Um olhar genuino

Os CTT distribuíram 6000 máquinas descartáveis entre todos os carteiros efectivos da empresa para que estes registassem o seu dia a dia e, assim, mostrassem o Portugal real.O resultado é interessantíssimo e poderá ser visto em exposições por todo o país e também em livro.
Das poucas fotos que vi , pode pensar-se que os seus autores mais parecem fotógrafos profissionais e não amadores: o seu olhar é sensível e até artístico! Mas, sobretudo, muito humano. Sempre pensei no carteiro como alguém que tem uma profissão muito especial  ( talvez influenciada pelo carteiro de Pablo Neruda…) .
Os carteiros com a sua máquina descartável captaram “um Portugal mais rural e mais envelhecido do que imaginávamos ser. A pobreza e a solidão estão lá, mas estão também o humor, a capacidade crítica e o orgulho num trabalho que tenta se reinventar para poder continuar a existir”.
O seu dia a dia não lhes passa despercebido e é tudo menos banal e feio: o bacalhau madeirense a secar ao sol; um barbeiro que é também o bibliotecário e contador de histórias; as lavadeiras na ribeira como se fosse há cem anos; os edifícios antigos com as paredes rasgadas a negro; as misturas surrealistas de alguns jardins; o maior amigo do homem (arqui-inimigo do carteiro); as dificuldades de alguns, dado adquirido de outros; o velhinho que espera a reforma; as caixas de correio improvisadas; o carteiro que já é um “filho”; etc.
Um olhar tão simples, verdadeiro e genuíno. Tão português! Fazem-nos falta estes olhares…sobre a vida e o nosso país. Uma bela iniciativa dos CTT que poderá servir de exemplo… a cada um de nós: olhar com atenção à nossa volta e concluir que, ainda assim, há muita beleza em cada canto por onde passamos distraídos e sem tempo.
Valerá a pena conhecer as duas centenas de fotografias escolhidas! Parabéns aos carteiros-fotógrafos!
Céu Mota

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