A um Felino

Estás idoso, muito idoso. Os teus 17 anos de vida, equivalentes à juventude nos humanos, pesam-te já muito nas pernas. É verdade, os teus desvarios da mocidade, as tuas noites passadas na rua, todas as loucuras que cometeste, reflectem-se agora em alguns problemas de locomoção.
Estás connosco desde o regresso da lua de mel.
Casei sabendo que irias partilhar a minha vida. Não te conhecia, esperei pelo momento de regressar para te conhecer.
Não gosto de escolher animais. Normalmente, e tem sido assim durante quase toda a minha vida, os animais é que me escolhem. Trazidos por não sei que instinto, não sei que odor, são eles que param a meio do seu caminho, desviam a sua rota e me seguem. Ou me entram pela porta dentro. Ou chamam à minha passagem. Ou simplesmente se sentam no meu colo, onde quer que eu esteja.
Não me considero superior aos animais. Todos temos a nossa função na vida. Todos somos importantes para os ecossistemas de que fazemos parte. Por isso, não sou dona de nenhum animal. Sou simplesmente a vossa humana, tal como vós sois os meus gatos ou os meus cães.
Voltando a ti, meu Domingos, meu felino mais antigo , meu companheiro de vida, foi a Marta quem te escolheu. Nasceste numa casa, filho de dois gatos domésticos e, desde o primeiro dia de vida, te revelaste forte, de carácter decidido. Parece que foi esse o motivo para que a escolha recaísse em ti. Vi-te pela primeira vez dentro de um cestinho, com um laçarote ao pescoço. Soube depois que o pai da Marta, o sr. Marques, se tinha apaixonado por ti logo que te viu. Sempre que nos encontrava, lá nos perguntava pelo Domingos. Benfiquista ferrenho, até se lhe entaramelava a língua quando tinha que pronunciar o teu nome, homenagem a um jogador portista emblemático. Dos poucos que admirei como jogador e como ser humano.
De facto, ao longo destes quase 17 anos de vida em comum, a tua personalidade foi sempre marcante. Apesar de nascido em casa, foste sempre indomável, adoravas a rua. Detestavas estar fechado entre quatro paredes. Percebemos isso logo no primeiro ano de férias. No apartamento, fazias jogos connosco que terminavam invariavelmente comigo bastante arranhada, em variadíssimas partes do corpo. Nesse primeiro ano em que te levamos para Vila Nova de Cerveira, para a casa que a família alugava sempre, vi-te feliz como nunca te tinha visto. Andavas em liberdade!
Logo num dos primeiros dias dessas férias, ouvimos-te miar insistentemente. Toda a família acorreu ao teu chamamento. Estavas no quintal das traseiras da casa. Tinhas trepado a uma árvore e, ainda hoje penso assim, querias que te víssemos. Logo que os teus humanos chegaram, desceste da árvore, vieste ter connosco, miaste qualquer coisa, e voltaste a subir a árvore.
Legítimo descendente dos Grandes Felinos Africanos, foste sempre um lutador. Pobre do Bobby! Apelidado de Bobby Super-Protecção por um sobrinho pequenino, o pobre cãozinho mudo atravessava a rua em desespero se te visse no seu lado do passeio. Eras muito mau para os outros animais. Tão mau para eles como eras bom para nós. Sempre no nosso encalço, seguias-nos até ao café e ficavas à porta à nossa espera.
Os anos passaram e percebemos que não eras mesmo gato de apartamento. A tua felicidade maior era sempre o período de férias em Cerveira. Durante esses quinze dias vivias em total liberdade. Eras feliz.
Decidimos, também por ti, procurar uma habitação com algum espaço exterior onde pudesses viver livre e feliz. Fui gozada por um vendedor imobiliário que, insensível ao amor pelos animais, não percebia que eu fizesse finca-pé por uma casa com terreno, para que o meu gato tivesse liberdade.
Esse sujeito não foi a única pessoa que não percebeu a minha relação com os animais. Não sou fanática, não vos defendo acima de tudo, mas tenho a obrigação de tratar bem e de zelar pelo interesse dos animais com quem partilho a vida. E se isso significar mudar de casa, mudo. Se significar ir de férias para um local em vez de outro, vou. É verdade que às vezes altero rotinas ou tomo decisões também influenciada pelos animais. É a minha obrigação. Tenho que vos proteger e defender da mesma forma que protejo e defendo a minha família.
Desde a mudança de casa, a tua vida tem sido tão feliz quanto possível. Deixaste de fazer os joguinhos de arranhar. Passavas dias inteiros sem vir a casa. Mas vinhas sempre comer no prato que eu deixava à porta de casa para os gatos da rua. Quando querias, entravas. Quando querias, andavas em liberdade.
Nos regressos a casa, voltavas a ser o nosso gatinho bebé, ronronavas, sapateavas, dormias na nossa cama. Lá fora, eras um predador implacável. Detesto essa faceta dos animais, mas tenho que a aceitar como sendo parte dos vossos instintos.
Foste envelhecendo, e nós contigo. A família cresceu em crianças e em animais. Somos muitos. E tu continuas connosco. Agora já tão velhinho que nem sais de casa. Vives no nosso quarto, onde mais nenhum gato entra, para não te perturbar a paz dos últimos dias de vida.
Fizeste 17 anos em 2012, num dia negro para o país, o 27 de Novembro, e hoje não sei se te verei chegar aos 18. Estás doente. O teu pêlo já não é sedoso. Tens comido mal, apesar de te darmos comidinhas de que gostas. Estás com uma degenerescência do cólon, normal num idoso. Surgiu-te agora um problema que seria resolvido com operação, mas na tua idade «seria como operar uma pessoa de 95 anos» disse o veterinário. Mesmo que não tenhas problemas de rins, a anestesia provocá-los-à. Impensável operar nesta idade. Andas a fazer tratamentos que vão tratando, mas não curam. Vejo aproximar-se a hora da despedida. Sei que é inevitável que partas. Sempre o soube. Muitos dos meus animais já partiram. Todos deixaram um vazio no meu coração e na minha vida. O vazio deixado por ti será ainda maior e mais doloroso. Ao longo de toda a nossa vida em comum tentei sempre respeitar a tua natureza. Sei que gostas de estar sozinho no teu espaço e que quando me queres vens ter comigo. Sei que muitas vezes me ouvias quando ia para os montes e para o meio da mata chamar por ti e me ignoravas. Tantas vezes te vi aparecer e depois fugir em corridinhas, desafiando-me, sabendo que eu não te poderia acompanhar. Os vizinhos comentavam a tua atitude. As pessoas viam-me na rua, às vezes bem grávida, e perguntavam: «Anda à procura do Domingos?» Andava.
Como dizia, sempre te respeitei e aceitei o que és e como és. E só agora gostaria, por um bocadinho, que fosses diferente. Que falasses em vez de miar. Só para eu saber se estás bem, se não estás em sofrimento. Só para isso.
És o meu felino mais velho. O meu Domingos. «O nosso imão mais veio, mãe, o teu Dominguinhos», como dizem as meninas. Sempre assim serás recordado.

