouvernés par l’image qu’on se fait de nous-même, título que em português seria: “Governados pela imagem que fazemos de nós próprios”. Esse capítulo tem ideias que traduzi para o texto central, guardei o original em francês, para esta nota de rodapé, que, entre outras ideias, desenvolve a seguinte:

L’enfant a appris, au cours des interactions quotidiennes, à répondre à l’idée qu’il se fait de ” lui avec les autres “. Tout être vivant réagit inévitablement à des perceptions, mais un petit humain, dès le sixième mois, répond aussi à la représentation de ” lui avec les autres ” qui s’est construite en s’imprégnant dans sa mémoire. Un nouveau-né ne peut survivre que s’il dispose autour de lui de figures d’attachement. Seul, il n’a aucune chance de se développer. Dans le déroulement spontané des faits biologiques, la figure d’attachement est presque toujours la mère qui l’a porté. Mais toute personne qui veut bien s’occuper du nourrisson, une autre femme, un homme ou une institution, assume cette fonction de figure d’attachement composée d’images, de sensorialités et d’actes adressés au nouveau-né. De gestes en gestes, ce réel sensoriel s’imprègne dans la mémoire du petit et lui apprend à attendre certains comportements qui viendront de ces figures d’attachement. Une mère rendue malheureuse par son histoire, son mari ou son contexte social, émettra une sensorialité de femme déprimée : visage peu expressif, absence de jeux corporels, regards détournés, verbalisé morne. Dans un tel bain sensoriel qui traduit le monde mental de la mère, le bébé apprend à réagir par des comportements de retrait. Dès la fin de la première année, il lui suffit de percevoir cette figure d’attachement malheureuse pour qu’il attende des interactions de mère triste. Le bébé ne réagit pas seulement à ce qu’il perçoit, il répond à ce qu’il guette, il anticipe ce qu’il a appris.
Dès la troisième année, le petit, arrivant à l’âge de l’empathie, devient capable de répondre aux représentations qu’il se fait des représentations du monde mental de sa mère, de ses motivations, de ses intentions et même de ses croyances : ” Elle va encore croire que c’est moi qui ai mangé le chocolat, alors que c’est mon frère. ” Un bébé qui se développe dans un monde glacé s’attend à ce que les autres lui apportent la glace. Il pense presque : ” Toute relation affective provoque le froid. ” À l’inverse, un enfant qui se sent aimé se croit aimable puisqu’il a été aimé. Cette empreinte dans sa mémoire, à l’occasion de la banalité des gestes de la survie, a donné à l’enfant une représentation de soi confiante et aimable, à laquelle il répond quand il entre en relation.
Cet apprentissage donne un style affectif durable qui s’exprime encore lors des premières rencontres amoureuses : ” Quand je pense à qui je suis, je m’attends à ce qu’elle me méprise. ” Le jeune peut aussi penser : ” Quand je pense à qui je suis, je crois qu’elle va m’accepter. ” Cette représentation de ” moi avec un autre ” est une co-construction qui dépend des rencontres mais peut évoluer, comme tout phénomène de mémoire, vers l’effacement, le renforcement ou la métamorphose
. Texto em : http://www.psychotherapeutes.net/amour-gouffre.htm

[3] O texto original é a nota de rodapé anterior na língua em que foi escrito, que pode ser lido em: http://www.psychotherapeutes.net/amour-gouffre.htm. A versão portuguesa de Martin Fontes, tem uma pequena nota importante para o argumento: “É carregar a morte dentro de si” (p. 5). “Todo traumatizado é obrigado a mudar, senão fica morto. A resistência impede a resiliência”. Esses traumatizados não tiveram capacidade de usar ou desenvolver a resiliência, nem encontraram um tutor de resiliência, alguém ou um meio favorável que os empurrasse por debaixo do trauma para seguir em frente ou mesmo saltar em outra direcção” Texto em: http://pepsic.bvs-psi.org.br/pdf/rbp/v41n4/v41n4a16.pdf  

Nesse vibrante ensaio sobre a felicidade, Falar de Amor à Beira do Abismo, Boris Cyrulnik, demonstra como graves feridas afectivas podem ser transformadas em felicidade. Para o autor, o percurso afectivo, transmitido aos filhos, é composto por feridas, mas também por vitórias e quando estas últimas são as valorizadas, então surge a criatividade.

