O Historiador.

V. Magalhães Godinho (C) José Ventura / Expresso

 O ofício de Historiador já foi respeitado em Portugal.
Alexandre Herculano era ouvido pelos políticos, Oliveira Martins constituiu uma espécie de decano da sabedoria oitocentista e, mais recentemente, a perda de A. H. de Oliveira Marques originou um irremediável vazio na cultura portuguesa. Bem sei que José Mattoso assume ainda o papel de uma mítica figura, a que se recorre, de quando a quando, para questionar sobre o esplendor do Passado e honrar a intelectualidade a partir da ideia do velho sábio, entretido entre alfarrábios, a compilar dados inúteis que ninguém lê ou lerá a não ser ele próprio. Mas os últimos anos têm levado o resto do valor da figura do Historiador. E agora mesmo desaparece Vitorino Magalhães Godinho, um homem inconformado, como todos o deveriam ser.
Vendo bem, o grande problema na forma como se olha para o ofício de Historiador é o de nunca o considerarmos como um inadaptado, como alguém que ousa falar contra. O Historiador, para o público comum, é um ser inerte, acomodado, bibelot decorativo de arquivos e bibliotecas. Em último caso, um animador de palestras ou de comemorações de centenários, às vezes agitador de intelectuais ou entretenimento ligeiro para telespectadores curiosos. E a culpa deste cliché acaba por ser dos próprios.
Primeiro, porque os Historiadores, aqueles que acreditam que fazem ciência, que escrevem para o desenvolvimento do conhecimento colectivo, admitem que a História seja mal tratada. Todos os dias as Câmaras Municipais publicam “monografias” redigidas a título gratuito por amadores. Desde logo, o Historiador passa a ser um estoriador, um carola que vive de ar e vento e escreve uns artiguelhos por simples diversão. Aliás, qualquer indivíduo minimamente instruído parece mais do que qualificado para escrever História, desde o comentador político ao jornalista. E para um Presidente de Câmara cujo objectivo maior é encher o seu município com rotundas, chafarizes e sinais de trânsito, e exaltar estas hediondas obras, qualquer livro com fotografias e alguns textos laudatórios é passível de constituir edição maior da História Local.

Pois nenhum historiador clama contra isto. Nem a Academia Portuguesa da História, cujo objectivo principal devia ser o de zelar pela preservação da Memória nacional é capaz de se insurgir contra esta “deseducação” massiva que alimenta bibliotecas escolares, como se fosse possível levar a sério a prosa de um médico ou de um operário só porque leram meia dúzia de verbetes no dicionários do Pinho Leal!
Depois, o Historiador escreve quase sempre de si para si.

Muitas vezes, dou comigo a pensar que aquilo que redijo na minha actividade como investigador, pode ser muito interessante, mas apenas para mim mesmo, ou para um grupo muito restrito de pares. Então, para que serve o que escrevo?  O que é feito do historiador humanista? Daquele homem que através do Passado conseguia ver o Futuro?
É extremamente revelador que um anónimo, destes mesquinhos que percorrem a internet a destilar frustrações, tenha deixado esta mensagem como nota à última entrevista de Vitorino Magalhães Godinho: “O Historiador não prevê, o Historiador relata factos passados”. De facto, o Historiador não prevê, se o fizesse seria bruxo. Mas só o simples facto de caracterizar o aquele ofício como o de alguém que relata factos passados revela bem o entendimento comum sobre seu papel na sociedade: um marginal, despercebido, cujo objectivo é compilar dados aparentemente irrelevantes.
Não digo que os historiadores se tornem comentadores profissionais, tudólogos e especialistas em política do presente e do futuro, como o Rui Tavares, o Pacheco Pereira, ou a Irene Pimentel.
Mas começar a intervir publicamente, deixando os estrados das universidades e dos auditórios e marcando posição numa sociedade cada vez menos letrada, interessada e civicamente atenta, seria uma forma de reivindicar o papel, privilegiado aliás, do Historiador nas sociedades contemporâneas: o de guardião da memória e o garante da progresso intelectual e educativo das sociedades.
Foi, afinal, o que fez Vitorino Magalhães Godinho ao longo da sua vida.

(Também publicado n’Obliviário)

Comments


  1. Se os historiadores fossem levados a sério poderíamos aprender com eles , não a prever o futuro, mas sim, como evitar as burrices do presente com os testemunhos do passado… se os nossos políticos lessem livros de história, teriam evitado e superado a maior parte das crises pelos ensinamentos dos antigos governantes… desde D. Afonso Henriques até aos dias de hoje, há inúmeros exemplos de boa gestão que poderiam ser aplicados no contexto actual e certamente nos ajudariam a “dar a volta” à calamidade que nos assola…

    A classe política infelizmente só utiliza a história para se vangloriar com os heróicos feitos dos egrégios avós… não lhes segue o exemplo de coragem, preservança e inteligência que fez de Portugal uma digna nação.

  2. Rodrigo Costa says:

    .. Meus caros amigos, vive-se um tempo em que ninguém quer aprender nada; ninguém quer saber de nada, a não ser resolver, nuns casos, o problema da subrevivência, e, noutros, tratar rápido da acumulação, não vá a morte vir pelo caminho e não haver com que investir do lado de lá.

    De qualquer modo, não me parece ser necessário ler os historiadores, para se evitar muitos dos erros que são primário, a que muitos deles não chamo erros, mas crimes, por serem cometidos premeditadamente.

    Os historiadores, em regra, são pessoas pacíficas que vivem nos seus espaços, de vida e de investigação, não tendo, por isso, grande presdisposição para “combates” e questiúnculas; eles não são, em regra, feitos da mesma massa de que são feitos os advogados e os economistas, as classes de onde sai a maior parte dos governantes.

    Ninguém os ouve, porque ninguém os quer ouvir. E, já que é assim, acho muito bem que, tendo uma vida minimamente confortável, sigam os seu caminho, no cultivo dos seus prazeres, os quais se não são ou não forem úteis é porque ninguém os quer —não se pode obrigar alguém a recorrer às matérias úteis, neste caso, aos resultados de pensamento, de investigação.

    A hora, já longa, muito longa, não é de pensar, mas de agir. Às cegas, como se tem visto, porque, com os olhos e o pensamento abertos, os ladrões correm o risco de ouvir a consciência… o que, compreenda-se, quando se quer roubar, é um estorvo.

    Finalizo, dizendo haver ingenuidade, quando se pensa que os poderes agem como agem, porque desconhecem factos passados que não deveriam ser repetidos. É mentira. Eles visitam a História, mas para perceberem como foram cometidos mos abusos e como é que, a partir do mmal que foi feito, podem fazer um mal melhor, reciclado.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.