Assuntos de mercearia

Lembro-me bem de um merceeiro, que, por razões que nunca consegui estabelecer, volta e meia embirrava e dava-lha para conferir primeiro o dinheiro que o cliente levava consigo, e só depois aviar o pedido: –  “Mostra lá dinheiro, rapaz!”, ordenava de dentro do balcão. A chamada grande distribuição acabou por lhe roubar a clientela: ali não só se vendia mais barato, como também só se pedia o dinheiro no final, na caixa.

O merceeiro de serviço no ministério da Saúde decidiu aumentar brutalmente as taxas ditas “moderadoras”, adiantando uma atenuante, nunca devidamente quantificada: mais gente será abrangida pelas isenções. O aumento entra em vigor a 1 de Janeiro; mas, conforme se pode ler de uma informação prestada pelo ministério, o diploma que “estabelece os critérios de verificação da condição de insuficiência económica dos utentes para efeitos de isenção de taxas moderadoras” só foi publicado a 27 deste mês, e ”o formulário online ainda não se encontra disponível no Portal da Saúde”. O formulário é que, depois de preenchido por algum técnico superior de entendimento e confirmado pelas chamadas entidades competentes, a bem da nação, entenda-se, será sujeito a aprovação “de quem de direito”, também a bem da nação. Ou seja: a 1 de Janeiro toda a minha gente mostra o dinheirinho à entrada dos estabelecimentos do SNS, ou então não há consulta para ninguém. A sorte deste merceeiro é que ele gere uma mercearia não sujeita às leis da concorrência, e se der prejuízo os clientes é que pagam – não ele, que tem uma reforma dourada à espera, no grupo Mello ou no grupo BES, os grandes beneficiários do ataque cerrado ao Serviço Nacional de Saúde.

Carlos de Sá

Comments

  1. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Não sei meus senhores se o que é dito pelos governamentais é mesmo assim e só a partir de 1 de janeiro, já que no Posto médico do Bairro paguei em 28 de dezembro 2011 – 1.13 euros não sei de quê pois nem explicita

  2. Bruno says:

    Eles mamam porque o mamão do Sr. Silva, entregou novamente a preço de saldo aos espírito santo, mellos, champalimauds, entre outros…..

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