Cartoline d’Italia (13) (da Costiera Almafitana, da Napoli e da Palermo)

Elisabete Figueiredo

IMG_5625Acanto a te…*

Hoje, se soubesse como, podia escrever uma cartolina cheia de poesia. A vida é bastante, no entanto. Quero dizer, há bastante poesia em toda a parte e isso talvez seja suficiente. É de certeza suficiente. E asseguram-me que assim é, de muitas maneiras, as pessoas, certas pessoas, as canções do Paolo Conte que hoje cantei, com alguém, muito alto, enquanto seguíamos a Costiera Amalfitana, o sol da terra do mezziogiorno, o mar em volta a refletir a cor de um profundo olhar. Sim, é verdade, há poesia bastante em toda a parte e lontano a te no se pò stare**. E, mais que no mar, ali ao fundo, do ‘mare scuro che si muove anche di notte e no sta fermo mai’*** o que deveria acontecer era mergulhar, tuffarmi negli tue ochi**** e ficar, lá no fundo, a enlouquecer devagar.

Alguém de quem gosto muito fez hoje sete horas (andata e ritorno) de viagem só para me mostrar a Costiera Amalfitana. Deve valer a pena, pensei. E nela demorámos, a valer a pena, devagarinho, um pouco mais de tempo. Alguém que conheço há muito tempo e canta comigo e me faz rir e me oferece girassóis, só porque gosta de me ver contente. Alguém que raramente me disse outra coisa além de todas as palavras certas. Mesmo se estiveram, algumas vezes ou muitas, fora do tempo ou dos lugares ou me tenham parecido erradas.
A Costiera Amalfitana, disse-me, deve ver-se quando se está na terra do meio-dia. E veio mostrar-ma, como fazem os amigos que nos querem tanto bem, os amigos que gostam de nos ver contentes. E a Costa Amalfitana é um poema, ou vários. Não vale a pena dizer de novo sobre o mar profundamente azul, sobre as casas que parece-mesmo-que-caem-sobre-ele-mas-afinal-não, sobre a brancura dos barcos e dos caminhos que traçam sobre a água, sobre o sol evidente desta terra, sobre o coração no lugar certo, sobre as lambretas, sobre os filmes italianos dos anos 50, sobre as mil curvas em que a estrada se enrola e desenrola continuamente, sobre as ora doces ora abruptas, ondulações nas montanhas, sobre o horizonte.
Percorremos então a Costiera Almafitanta. Saímos de Nápoles em direção a Salerno, a seguir, foi nossa toda a paisagem com todas as terras dentro e com tudo o que há dentro de todas as terras. Vietri al Mare, Amalfi, Positano, Santa Agata su due Golfi, e mais algumas até Sorrento. As baías, os pequenos golfos, os barcos, ali um com uma bandeira portuguesa, (‘il portoghese è la più bella lingua al mondo, sopratutto parlata da te’*****), as casas a ondular pelas escarpas como o vento a enrolar-se na pele. De Sorrento a Nápoles outra vez e pelo meio a memória de todas as coisas e outras tantas para a memória dos anos que hão-de vir. Seguramente, virão.
O Vesúvio a acompanhar-nos uma parte da viagem, entre Sorrento e Nápoles, adormecido mas vigilante, à espera de qualquer coisa que o faça explodir e eu pergunto como podem viver estas pessoas com esre gigante em fundo, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, pode acontecer. Fatalistico. É. Viver mata, já se sabe e isso pode acontecer em qualquer parte.

No aeroporto de Nápoles um café. Depois despedimo-nos. Há-de ser breve a despedida, mesmo que passem sobre nós todos os dias do mundo. Estou sempre acanto a te, dizem-me, respondo o mesmo, e acontece que isto é tão nitidamente verdade que ficamos calados.

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… Adesso, andiamo.
Quando entro no avião, no momento exato em que a tarde se vai confundindo já com a noite, penso que esta é, de certeza, a melhor hora do dia para subir ao céu. Il tramonto, o pôr-do-sol, visto dali de cima é, será sempre, poesia. A revista do avião traz uma reportagem sobre já não sei que sítio, chamada la vita è un caleidoscopio. Sim. A vida é um caleidoscópio, dobra-se e desdobra-se em mil faces, enrola-se e desenrola-se, ondulante, seguindo vales e montanhas. Baralha-se e desbaralha-se. Simplifica-se para logo se complicar em explosões. Como palavras atiradas ao coração do vento. Mas não vale a pena dizer mais nada sobre hoje e a poesia. Não vale a pena, porque não é possível encontrar as palavras justas. E, já sabemos, ‘bisogna trovare le parole giuste.Le parole sono importante”******. As que são ditas e as que ficam, para sempre, ou até um dia, por dizer.

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* Perto de ti / ao teu lado

** Longe de ti não se pode estar

***«O mar escuro, que se move também de noite e nunca pára» (Paolo Conte, ‘Genova per noi’)

**** mergulhar nos teus olhos

***** o português é a língua mais bonita do mundo, sobretudo falada por ti

****** Nanni Moretti (‘Palombela Rossa’) (‘é preciso encontrar as palavras certas. As palavras são importantes)

Comments


  1. Um roteiro lindo sobre a poesia, sobre as terras do mezziogiorno e sobre o encanto de saber apreciar.
    Obrigado


  2. Obrigada outra vez, Manuel 🙂

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