Selassie e as trocas (swaps?) da ‘troika’

Certos caminhantes, de passos erráticos e de baixas dioptrias, conformam-se com a visão curta. Inibem-se de tomar consciência do horizonte distante e profundo de misérias que tragam e destroem milhões neste devassado e imenso mundo.

Selassie, o etíope do FMI vai deixar a ‘troika’ da ‘ajuda externa’ (?) a Portugal. Nada de novo. O dinamarquês Poul Thomsen, louro e de olhos azuis, também já o fizera.

As trocas de homens de epiderme distinta, em termos de ternuras, poderiam conduzir-nos até Vinícius:

Se por acaso o amor me agarrar
Quero uma loura pra namorar

Mas se uma loura eu não encontrar
Uma morena é o tom

Infelizmente, contra as excepções dos abastados que sustentam com jóias e lusitana, espanhola, francesa, italiana ou germânica paixão, os sentimentos populares são de tristeza.

Portugal, como outros países, está condenado a estas mudanças de homens da ‘troika’. O alemão Juergen Kroeger também nos deixou.

Todavia, é imperativo permanecermos conscientes de que com a substituição dos homens, do FMI, da CE ou do BCE, ficam em boas mãos a herança de nos fazer controlar o défice orçamental, garantir os cortes de despesas públicas através de despedimentos da fp, de reformas e pensões, e de outras coisas mais, que são  malévolas demais.

O Pires, na economia, está aí para nos encharcar de cerveja a rodos, seja investimento da ‘Super Bock’ ou ‘Sagres’. Tudo acabará em festa na praia do Meco, relembrando; “Le Méteque” de Georges Moustaki. Sim, porque o momento é para nómadas e os bancos e outros credores exigem despejos – “Je suis vraiment le méteque!”, diz um meu amigo francês que agora vive no Parque de Campismo de Monsanto – ficou desempregado.

Selassie vai ser substituído por um tal Lall. Se fosse contratado pelo F.C.Porto ou pelo Benfica, pelo nome, teria certamente todas as condições para ser um goleador de sucesso. Mas, como não é caso, estou já preocupado com os inúmeros golos que vai marcar nas nossas próprias balizas.

Como Selassie se vai dedicar a África, e provavelmente ao seu país, Etiópia, lembre-se o que Joseph Stiglitz escreveu em ‘Globalização – a Grande Desilusão”, na página 63:

A Etiópia e a Luta entre a Política do Poder e a Pobreza

Depois de quatro anos em Washington, eu habituara-me ao estranho mundo das burocracias e dos políticos. Mas só quando me desloquei à Etiópia um dos países mais pobres do mundo, em Março de 1997, um mês depois de ingressar no Banco Mundial, é que me embrenhei completamente no universo surpreendente da política e da aritmética do FMI. O rendimento ‘per capita’ da Etiópia era de 110 dólares por ano, e o país fora assolado por sucessivas secas e fomes que tinham vitimado 2 milhões de pessoas.

Seja na Etiópia, no Mali, no Burkina Fasso, na Guiné-Bissau, na Guiné-Conacri e por outra região de África, alguém acredita que os programas executados por Selassie, Thomsen ou outro burocrata de Washington resolverão os problemas daqueles desgraçados povos?

Comments

  1. adelinoferreira says:

    A gente não faz amigos, reconhece-os!

    Vinícius de Moraes

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