‘Musseque’, ‘Favela’ ou ‘Tabanca’

Não resisto à tentação de abordar o tema, a que o João José Cardoso se referiu, e bem, anteriormente. Há tempos, este Mestre, Secretário de Estado da Juventude, proclamou:

Os jovens portugueses que não encontrem colocação no mercado trabalho não se devem acomodar à situação, ‘zona de conforto’, EMIGREM!

Pensava eu, e naturalmente muitos dos portugueses, ter-se tratado de uma declaração política individual, infeliz, desfocada dos fundamentos e orientação política do governo de Passos Coelho e de Paulo Portas. Afinal eu e os outros, todos alinhados pela ideia de ser disparate de um ‘deus menor’, equivocámo-nos.

Com efeito, trata-se de um objectivo programático perene do governo, antes proclamado em relação a jovens ex-estudantes, agora reafirmado por Passos Coelho relativamente a 15 mil professores desempregados:

[Aconselharia] “os professores excedentários que temos a abandonar a sua zona de conforto e a procurarem emprego noutro sítio. Em Angola e não só. O Brasil…” Jornal “i”

Na lógica da reciprocidade da convivência democrática, entre governantes e governados, e uma vez tão saturado deste como do anterior – os meus votos não favoreceram nem um e nem outro – como cidadão posso também propor ao Senhor Primeiro-Ministro que emigre, com três destinos opcionais: um musseque luandense, uma favela do Rio ou uma tabanca entre Bissau e o Chacheu.

Publico imagens de um musseque, para ilustrar uma das ‘zonas de conforto’ de acolhimento possíveis e merecidas por quem diz lutar pelo melhor para os outros:

Comments


  1. Angola necessita de professores, as baixas qualificações são um problema, mesmo para quem obtém um diploma. Podem auferir um excelente vencimento, no entanto também não é um el-dorado, o custo de vida é exorbitante, as rendas de casa caríssimas, embora com tendência para descer, no centro de Luanda facilmente atingem 2500 a 3000 USD. Em Talatona serão ainda mais caras. Quanto ao vídeo, está muito longe de mostrar a realidade dos musseques, que nem são todos iguais ou sequer parecidos.

    • Carlos Fonseca says:

      António, andei quase trinta 30 anos por África em actividade profissional.A Angola, onde tenho amigos deslocava-me há algum tempo 12 a 14 vezes por ano. Sou como a canção dos ‘Da Vinci’. Conheço Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e o Brasil, do Rio à Amazónia.
      Acima de tudo, Angola precisa de limpar – o que vai ser difícil – o regime corrupto com que os nossos governantes anteriores e actuais bem como empresários, tipo Amorim, têm fortes compromissos.
      Estar a dizer-me que não existem musseques do tipo do exibido; a mim?! Aconselho que visite e percorra demoradamente o que está à volta da ora luxuosa Luanda.
      Mas. independentemente de tudo isto, o que o governo português não pode nem deve fazer é incentivar a emigração de tudo e todos. No 1.º semestre deste ano, no Brasil, radicaram-se 52.000 portugueses, a maior parte dos quais jovens qualificados. É a esta estratégia de desenvolvimento nacional de Passos e Portas?


      • Não disse que não existem musseques do tipo que se vê no vídeo, se é o que o vídeo exemplifica algum tipo de musseque. Conheço bem o Cazenga, Kikolo, Kwanzas, Palanca, entre outros locais, que tenho visitado quase diariamente nos últimos meses. Embora viva em Luanda, saio ao terreno, bem lá no meio. Os maiores problemas dos musseques são a falta de água e saneamento, lixeiras a céu aberto, algo que não nos apercebemos no vídeo. Este nem sequer tem as lixeiras à porta de casa que encontramos logo à saída na Boavista, para não ir mais longe. A distribuição eléctrica é um problema mitigado pela proliferação de geradores, como o preço dos combustíveis é baixo, boa parte da população tem um, porque falta de energia, até nos bairros do centro de Luanda é um lugar comum. Mas não encontro no meio dos musseques uma subnutrição que já vi por exemplo no Norte de África.

        • Carlos Fonseca says:

          António, no primeiro comentário dizia “o video está muito longe de mostrar a realidade dos musseques e que nem todos são iguais ou parecidos”. Primeiro, exibi-o como imagem de um musseque e são imagens reais de um musseque. sem afirmar que todos são iguais. E é, de facto, um verdadeiro musseque com as suas características próprias, do mesmo modo que em Lisboa não se pode comparar o Casal Ventoso às Galinheiras, ao Bairro do Mocho ou à Quinta da Curraleira. São bairros problemáticos distintos.
          Por outro lado, o seu primeiro comentário foca um dos aspectos centrais: em Luanda, torna-se muito difícil a fixação de um professor ou de qualquer outro profissional – 2500 a 3000 USD de renda de casa e – acrescento eu – complexos problemas de mobilidade na cidade.
          Verdadeiramente não entendo as suas objecções, uma vez que até está aí emigrado – espero que não no Cazengue ou no Kikolo – e, da minha parte, fiz uma sugestão para que Passos Coelho seguisse também esse caminho. Metaforicamente, e porque pelos vistos é homem amante de vida austera, fechei a sugestão com três alternativas possíveis: musseque, favela ou tabanca.
          Desculpe que lhe diga, mas quem escolheu viver noutro país tem mitigada legitimidade para defender um governo de que se livrou e que, a mim e a mais de um milhão de pessoas, vai penalizar com o roubo de descontos feitos ao longo de uma vida – 48 anos de trabalho, no meu caso. Muitos mais do que a sua idade, certamente.
          Olhe, reze para que o Zézinho se mantenha no poder. Oxalá, não venham a haver novas pontas aéreas!


          • Aqui o Zezinho como lhe chama, é tratado pelos angolanos como Zedu, quer os que o apoiam, quer os que o detestam, embora haja mais quem o apoie. Muitos até acusam os filhos e família do presidente de aproveitamento da posição de Zé Eduardo, mas não acusam o presidente de nepotismo, gostam dele, embora alguns considerem que deveria ceder o lugar. É provável que tal até venha a acontecer, mas lá para 2013, após vitória mais que previsível em 2012, a questão chave neste momento é quem apresentará como vice-presidente, pois estará praticamente a designar o sucessor, não creio que avance qualquer familiar. Boa parte das principais figuras da UNITA nem se candidatam às legislativas, ocupam hoje lugares interessantes de nomeação ou confiança política, ou então optaram pela via empresarial. Isto está muito longe de ser previsível qualquer ponte aérea. No entanto pode acontecer algum imprevisto, mas creio que será dentro do MPLA que tudo se resolverá.
            Quanto a defender um governo de Portugal, vamos por partes, votei CDS/PP é um facto, mas passei à oposição no dia em que o governo tomou posse. Mesmo que não alinhe com qualquer dos partidos na oposição, por alguma razão sou independente desde que abandonei a filiação ainda nas Jotas. Sou demasiado individualista e liberal para me filiar num partido e alinhar em disciplina partidária. Quanto a ordenados de professores em Luanda, podem auferir logo para início 6 a 7 mil USD em escolas privadas, ou negociar vencimento mais reduzido, com casa e automóvel.
            E descanse que não moro no Cazenga, infelizmente também não é em Talatona, mas no Maculusso.


  2. Nem mais.
    Tenho comentado mais ou menos o mesmo acerca do assunto.
    Só quem não conhece Angola pode sugerir tal coisa. Como se fosse sequer possível imaginar colocar professores na escola pública angolana! Há privados, sim, mas contam-se pelos dedos de uma das mãos…

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