Poesia trovadoresca: património imaterial da portugalidade

Cantigas medievais galego-portuguesas

Nos últimos anos, graças a interesses empresariais que vogam entre a comunicação social e o turismo, tem havido alguma visibilidade para alguns elementos do património português, o que redundou em iniciativas como as dedicadas às sete maravilhas naturais ou às delícias gastronómicas, para além de ter levado à classificação do Fado como Património Imaterial da Humanidade. Ainda assim, estamos perante momentos de festa e não na presença de políticas de património, como é fácil confirmar pelo atentado da construção da barragem do Tua, entre muitos disparates quotidianos praticados por municípios que desrespeitam ou alteram PDMs conforme as necessidades.

Como se não bastasse o facto de sermos dirigidos por gente sem visão cultural e dominada apenas por políticas económicas de curto prazo, a Escola, devido à profusão de reformas curriculares e não só, tem contribuído, também, para que muito daquilo que é património cultural português seja cada vez mais estranho aos portugueses. A poesia trovadoresca, por exemplo, desapareceu dos programas de Português, pelo que a maioria dos alunos que percorrerem os 12 anos de escolaridade não a estudará.

Estes textos fazem parte desse património e constituem um momento fundamental (quiçá fundacional) da cultura portuguesa, faltando-lhe, no entanto, a grandeza evidente das paisagens açorianas ou a doçura folhada do pastel de Tentúgal, tornando-se, portanto, difícil de vender a turistas, o que é decisivo num país que precisa infantilmente da aprovação estrangeira.

Num ano em que pouca gente comemora o nascimento de um dos maiores poetas portugueses, o Projecto Littera coloca online todas cantigas que constam dos cancioneiros medievais. O Centro Ramón Piñeiro, na Galiza, já tinha feito algo de semelhante, mas o projecto português tem, sem dúvida, uma aparência mais cuidada e mais intuitiva. Para além disso, e para facilitar a compreensão dos textos, é possível aceder a notas de leitura, a um glossário ou a explicações toponímicas e antroponímicas e, ainda, a outros mimos como a possibilidade de ver reproduções dos manuscritos ou ouvir muitas versões musicais.

Comments

  1. marai celeste ramos says:

    Pois é o património intelectual que “forma” e remete para a portugalidade e foimação do sujeito, está ausente dos curricula de português – Se eu li Gil Vicente em menina e os Lusíadas e aprendi a dividir “orações”, se decorei poesia para educar a memória com palavras de qualidade (batem leve levemente como quem chama por mim-será chuva será gente-gente não é certamente e a chuva não bate assim-fui ver a neve caía do azul cinzento do céu-branca e leve branca e fria,,há quanto tempo a não via e que saudades Deus meu) + Ligne à ligne par par page l’écolier lit tout un ouvarage, et ce n’est qu’en écrivant qu’on finit par écrire, et ce n’est qu’en lisant, qu’on apprend à bien lire- tinha 13 anos- Se fiz teatro para reaprender o sentido e som das palavras e educar a voz e o gesto e a postura corporal e o sentido do que se dizia interpretando – e se fiz canto coral dos 7 aos 23 anos-para apender harmonia e ser “uma” de entre todos os outros sem sobressair mas “pertencer” ao mesmo tempo educando a voz e descobrindo-a, se e se — a não ser que, conquanto que, salvo se, eis a questão de não escrever ilidido e com K (que até é interessante mas não deve substituir nada mas simplesmente acrescentar) – pois é Júlio Dinis e Eça e outros que fui lendo mais e mais tarde ai ai Aquilino e as suas Abóboras no Telhado, e todos os de quem me esqueci “por fora” mas integrei por dentro no meu ter aprendido a ler e pensar e sentir, educada e metodicamente (bijoux-cailloux-choux-genoux-hiboux-joujoux et poux)+ Alexandre Herculano (nascido na terra onde nasci) e quem mais não sei, como não sei já o que li nem faz mal, porque ficou dentro a seu tempo e integradamente no ser, como foi igualmente a álgebra que adorava pois é a mais espantosa ginástica mental pela total abstração do pensar pelo pensar e ser lógica e silogismo universal, e tudo esqueci pois nunca mais usei, em directo, mas que ficou na forma de ser e persar pois foi apenas “ferramenta” para ir abrindo caminho ao que decidisse mais tarde estudar e fazer, e não ter medo de aprender mais tarde outras coisas sem decorar apenas, mas entender, mesmo o que se tem de memorizar – monotrématos-marsupiais-desdentados-sirénios-cetáceos-desdentados-pinípedes-artiodactilos,perisodactilos-proboscídios-carnívores,insectívoros-quirópetros e primatas-folha inteira-crenada-serro/crenada-crenada-dentada-lobada-fendida-partida e secta (como a folha de um malmequer-mas já não é assim, talvez não tenha que ser, mas tem de ser equivalentemente eficaz – a formaçao e consttrução da estrutura do pensar sem ser do pensamento que, esse, se vai com o tempo até mudando-Estou de novo agora a ouvir o Nuno Portas a falar da cidade e do cinema e do CCC (cine-clube católico) e do que se tinha de ler de arquitectura em italiano pois andavam à frente e que não nos fez mal nenhum fazer esforço – + o neorealimo baseado na RUA +++ etc+ o Sedas Nunes da nova sociologia ++ a habitação social ++ etc – são senhores e depois falará do grande Teotónio Pereira e o seu polémico Franjinhas da Rua Baamcamp e toda a sua artª social de que visistei ainda edifícios lamentavelmente em ruína mas que olhando o “Wcasco” que ficou de pé se vê a estrutura que o definia – e Corbusier dizia il faut tuer la rue – o que fez a arqtª moderna ++ etc + a sua escrita para a colecção Vampiro – pois é – não aprendeu monocordicamente – não aprendeu tudo de coisa nenhuma – aprendeu a aprender e a pensar e deu dois filhos à política e uma filha ao cinema que era o que queria ter feito e não fez – mas é uma referência intelctual do país e ainda o programa ZIP ZIP o melhor da TV da altura (se bem me lembro ´de Fialho Gouveia e ??? não sei !!) ++ etc

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  1. […] A recuperação dos clássicos no Secundário não se pode fazer sem uma perspectiva holística do currículo da língua portuguesa em todos os ciclos, para além de se tornar necessário rever a formação inicial dos professores que tiverem a seu cargo o ensino da língua materna, mas não é aceitável que os cidadãos portugueses possam concluir doze anos de escolaridade sem conhecer os principais escritores da Literatura, a começar pela Idade Média. […]

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