Este texto, embora muito mal escrito, está acessível, em: http://www.planetanews.com/produto/L/129422/falar-de-amor-a-beira-do-abismo-boris-cyrulnik.htm

[5] Apresentada como alternativa entre direita e esquerda, a Terceira Via ruma  de facto para  a fase mais adiantada da revolução marxista. Frase do blogue: Frente Universitário Lepanto: Estudos variados. Terceira via, “Centro radical” ou etapa avançada do marxismo? Em: http://www.lepanto.com.br/Esttercvia.html. Sitio onde pode, também, aceder ao texto que se segue:

O corifeu, o mestre e a escola

Em Inglaterra, a eleição para Primeiro-ministro de Tony Blair, em Maio de 1997, encerrou um ciclo de 18 anos de governo conservador. É ele o corifeu dessa Terceira Via. Por detrás do Primeiro-ministro britânico, e apontado como seu mentor intelectual, há uma figura: o professor Anthony Giddens. Há também uma escola, a prestigiada London School of Economics, da qual Giddens é o director. Em entrevista a “Veja“, Giddens afirma: “A expressão ‘terceira via” nas últimas três décadas foi muito empregue na Europa, sobretudo em países como a Itália e a Suécia, exactamente nessa linha de socialismo de mercado. Falava-se num sistema misto, combinando planeamento central e instituições do mercado. A maioria dos estudos, porém, demonstra que a ideia é inviável. Resultaria em desemprego, estagnação, caos financeiro. Não existe ‘terceira via’ desse tipo”. (“Veja”, 30- Autor do livro Para além da esquerda e da direita (Beyond Left and Rifht, Polity Press, 1994), Giddens acaba de publicar outra obra, The Third Way. The renewal of Democracy, Polity Press, 1998 (A Terceira Via, citada no início do nº 3 deste texto). A esse propósito, artigos e entrevistas têm sido estampados pelos media. Contudo, o perfil real que emerge da Terceira Via não podia ser outro: uma esquerda disfarçada de centro. Pelas suas próprias características, ela tem que aparecer sorridente; as suas definições são vagas e imprecisas e nos seus métodos, não estão ausentes elementos da velha praxis marxista. Sua meta coincide, sobretudo, com o objectivo último da esquerda: uma sociedade igualitária. (Veja, 30-9-98, p. 11).

A ‘terceira via’ defendida por nós é a social-democracia modernizada. Ela é um movimento de centro-esquerda, ou do que temos chamado de ‘centro radical”. Radical, porque não abandonou a política de solidariedade que tradicionalmente foi defendida pela esquerda. De centro, porque reconhece a necessidade de trabalhar alianças que proporcionem uma base para acções práticas. Da comparação entre os diversos países que têm lidado com essa hipótese, percebe-se que está emergindo uma agenda comum. Seus principais objectivos são (1) a reforma do Estado, (2) a revitalização da sociedade civil, (3) a criação de fórmulas para o desenvolvimento sustentado, (4) preocupação com uma nova política internacional. Dito assim parece vago, mas é exactamente o que políticos como o inglês Tony Blair, o francês Lionel Jospin, o italiano Romano Prodi e Fernando Henrique Cardoso estão fazendo hoje em dia” (id., ib., os números acima mencionados são da redacção). Mais texto, em: http://www.lepanto.com.br/Esttercvia.html

[6] Estado de quem vive amancebado ou em concubinato, de acordo com o Código Civil Português no artigo 1871, página 1545 do Código reformado em 2001 e 2006 que define a presunção de pai, se não houver matrimónio, e o direito da mãe a pedir pensão de alimentos do pai das suas crianças ou concubino, e 2020, que define o amancebamento ou concubinato, como união de facto, página 1602.

[7] Diz-se da situação em que duas pessoas vivem maritalmente sem serem casadas.

