Vinte Cinco Sempre.

Os intocáveis. A Bola (c)

As comemorações do 25 de Abril são dadas a alguns histerismos. Pouco habituados a conviver com a liberdade de expressão, as televisões mostram e relatam os gritos, os punhos erguidos, as frases de luta e de intervenção. No dia a seguir regressa tudo ao normal. Os portugueses voltam a confiar na providência estatal, no voto como arma e no doce aconchego das instituições bancárias. O 25-4 é o nosso carnaval cívico, o dia da transgressão. O resto do ano podíamos viver numa alienação completa da liberdade. Mas, em Abril, ergueríamos os punhos para derrubar, ainda que efemeramente, as grilhetas da opressão.
De resto, o conceito de liberdade, em terras lusas, é coisa muito particular. Sempre que lecciono alguma disciplina relacionada com História Contemporânea ou Cidadania e pergunto aos meus alunos adolescentes o que significa, para eles, Liberdade, a resposta é, invariavelmente, semelhante: “é poder dizer e fazer aquilo que nos apetece”. Acresce a isto o facto de termos uma Constituição onde os direitos sobrepõem os deveres. Somos educados, desde crianças, a respeitar a Liberdade como um direito inalianável e sagrado, mas somos incapazes de compreender o significado de uma obrigação, seja ela individual ou colectiva. E as obrigações, numa comunidade ou num país são importantes. Nelas assenta o princípio da solidariedade, do equilíbrio e da igualdade – não da Igualdade feroz, jacobina, que a maioria dos interlocutores ejacula em longos discursos inúteis, mas a igualdade de deveres e direitos que faz uma sociedade madura.
Infelizmente, depois do Liberalismo Monárquico, tivemos duas Repúblicas, uma autoritária e outra totalitária que formataram o país para uma assimilação da velha arenga maquiavélica: a de que todos os meios justificam os fins. Os fins, para os políticos, devem ser salvaguardados a todo o custo, mesmo que isso signifique subvertê-los. É, pois, natural que com apenas 37 anos de democracia, sejamos ainda crianças no que toca à liberdade de expressão, á intervenção cívica e que, de vez em quando, recorrendo a gritos ou a manifestações, julgamos que mudamos o rumo da coisas que já deviam ter sido mudadas. Todos os dias, por todos nós. Até porque eles, os políticos, continuam lá. Os mesmos, há 37 anos, a dizer as mesmas. E nós continuamos os mesmos, inertes.
Devo lembrar, aliás, que o Povo, nas primeiras horas do 25 de Abril de 1974, estava escondidinho em casa e que se o golpe militar tivesse falhado, como havia falhado a intentona das Caldas, o “povo, pá”, essa mirabolante manifestação do Tudo e do Nada ao mesmo tempo, aguentaria perfeitamente bem mais uns anos do Novo Estado.
Se há coisa que é constante, neste país, algo que que podia ser vendido como uma marca fiel, é a política à portuguesa: a mensagem é sempre a mesma, cheia dos mesmos tópicos vazios, dos mesmos clichés e francamente pobre em metáforas, ideias, soluções. Nada tem arrojo, nem verdade, nem vontade. É tudo morno, chocho, triste.
O 25 de Abril foi uma bela conquista de poucos para muitos que, se calhar, até não a queriam. E isso é que é verdadeiramente frustrante. Apetece-me adaptar as palavras de Byron em relação a Sintra, mas sendo Sintra a terra da Liberdade: há bárbaros que a não merecem.

Nota bene, em cima, na fotografia: Quatro políticos que hoje vêm fazer o discurso da meta-política, ou seja “nós, sábios conselheiros, estamos acima da política, fora da política, sem política. Fomos políticos, a política move-nos, paga-nos, enaltece-nos. Mas nada disso interessa, nem faz sentido depois de ascendermos ao cargo presidentes da república.” Devemos rever o conceito de infabilidade papal e aplicá-lo ao cargo de presidente.

Comments


  1. mas que bonita fotografia.


  2. O NIM, A BANALIDADE E OS VILÕES?

    Eis Portugal no seu melhor:
    Eanes, Cavaco e Sampaio e Soares.

    Ainda bem que temos o André Villas Boas…ufa…lolol

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