homens-livro

O trânsito de um planeta não é coisa inofensiva. Vénus atravessou-se diante do sol e levou-nos Ray Bradbury, irrequieto cronista dos mundos fantásticos.

Bradbury, que era também “Duke of Diente de León” do literário Reino de Redonda, ensinou-nos que, na história da humanidade, sempre haverá momentos em que seremos chamados a salvar do fogo aquilo que amamos, que sempre teremos de correr riscos para defender a nossa liberdade e a nossa memória, e que é nesses momentos que nos definimos como gente. Quando, como Montag, questionamos a ordem que nos dão, e resgatamos das cinzas um livro chamuscado, e nos atrevemos a lê-lo e a aprendê-lo de memória, salvando-o uma vez mais, desta vez do esquecimento e da morte.

Por mim, esta noite tenciono desligar o computador, ir até à janela, procurar algum resto de cometa, alguma cintilação longínqua, e acenar-lhe uma despedida.

Adeus, Ray, boa viagem.

Comments

  1. Oh carago Kratos é o Poder ou o Anti-christo?. says:

    livros in hominis…num há Homo livrus quanto muito há homo ludens e Bradbury foi muito mais que ficção científica e os contos marcianos não são sobre marcianos
    e o país de outubro não é um país nem um country mas é toda a alma humana posta em palavras

    Bradbury é um poeta em prosa…em vermelhões e tintas nunca vistas que assomam pouco a pouco no meio dos fantasmas e dos deuses da noite
    Shamain teu nome é Ray…

  2. Oh carago Kratos é o Poder ou o Anti-christo?. says:

    e a temperatura de 451ºF é apenas um dos muitos livros e novelas do dito e nem sequer é o melhor
    tem frases e momentos
    tem montags e samstags


  3. Nós temos homem-cadeira (chairman), por exemplo Catroga tem salvado muita coisa e iluminado outra tanta. E se ele tem transitado… só o centro da galáxia o sabe.

  4. Maria do Céu Mota says:

    Carla, li só agora o teu artigo. O título é chamativo e a tua escrita é melhor ainda. Vi a expressão «homens-livros» numa crónica de Manuel A. Pina ainda antes da morte de Bradbury. A nossa vida é feita de livros, mas podia ser ainda mais!!
    abraço

    • Carla Romualdo says:

      Essa crónica do MAP não será uma que saiu há muitos anos num catálogo da feira do livro do Porto? Quando digo “muitos”, deve ser mais de 15…
      Um abraço

      • Maria do Céu Mota says:

        Também pode ser. Mas a crónica a que me refiro é de maio, na notícias magazine. Abraço

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