Crueldade

Um dos meus DVD’s preferidos é uma colectânea de dezoito curtas sobre Paris. Chama-se Paris, je t’aime, título nada surpreendente quando se trata da cidade do amor. Lançado em 2006, aborda a cidade de pontos de vista tão diferentes e com estilos tão distintos, que creio que cada um de nós lá encontra a sua história, aquela que nos comove ou mexe connosco, ou nos faz rir à gargalhada, ou simplesmente nos faz parar e pensar.
Tenho tido muitos bons momentos com essas maravilhosas histórias de amor. Embora não seja muito romântica, há coisas que mexem comigo, com a minha sensibilidade. Uma delas é precisamente a curta que se passa na Bastilha.
Chama-se Bastille, le Trench Rouge e conta a história de amor de um casal já sem amor. Um homem cansado do quotidiano rotineiro com a mesma mulher, cansado da sua parca vermelha, de a ouvir trautear sempre as mesmas melodias, encontra numa mulher mais jovem o entusiasmo de outros tempos, a paixão que já não sente pela mulher, a urgência do amor ilícito e fugaz. No dia em que decide deixar a esposa para oficializar a sua relação com a amadíssima amante, cai a bomba. Ainda antes de ele dizer o que quer que seja, a esposa anuncia que tem cancro em estado terminal. Ele decide fazer o que qualquer pessoa minimamente humana faria, apoia-a e acompanha-a. À força de tanto fingir amar, acaba mesmo por voltar a amar a mulher, sofrendo genuinamente quando esta lhe morre e jamais esquecendo a sua antes tão odiosa parca vermelha. Não sei explicar por que me diz tanto esta história, por que me comovo sempre que a vejo. Talvez por se passar na Bastilha, zona que conheço bastante bem e me desperta belas recordações. Talvez por se tratar de um casamento longo e sem entusiasmo, o pesadelo de todos os que um dia juraram amar-se até à hora da morte. É uma históra com um certo pendor lamechas, reconheço, mas falada em Francês, até a lamechice tem outro encanto.
O que acabei de narrar é o mundo imaginário.
O mundo real é um marido abandonar a esposa com quem é casado há vários anos, precisamente quando ela está com cancro em estado terminal.
O mundo real é que esse marido, não contente com o abandono, deixe a moribunda de rastos, dizendo-lhe que tem nojo dela e não consegue mais viver com ela.
O mundo real é a senhora saber que ele a troca por outra.
O mundo real é ter-se apercebido que esse grande homem, aparentado com as baratas que vivem nas lixeiras, apenas amava o seu aspecto físico e, quando esse desapareceu por culpa da doença, ter desenvolvido uma sensação de nojo.
Nojo? Quem devia ter nojo de quem? Quem é o ser mais nojento no meio disto tudo?
Com toda esta tragédia, a senhora morreu, ainda assim, com muito amor. Houve uma amiga, pessoa incansável, como o são os verdadeiros amigos, que não teve nojo e que a acompanhou até ao fim, dando-lhe aquilo que o verme insensível e descoroçoado não foi capaz de dar.
Pena que a vida real não possa às vezes ter um final feliz.

Comments

  1. palavrossavrvs says:

    Reparo que a música/banda sonora é, se me não engano, de Rodrigo Leão. Gosto.

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