Festa no Pontal, miséria em Portugal

pobrezaNo Pontal, reuniram-se aqueles que amam o solo e pisam o povo, como gritava Jô Soares. Com a desfaçatez de quem não se pode dar ao luxo de ter vergonha, houve discursos com veneno suficiente para matar um país.

1 – “Qualquer decisão constitucional não afectará simplesmente o Governo. Afectará o país. Esses riscos existem, eu tenho que ser transparente. Se esse risco se concretizar [o TC declarar a requalificação inconstitucional] alguns dos objectivos terão que andar para trás”

Sabendo-se que o desconhecimento da lei não aproveita a ninguém, o que dizer de alguém que reincide no incumprimento de uma lei que conhece? O que dizer de um primeiro-ministro que reincide no incumprimento da lei fundamental do país?

A habilidade chico-esperta de chamar requalificação a despedimentos é própria de gente que não é séria.

Também não fica bem a um primeiro-ministro maltratar a língua materna: o que são objectivos que andam para trás?

2 – as desconformidades constitucionais já obrigaram à subida de impostos e obrigam – o verbo foi sempre esse – agora a fazer uma “redução de efectivos na função pública”. “Se não temos dinheiro para pagar salários e pensões, o que fazemos? O que fazem as empresas: reduzem pessoas e baixam salários”

É realmente estranho que o Tribunal Constitucional considere inconstitucional aquilo que é inconstitucional.

É evidentemente falso que o problema orçamental esteja na função pública, mas essa é uma mentira que há-de ser repetida até à exaustão por quem não se pode dar ao luxo de ter vergonha.

É manifestamente estúpido que um primeiro-ministro declare abertamente que quer reduzir efectivos na função pública, contrariando a Constituição, para depois se fingir muito admirado com a declaração de inconstitucionalidade dessa medida.

É infelizmente habitual que os mercenários que nos governam confundam o governo de um país com a gestão de uma empresa, mas esse é o paradigma em que vivemos, com prejuízos para a maioria dos cidadãos e lucros para os que pagam aos mercenários.

É completamente agramatical e estranhamente real saber-se que as empresas “reduzem pessoas”: em português correcto, deverá falar-se em redução de pessoal; num país em que os direitos dos trabalhadores são reduzidos a nada, as empresas, na verdade, reduzem pessoas, tornando-as cada vez mais pequenas.

3 – “nenhuma instabilidade governativa resultará destas eleições. Vou repetir. Nenhuma consequência do posto de vista nacional advirá do resultado das eleições autárquicas.”

Antecipando um mau resultado nacional nas eleições autárquicas e garantindo que não haverá instabilidade governativa, Passos Coelho, sempre persistente, deixa bem claro que nada o fará largar o pote, o que já se tinha percebido, quando Paulo Portas pediu a demissão. Ao mesmo tempo, confirma que não terá problemas em sacrificar o próprio partido.

4 – “nasceu na rua, entre as pessoas”

As palavras são de Marco António Costa e referem-se ao PSD. Mais um ponto comum entre o partido e as bactérias.

Fotografia encontrada aqui.

Comments

  1. nightwishpt says:

    E as baratas, já agora.

    Já há muito se percebeu que violar a constituição devia dar muitos anos de cadeia, senão vamos sempre ter a isto.

  2. Fernanda says:

    Um discurso medíocre de um inenarravelmente medíocre primeiro ministro numa altura muito difícil que o país atravessa.

    Onde estão os líderes políticos capazes de mobilizar o país para uma verdadeira e justa saída deste atoleiro em que tecnocratas, ex-jotas, corruptos, assessores adjuntos de secretários adjuntos de nos conduziram e pretendem continuar a conduzir?

    Um país governado por 1 governo destes, 1 presidente destes e um líder do maior partido da oposição destes, é um país que se tornou indigente.

    Resta saber se os cidadãos deste país querem um país indigente para si e para os filhos.

    Para ser franca, estou farta disto. Vocês não estão?

  3. J.Pinto says:

    Eu não vou falar de políticos nem de políticas. Essas, deixo-as para os especialistas. Quero apenas destacar esta afirmação sua: “É infelizmente habitual que os mercenários que nos governam confundam o governo de um país com a gestão de uma empresa”.

    Deve andar muito distraído, uma vez que se Portugal mos últimos 38 anos fosse gerido como uma empresa as pessoas há muito que tinham visto a realidade. Assim sendo, mesmo vendo-a fingem que nada de passa. Se Portugal fosse governado como uma empresa, passados dois ou três anos, se não conseguisse sequer ter contas equilibradas (já não falo de excedentes), há muito tinha fechado – lembro que em 38 anos tivemos sempre défice; significa que gastamos sempre mais do que recebemos. Se não nos podemos queixar é de termos tido governantes que governanram como se governam as empresas.

    Tentar passar a ideia de que fomos ou estamos a ser geridos como uma empresa é mentir às pessoas. Quer-se passar a ideia de que o nosso esforço significa lucro e é exatamente o contrário; não temos lucro e continuaremos a ter prejuízo. Prejuízo atrás de prejuízo. Há 38 anos.. o resto são conversas.

    • António Fernando Nabais says:

      Em grande parte, dou-lhe razão, embora a mentira a que se refere seja da responsabilidade de quem governa, ao usar a gestão empresarial como termo de comparação.
      Partindo do princípio de que um país possa ser considerado uma empresa, a verdade é que os gestores eleitos andam, há anos, a desviar dinheiro para pagar favores ou obter ganhos ilícitos. Numa empresa, isso daria origem a falência e ao despedimento dos gestores, em princípio. Nos governos, tem como consequência a nomeação para grandes empresas ou o regresso ao governo, depois de uns anos na oposição.
      Por outro lado, sempre que é preciso argumentar a favor de cortes, são esses mesmos gestores eleitos que se disfarçam de gestores de empresas.
      De resto, independentemente de se considerar que a gestão de um país deve recorrer a instrumentos semelhantes à da gestão de uma empresa, não devemos confundir os dois objectos, mesmo nos casos em que o Estado é, também, patrão.
      Em suma, os governantes não se comportam como empresários, quando se trata de equilibrar as contas, e fazem de conta que são empresários, quando querem fazer cortes.


  4. Por mim há muito que não via “aves de rapina” – as de Trás-os-Montes morrem esfaqueadas pela porcaria das torres eólica de que tantos se orgulham e menos do que tantos colheram os lucos que eu pago e as aves autóctones vão morrendo e era riqueza do país – as torres eólicas matam mais do que dão – mas “rapaces” não são só as águias que morrem mas as que “nos matam a muitos” pois que há o predador e o predado – estou do lado dos eduzidos pelo menos desde 2008 à pobreza inesperada e cruel – os que resistem quem serão e como resistem – são quem e quantos ?? com certeza que são poucos mas são DEMAIS – pelo menos dois já são demais pois que os que os rodeiam são os serviçais “de luxo”


  5. Na festa do Pontal quiseram mais uma vez os barões e seus seguidores demonstrar
    que o país não está mal , que está melhor , enganando cada vez mais as pessoas
    para incrementar cada vez mais o culto da MISÉRIA , o que eles querem é transfor-
    marem-nos em miseráveis escravos , o resto é treta , é tudo mentira ,


  6. ‘É evidentemente falso que o problema orçamental esteja na função pública,’
    Se em vez de cuidar da gramática cuidasse da verdade…

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