Os médicos

Desde a última greve dos médicos que estes passaram a ser notícia. Ouvi-as ontem e hoje também sobre duplicação de vencimentos. Há, possivelmente, médicos que estejam a furar o esquema. Falta de vergonha deles mas também do próprio ministério que é incapaz de fazer o que lhe compete – controlar – e agora descarta responsabilidades espalhando sobre todos os médicos o manto do descaramento.

Esta estratégia não é nova.

Consiste em procurar uns quantos profissionais que sejam mau exemplo e usá-los como ponto de partida de generalização a toda a classe profissional. Baseia-se na produção de relatórios e estudos que permitam passar à opinião pública um cenário de regalias invejáveis, salários altos e pouco trabalho. Simultaneamente, esses estudos pintam um quadro de balda generalizada mas nunca, nunca, apontam responsabilidades a quem tem o dever de controlar o bom funcionamento da classe nem a quem tem a obrigação de promover as mudanças. Isto é, são relatórios que nunca focam as falhas de quem os encomenda  – ministros, secretários de estado, administração regional e demais cargos de nomeação política ficam de fora. O objectivo desta linha de acção consiste em causar invejas e ódios na restante população para assim minar a credibilidade da respectiva classe profissional e, assim, conseguir impor medidas prejudiciais à classe e à população. Com uma classe profissional descredibilizada quem é que vai ter em conta um alerta de degradação do serviço público?

Os professores, se voltarem a ler os dois parágrafos anteriores e transpondo para a sua realidade o que foi escrito, verão que a estratégia é exactamente a mesma. Os enfermeiros, pessoal da justiça e funcionários públicos, por exemplo, idem. Até os médicos já viram isto, uma vez que Leonor Beleza, quando foi ministra, foi a pioneira nesta abordagem. Estas estratégias de dividir para reinar são vergonhosas num estado que se diga pessoa de bem.

Mas então, nuca se muda coisa alguma? Claro que muda. Não deve é ser feito com técnicas de guerrilha. Quem tem razão acaba sempre por a fazer valer. Há médicos a ganhar mais do que devem? Que se corrija. Eu, que sou um bocado desconfiado, é que não acredito na coincidência destas notícias virem a lume logo depois do ministro da saúde ter perdido a face depois de uma greve de dois dias. Se o ministério precisa de mudar alguma coisa e tem razão, só tem a explicar as mudanças. A questão é se essas mudanças, além de prejudicar a classe profissional em causa, também prejudicam a restante população e, portanto, nunca seriam aceites porque partiriam de um pressuposto desonesto. Não é o caso destas remunerações sem justificação (correspondem a que percentagem da classe?) mas outras virão, como as que já foram recentemente levadas a cabo.

Lá está, a questão do estado como pessoa de bem de novo em foco e necessidade de prudência perante as movimentações dos spin doctors.

Comments

  1. Toino Chicken(雞肉) Em 2035 recebe a pensão en notas de 100 Marxs como na alemanha da natsozi? says:

    e arranjamos oftalmologistas adonde?
    a gente nã tem ADSE

    aqui há 30 anos que o oftalmologista do SNS e o filho dele davam consultas privadas das 18 à meia-noite quando saiam do serviço…

    e vinha gente de todo o deserto e cobravam 10 contos em 1986 e 16 contos em 1995

    logo os dois mil contos que faziam nos hospitaes do SNS e da crux bermelha eram só uma gorgeta

    havia 30 consultas por dia x 6 dias por semana
    é só fAzer as contas

  2. De resto os especialistas renais e anais do SNS says:

    davam consultas por cima do centro de radiologia a 10 contos em 1998 e agora continuam a dá-las a 70 eurros

    idem para os que fazem operações à próstata e às mamas…

    mesmo os que não trabalham para a Fresenius ou são consultores ou têm um centro de radiologia que nos bons tempos fazia 600 contos ao dia…fazem uns biquinhos por outros sítios

    as férias nas maldivas raramente saem nos brindes dos laboratórios da farmacopeia

    já lá adezia são pequito rebelo…

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