Não queremos semear ventos

No primeiro semestre de 2013 a taxa de desemprego desceu de 17,7% para 16,4%. De acordo com o INE, a principal causa apontada para este fenómeno inesperado é o aumento do número de empregados no sector agrícola. Só no último ano, a agricultura portuguesa conta com mais 3000 jovens na busca do oásis biológico.

Se numa primeira colheita este regresso às origens, ao sector primário, ao trabalho nos campos, surge como uma lufada de ar fresco na economia nacional que se temia estagnada, não podemos fechar os olhos a outros factores conjunturais e estruturais que, se ignorados, poderão ensombrar o futuro do ressurgimento desta actividade.

Por um lado, o aumento da empregabilidade neste sector deve-se à alteração fiscal aprovada ainda em 2012: até 31 de Outubro de 2013, todos os agricultores são obrigados a declarar a abertura da sua actividade e serão colectados em IVA. Ora, custa a crer que o “boom” de agricultores se deva apenas a novos projectos – haverá certamente entre eles quem já tenha há muito tempo iniciado esta actividade mas só agora, por força da legislação, regularizou a situação perante a administração fiscal.

Por outro lado, haverá que ter em conta que, na sua grande maioria, os novos inscritos criaram o seu próprio emprego. Projectos co-financiados, economias domésticas, mercados especializados e pouca capacidade de exportação a curto prazo são as características mais comuns destas iniciativas.

Outro fator de risco é a impreparação de quem se aventura na agricultura. A limitação geográfica do território nacional e a saturação de alguns mercados no setor agrícola são condicionantes para o sucesso de quem se entrega pela primeira vez a estes caminhos.

Sobre estes fatores já se pronunciou também a AJAP (Associação Nacional de Jovens Agricultores), que chama ainda a atenção para a sazonabilidade adveniente da altura das colheitas tornando, como tal, a empregabilidade temporária.

Nada disto, porém, anuncia que agricultura em Portugal está condenada ou não tem futuro. Antes pelo contrário: temos vontade de investimento e (nacional e internacional), temos várias alternativas de cofinanciamento (governamental e europeias), temos condições geológicas que proporcionam a criação de produtos com qualidade competitiva a nível internacional, temos uma conjuntura favorável, com o surgimento de novos mercados ligados à agricultura biológica e aos produtos naturais.

Não podemos, todavia, deixar a agricultura à toa. Saber aproveitar esta rampa de lançamento é crucial para a criação de alicerces sólidos no sector. Para que tal se concretize, a fiscalização da utilização de recursos é fundamental para o sucesso. Haverá que proceder a análises financeiras, de mercados, geológicas e de potencial de crescimento com regularidade. Para além disso, saber comunicar o desenvolvimento e o surgimento de produtos nacionais, apelar ao seu consumo interno e externo, apoiar os projectos e iniciativas viáveis é absolutamente essencial para que a agricultura se torne, finalmente, num sector português de excelência, há tanto tempo prometido. Caso contrário, estaremos apenas a semear ventos.

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