ARTIGO 2020º (União de facto)

1. Aquele que, no momento da morte de pessoa não casada ou separada judicialmente de pessoas e bens, viva com ela há mais de dois anos em condições análogas às dos cônjuges, tem direito a exigir alimentos da herança do falecido, se os não puder obter nos termos das alíneas a) a d) do artigo 2009º.

2. O direito a que se refere o número precedente caduca se não for exercido nos dois anos subsequentes à data da morte do autor da sucessão.

3. É aplicável ao caso previsto neste artigo, com as necessárias adaptações, o disposto no artigo anterior.

Texto completo em: http://www.portolegal.com/CodigoCivil.html.

[8] Artigo 1600: Têm capacidade para contrair casamento, todos aqueles em quem se não verifique algum dos impedimentos matrimoniais previstos na lei… Em suporte de papel, página 1358.

Livro IV, Direito de família, Título II: Do Casamento: Artigo 1601

ARTIGO 1601º (Impedimentos dirimentes absolutos)

São impedimentos dirimentes absolutos, obstando ao casamento da pessoa a quem respeitam com qualquer outra: a) A idade inferior a dezasseis anos;  b) A demência notória, mesmo durante os intervalos lúcidos, e a interdição ou inabilitação por anomalia psíquica;  c) O casamento anterior não dissolvido, católico ou civil, ainda que o respectivo assento não tenha sido lavrado no registo do estado civil (pg. 1358, em suporte de papel).

Artigo 1602: Impedimentos dirimentes relativos: (Impedimentos dirimentes relativos)  

São também dirimentes, obstando ao casamento entre si das pessoas a quem respeitam, os impedimentos seguintes: a) O parentesco em linha recta; b) O parentesco em segundo grau da linha colateral; c) A afinidade em linha recta; d) A condenação anterior de um dos nubentes, como autor ou cúmplice, por homicídio doloso, ainda que não consumado, contra o cônjuge do outro (formato de papel, pp 1354 e seguintes).

[9] Alegria, Ciro, 1963, El mundo es ancho y ajeno, Aliança Editorial, Madrid, é uma Novela do escritor peruano Ciro Alegría, considerada como uma das obras mais destacadas da novela indigenista e a principal do autor.[1] Mario Vargas Llosa afirma que El mundo es ancho y ajeno constituí “el punto de partida de la literatura narrativa moderna peruana y su autor nuestro primer novelista clásico.Esta novela conta com inúmeras edições em español e é a novela de Ciro Alegria mais traduzida.[]

[10] García Márquez, Gabriel, 1967: Cien Años de Soledad, Editorial Sudamericana, Buenos Aires.

 

[11] Allende, Isabel, 2003: Mi País Inventado, Editora Sudamericana, Buenos Aires, México y Madrid.

 

[12] García Márquez, Gabriel, 1989: El General en su Laberinto, Mondadori, Madrid.

 

[13] García Márquez, Gabriel, 1985: El Amor en los tiempos del cólera, Bruguera, Barcelona.

 

[14] Allende, Isabel, 1982: La Casa de los Espíritus, Plaza e Janés, Barcelona.

 

[15] Barrios, Eduardo, 1967: Gran Señor y Rajadiablos, Editorial Nascimiento, Santiago de Chile.

 

[16] Iturra, Raúl-2008-Iturra, Blanca, 2009: Yo, María de Botalcura. Ensayo de Etnopsicologia da Infancia, Universidad Autónoma de Chile, antiguo Instituto del Valle Central, Talca, Chile.

Adenda:


[1] Sursis é uma metáfora usada por Cyrulnick: Sursis é um instituto de Direito Penal com a finalidade de permitir que o condenado não se sujeite à execução de pena privativa de liberdade de pequena duração, ou seja, permite que, mesmo condenada, uma pessoa não fique na cadeia. Sursis quer dizer suspensão, derivado de surseoir, que significa suspender.

Se o juiz define o prazo de dois anos para o sursis, o condenado ficará durante esse período em observação. Se não praticar nova infração penal e cumprir as determinações impostas pelo juiz, este, no final do período de prova, determinará o fim da pena. Se durante o período de prova houver revogação do sursis, o condenado cumprirá a pena que se achava com a execução suspensa.

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