Comments


  1. Muito bonito, Noémia. O meu tem 16 anos e veio cá para casa com três meses. Lá irei, também, passar por isso. Só de pensar…

  2. Pois says:

    Uma festa para o Domingos. E um “obrigado” por este belo e comovedor post, como todos os textos que são (conseguem ser) testemunho de amor.

  3. rui esteves says:

    Gostei muito do seu texto e do Domingos.
    O gato cá de casa chama-se Chiquinho e também gosta de dar umas ruadas de vez em quando.

  4. maria celeste ramos says:

    Noémia que bonito – eu tenho em casa um ser especial que me acompanha há 10 anos e sem nunca ter saído à rua tem uma vida e saber diferentes – mas farei tudo por ele pois que já esteve a morrer por duas vezes só por me audentar 2 dias seguidos a trabalhar e nem percebi da 1^vez – mas percebi à sgunda vez e deixei de sair de csa por ele – a depressão que teve foi até comovente – esse sindrome de “abandono” que nele detectei e não mais acontecerá a não ser que vá — antes de mim – somos dois “velhotes” – ele não passa sem mim e se chego a casa mais tarde do que está habituado pois sabe o meu horário (e mudou o dele por causa de mim) mas eu já não passo sem ele e a sua inteligência e ternura e ainda hoje, como habitualmente, porque dormi mal não me levantei à hora habitutual – mas ele foi acordar-me e esperou aninhado a meu lado fora da cama claro – que me erguesse – é um ser especial – ainda hoje discuti ?? com uma amiga o que é isso de amor e ternura e o que os animais nos ensinam se os amarmos também

  5. maria celeste ramos says:

    Perdão escrevi sem rever e mais uma vez a sintaxe é uma bodega – nem o meu gatinho merece a minha imperfeição orque ele não tem um único defeito e não faz um único disparate a não ser os que gosta de fazer para me provocar e sabe que eu sei que ele sabe que eu sei que é ternura e provocação para mais uma forma de “conversarmos”

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