Liberdade para a Macarena

 A revista «Mongolia», “revista satírica sin mensaje alguno”, conforme a definem os seus autores, nasceu em Espanha há quase um ano e ainda não tinha provocado grandes polémicas, coisa que não se perdoa a uma revista satírica.

Para remediar essa falha, os seus autores lembraram-se de apresentá-la em várias cidades espanholas, com um convidado especial para cada sessão, e para a devotíssima Sevilha lembraram-se de convidar Felipe Alcaraz, antigo secretário-geral do Partido Comunista Andaluz. E porque de uma revista satírica se espera o recurso à sátira, lançaram o evento com o cartaz lá de cima, com a imagem da mais guapa de todas as guapas, a Virgem da Macarena, um dos símbolos da cidade, a anunciar o evento rematando com um muito andaluz “Decidme ustedes si no es para llorar”, ela que sempre é representada em lágrimas.

O autarca de Sevilha, Juan Ignacio Zoido (PP), respondeu de imediato no Twitter, dizendo que a imagem ofendeu “os sentimentos dos sevilhanos”. Mais indignada ainda ficou a (aguentem o fôlego:) “Real, Ilustre e Fervorosa Irmandade e Confraria de Nazarenos de Nossa Senhora do Santo Rosário, Nosso Pai Jesus da Sentença e Maria Santíssima da Esperança Macarena”, a que a partir de agora chamaremos apenas Irmandade da Macarena.

Manuel García, o “Irmão Maior”, começou por sentenciar que a revista «Mongolia» utilizou uma imagem da Virgem da Macarena por não se atrever a usar a de Maomé. E como a revista não apresentou desculpas, García, em nome da Irmandade da Macarena, veio entretanto ameaçar os editores com um processo judicial porque – e este é o momento pelo qual eu estou à espera desde a primeira linha – a Irmandade detém a patente da Macarena e ninguém lhe pediu autorização para usar a sua imagem.

É verdade, a santa padroeira de Sevilha está patenteada. E na sua condição de patenteada, terá de proceder conforme a Irmandade ordena, estar em exibição onde a Irmandade indica, figurar nas revistas que a Irmandade publica e em nenhum momento aparecer associada àquilo que a Irmandade rejeita. A Macarena é, pois, um produto da Irmandade. Ora, a Macarena, amada pelos sevilhanos, que gritam “guapa, guapa, guapa” à sua passagem em procissão, deveria, atreve-se a dizer esta herege, pertencer ao povo que a venera e a mais ninguém que ainda se passeie por este mal-afamado vale de lágrimas.  

É certo que, como lembrou Felipe Alcaraz, na Basílica da Macarena está sepultado Queipo de Llano, que tão leais serviços prestou a Franco durante a Guerra Civil (e ainda assim acabou esquecido, nunca há honra entre bandidos). E no dia em que aquele morreu, os irmãos patenteadores vestiram a Macarena de negro, como se ela tivesse voltado a perder um filho. Mas esta é também a santa a quem o poeta Rafael Alberti chamou “camarada” e que nem por isso mandou abater as dez pragas bíblicas sobre a cidade da Giralda.  

Ficámos assim a saber, se ainda não o suspeitávamos, que até os santos têm dono. A escrava Macarena lá continuará presa, na Basílica com o seu nome, até ao dia em que se revolte e rasgue o contrato de patente que nunca assinou.

Nestes tempos tormentosos, até com os santos temos de ser solidários. 

Comments


  1. 🙂

    • antonio cristovao says:

      As religioes por mais civilizadas que estejam cegam demais. Felizmente com a mais comum aqui ja passaram 500 anos depois da inquisicao. A dos nossos vizinhos do sul esta agora nesse estadio (1500 anos idade)


  2. Ser santo nunca fez bem a ninguém, sobrinha.


  3. Liberdade e Religiões… Uma batedeira e temos o Mali e a intervenção militar francesa… Mas tal como escreveu a Carla Romualdo tudo não passa de business, e este Deputado não podia ser mais claro na sua intervenção…
    Para minha admiração (estou a ironizar!) no final dos discurso não recebeu um único aplauso!

    Abr 😎


  4. Um belo texto.

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