Por Portugal, claro!


“Manso! Manso! Manso!” – ululava a turba. Não eram muitos, mas eram insolentes. E no meio daquela bruma, o uivo persistia e dava-lhe vergonha. Muita. Quando abriu os olhos, aquilo ainda lhe ribombava nos ouvidos. Passou a mão pela testa encharcada em suor e, apesar de mal acordado, a irritação voltou. Avassaladora. Como se não tivesse descanso. Como se tivesse aproveitado aqueles momentos em que dormitou para ir buscar, lá ao fundo, as memórias que o perseguiam e atormentavam há tanto tempo. Como podia ele esquecer aquele presunçoso efeminado que o havia perseguido com aquele pasquim miserável. Com aquelas notícias sem nenhuma importância. E porque é que as pessoas não conseguiam ver que aquilo não interessava para nada? Que ele estava acima disso e que mesmo que fossem verdade, ele era demasiado importante. Às pessoas como ele não se aplicavam as regras da gente comum. As pessoas deviam ver isso. Mas não viam, os ingratos, e a culpa era daquele asqueroso jornalistazeco que o importunava. E sempre com aquele sorriso cínico e empertigado. Maldito. Mil vezes madito.


E foi neste remoer que, de repente, percebeu que aquela era a oportunidade que estava à espera há tanto tempo. O gajo tinha dado uma abébia. Finalmente. Ao fim de tantos anos. Era a hora de o fazer pagar. A ele e ao outro. Sim que o outro, também, lhe tinha dado água pela barba. Desde que era novo. O insolente! Sempre que podia, atazanava-lhe a paciência. Parecia que não compreendia. Parecia que fazia de propósito. E fazia. E lá vinha com as mesmas coisas, a juventude isto, os estudantes aquilo, o futuro aqueloutro. Então o descarado não via quem era ele. Ainda hoje continuava a importuná-lo e a desrespeitá-lo. Quando aparecia às 5ªas feiras, que frete, mas lá tinha de ser, nunca o tratava com o respeito e a dignidade que ele merecia. Era sempre “sôr presidente”. Nunca usava o “sua excelência”. Era de propósito. Pirralho. Mas iam os dois pagar. E ele queria lá saber do resto. Finalmente iam perceber que ele estava muito acima. Bandalhos. Só precisava de arranjar uma ou duas desculpazitas para as pessoas não perceberem. Com mil diabos, se pensasse bem, até iam achar que ele estava a fazer aquilo por elas. O melhor era mesmo se conseguisse estragar mais alguma coisa no caminho. Isso até lhe dava mais razão. As pessoas, de certeza, que iam atirar a culpa para o catraio. E aí era ele que se ia rir. “Sôr presidente”. O tanas!

Estes novatos não percebiam coisa nenhuma. Os do seu tempo é que eram. Outra pinta. E esta catraiada que achava que os iam atirar para a reforma. Pois. Iam, iam. Ainda tinham muito para dar. É verdade que o Mário não tem ajudado muito. Já está um bocadinho ché ché. Mas também é muito mais velho. Ele não. Para ele tinha chegado a hora. Tudo se começava a compor. As coisas começavam a ficar claras. A encaixar-se. Com jeitinho e como quem não quer a coisa, ainda catrapiscava o Rui lá de cima. Que esse sim, era um rapaz à maneira. Respeitador. Educado. Dava-lhe aquilo de bandeja, como ele tinha pedido, sem ter de se maçar com essas coisas de votos. E depois, ah, o paraíso. Voltava a ser ele a mandar em tudo. Sim porque o Ruizito, tão bom moço que ele é, não haveria de fazer nada para o contrariar.

E então percebeu que já não ouvia nada lá no fundo. Já ninguém lhe chamava “manso”. Até a Maria havia de olhar para ele de outra maneira. De certeza. Como costumava olhar. E foi com os olhos brilhantes e um sorriso rasgado que enfiou mais um pedaço de bolo-rei na boca escancarada. Piscando o olho ao passar pelo espelho, pensou: “Por Portugal, claro!”

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