O primeiro empréstimo da troika está a correr muito bem. Venha o segundo.

O BCE está a ganhar 1% com o empréstimo. A banca nacional ganha 1% a 2%. Os credores ganham uns 7%.  É claro que o programa da troika é um sucesso – é só uma questão de perspectiva.

Ilude-se que julgue que a troika tenha por objectivo deixar um país próspero no fim do seu programa. Este aspecto é-lhe indiferente, apesar disso, por artes mágicas e numa hipótese remota, até poder acontecer. Mas não é essa a bitola do seu sucesso. A troika está em Portugal para garantir que os credores recebem o seu dinheiro. A troika são os credores. A troika está cá, a acompanhar passo a passo a execução do programa, para garantir que no fim recebeu todo o seu dinheiro de volta (empréstimo e lucro).

Mas Portugal é um país pobre. Tem alguns serviços que seguram as pontas do orçamento e tem residuais sectores primário e secundário. Não surpreende, portanto, que o aumento de impostos não se traduza num aumento de liquidez fiscal, especialmente num país que durante décadas, desde que Cavaco começou a desmanchar os sectores primário e secundário a troco de subsídios da CEE, manteve a economia a funcionar essencialmente com investimento do estado.

Como poderá o país ter então dinheiro para pagar o empréstimo da troika? Não tem. Por isso vemos as poupanças dos cidadãos serem saqueadas via aumento da carga fiscal do contribuinte individual. Governos cooperantes como é o do Passos Coelho e como foi o de Sócrates, o primeiro porque tomou como seu o programa da troika, o segundo porque assinou esse programa, são a melhor garantia de pagamento que a troika possa ter. A falta de receita fiscal, disse-o Passos Coelho, vai ser compensada com menos estado. Isto é, o princípio de pagar impostos para ter serviços prestados pelo estado será substituído pelo de pagar impostos e pagar os serviços que o estado deixa de prestar. Esta estratégia serve à troika, a qual assim vê um caminho para o pagamento do seu rentável empréstimo e, como bónus, ainda ganha a possibilidade de renovar o negócio da cobrança de juros com  mais cinco ou sete anos de prolongamento de prazo.

Mas existem outros caminhos. Um, como já referi noutro post, consiste e deixar de dar dinheiro ao BCE e à  banca nacional só para se fazer chegar o dinheiro vindo da troika até ao estado (2.3 mil milhões de euros).  Uma segunda via, mais difícil por obrigar a negociação com os credores (mas não impossível), consiste em cortar nos juros deste empréstimo sem risco (quase metade é para juros e comissões). Finalmente, a terceira fonte de receita seria o estado fazer algo para recuperar os 7 mil milhões que já enterrou no BPN – e se há por onde ir buscar este dinheiro! Para implementar estas estratégias falta, no entanto, um aspecto fundamental: vontade política. A verdade é que o Governo de Passos Coelho não demonstra uma ponta de interesse em seguir estas alternativas. E o PS, com as suas cartas a jurarem fidelidade à querida troika, também fugirá destas soluções se entretanto chegar a governo. Quanto a partidos, restam o PCP e o BE, os quais não têm suficiente força eleitoral. Sobra então apenas a tomada do poder por assalto, o que, numa sociedade com pouca participação cívica como a nossa, é uma hipótese remota. Um dia a fome falará mais alto do que o imobilismo mas ainda temos uma longa via sacra pela frente.

Comments

  1. nightwishpt says:

    “Um dia a fome falará mais alto do que o imobilismo mas ainda temos uma longa via sacra pela frente.”
    O nazismo já anda aí pela europa a ser acordado e o salazarismo em Portugal.
    A UE é feita por idiotas chapados.


    • Vai dar ao mesmo o que disseste, nazismo, Salazarismo. Morreram milhares de pessoas às custas de Salazar, e muitas pela decisão de terem tirado o Cônsul Português das suas funções, o resto já se sabe, como a respectiva saudação nazi que os elementos da mocidade portuguesa eram obrigados a fazê-lo.

  2. valente barbas says:

    É preciso compreender o Regime. Estamos em Democracia, não esquecer.
    O Regime abomina um Estado forte e esclarecido.
    O Estado é muito social, muito amigo do Povo.
    O Regime não quer ser o Poder.
    O Poder é sempre impopular, mas é um instrumento essencial, legitimado pelo Povo.
    O Regime apropria-se do Poder, impõe-no-lo, usa-o e descarta-o por exaustão.
    O Regime não tem Pátria, nem fronteiras, nem Moral.
    O Regime tem horror às coligações, exige uma Maioria, dextra ou sestra.
    O Regime regenera-se por dentro, premeia os fiéis desde o Executivo ao Judicial e eterniza-se.
    O Regime é dissuasor… uns ressabiados aqui, uns danos colaterais acolá…
    O Regime está à espera que o Executivo prevaleça na destruição do Estado, caso contrário substitui-o… democraticamente e com o auxílio do seu maior aliado: o Povo.
    O Povo é sábio.
    O Povo é sereno.
    O voz do Povo é a voz de Deus…
    Deus o abençoe.

  3. AACM says:

    Entretanto a OCDE informa :….” de acordo com a OCDE o indicador que perspectiva o comportamento da economia superou os 100 pontos e atingiu o nível mais elevado desde Julho de 2011, revelando assim melhorias pelo décimo primeiro mês consecutivo.”…….que ira dizer sobre isto a esquerda radical ( PS,PCP e BE) ?????

    • jorge fliscorno says:

      Wow. Foi uma recuperação tão rápida que passou por nós sem sequer a vermos.


    • AACM;
      O que irá dizer a esquerda radical, não sei, até porque não sou de esquerda.
      Sei que as elites e os aparachiks da OCDE (como mostrou) e do BCE e do FMI e da UE dizem que as coisas vão bem,

      Mas a grande maioria de nós, pessoas dentro dos limites da sensatez, de esquerda ou direita, com rendimento ou a viver de esmolas disfarçadas, com casa ou despejados dela, diz que as coisas vão mal. O nosso mundo, não é o deles. E a culpa é da maioria de nós que acredita e vota em charlatães e se esquiva a apresentar alternativas ao vivo, deixando assim os draghi, os monti, os constâncios, os sócrates, as merkel, os mexia, os ferreira do amaral à solta (à solta, em sentido figurado e literal).


    • Porque põe PS, PCP e BE no mesmo barco?

  4. ricardo silva says:

    PARABENS GASPAR E COELHO!!!
    quando terminarem e declararem a bancarrota desse pequeno país temos um job para voces com ordenados na ordem do Mexia aqui no FMI ou GS pelos excelentes serviços prestados!

  5. Maquiavel says:

    Deixem lá. Daqui a umas décadas, quando esses energúmenos morrerem, haverá quem lhe cantará loas, diräo até que “salvaram o País”.
    Querem apostar?
    Dedico a essa gentalha esta musiquita:
    http://www.youtube.com/watch?v=kB9wpKXvr1o
    kB9wpKXvr1o


  6. Infelizmente é isso . Uma questão de perspectiva , mas cada vez mais negativa .

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  1. […] Juros com o empréstimo da tríade (34.4 mil milhões de euros), mais comissões do BCE e banca nacional (2.3 mil milhões de euros) […]

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