Acordo ortográfico: Carlos Reis e os decibéis

NAO2cA Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) decidiu continuar a utilizar aquilo a que chama “norma ortográfica antiga” em toda a sua documentação escrita, “uma vez que o Conselho de Administração considera que este assunto não foi convenientemente resolvido e se encontra longe de estar esclarecido, sobretudo depois de o Brasil ter adiado para 2016 uma decisão final sobre o Acordo Ortográfico e de Angola ter assumido publicamente uma posição contra a entrada em vigor do Acordo.”

Chamado a comentar esta decisão, Carlos Reis, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e defensor feroz do chamado acordo ortográfico (AO90), começa por declarar que, ao contrário do que afirma o site da SPA, “o Brasil não adiou uma decisão final sobre o AO, o que fez foi prolongar por mais algum tempo o período de transição até à sua aplicação obrigatória”, o que é, pelo menos, uma verdade incompleta, porque há vida para além dos decretos e basta reler as declarações do senador Cyro Miranda e do Movimento Acordar Melhor para perceber que este adiamento poderá servir para introduzir alterações no AO90 conducentes a um aprofundamento da simplificação ortográfica.

Seguidamente, Carlos Reis declara que, por ter estado a leccionar na Universidade Católica do Rio Grande do Sul, durante o ano lectivo de 2011-2012, pôde aperceber-se de “que o AO foi já generalizadamente adoptado no Brasil, sem dramas nem histerias”. A preocupação de Carlos Reis com a saúde mental dos brasileiros que adoptam o AO90 é louvável, decerto, mas o facto de o acordo ser fonte de placidez para os seus adeptos não constitui prova de que seja um instrumento de qualidade, a não ser que tenha efeitos tranquilizantes ou soporíferos e, nesse caso, poderá ser usado para fins medicinais.

Surpreendentemente, embora não seja o único defensor a dizê-lo, Carlos Reis afirma que o AO90 “carece de alguns reajustamentos”. Esta asserção é tão vaga que podemos perguntar se há alguém ou alguma coisa que não careça de alguns reajustamentos, a começar por mim, que tenho sentido uma pontada nas costas. A propósito, chego a imaginar que o AO90 é um carro cujas qualidades foram elogiadas pelo vendedor, que, diante dos protestos histéricos do comprador insatisfeito, abre o motor, dá-lhe duas pancadas com o alicate e, limpando as mãos aos desperdícios, diz “Você é um exagerado, homem! Isto só carecia de alguns reajustamentos.”

Carlos Reis, por contraste com a superior tranquilidade brasileira, afirma que os portugueses só não perceberam a necessidade de reajustamentos devido à “gritaria”.

Ainda na mesma declaração, Carlos Reis ameaça os portugueses ululantes com a possibilidade de que o Brasil venha a liderar o processo e ficamos a saber que há, em Portugal, pessoas que temem o “protagonismo do Brasil nesta matéria”. Pela minha parte, sinto-me tranquilo e ficarei muito satisfeito, se Portugal não participar no mesmo filme.

Finalmente, ficamos a saber do poder que Carlos Reis tem sobre Angola, quando anuncia que a antiga colónia portuguesa “mais tarde ou mais cedo, vai ter mesmo de adoptar o AO”. O estudioso português não será dono de língua, apodo que arremessa aos críticos do AO90, mas parece ser proprietário da ortografia angolana, o que pode ser uma boa maneira de equilibrar as relações comerciais dos dois países, contrariando os desequilíbrios causados pelas aquisições de Isabel dos Santos.

Comments

  1. amatos63 says:

    esse fulano não é meio louco, não tem credibilidade nenhuma, é um pedante de m… se tivesse alguma coisa de bom a dizer seria utilizado para combater os anti AO90


  2. Em Angola usa-se o Acordo e sabe-se o que é serviço público de TV. bfds


  3. Carlos Reis que se phoda…

    … E quanto à fanfarronice dele de que Angola «mais tarde ou mais cedo vai ter mesmo de adoptar o AO», tal é típico, e mais uma prova, de como os autores e defensores do «aborto pornortográfico» são autênticos neo-fascistas e neo-colonialistas, como afirmei num recente artigo meu no Público:

    http://ilcao.cedilha.net/?p=8914

  4. Vasco says:

    Ahahah. Muito bom. Abolir já o AO é necessário. Pela liberdade!

  5. Vítor S. says:

    Para aqueles que são contra o acordo ortográfico, deixo aqui algumas frases de grandes vultos da nossa intelectualidade, com as quais certamente concordarão:

    Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie bana (Teixeira de Pascoais)

    Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. (Fernando Pessoa, que não aceitou que cysne se escrevesse com i)

    Eu próprio ainda continuo a escrever pharmácia (sim, po que para mim uma Farmácia não vende medicamentos).

    A luta continua… mas a derrota é certa.
    Mudam-se os tempos, mas não se mudam as mentalidades, ou como diria Einstein “é mais fácil cindir o átomo que destruir um preconceito”.

    • Lhindo says:

      Três anos depois, não só a luta continua, como até a sacrossanta Academia das Ciências já reconheceu que o AO foi o um falhanço e que até o Primeiro-Ministro discorda dele (mas que não se vai mexer, contudo).

      Pergunta-se: qual derrota, mongo de merda? O único átomo que foi cindido foi o da ordem linguística, filho da puta.

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