Lipoaspiração do Estado

pedro-passos-coelho-gorduras-do-estadoHá dias em que o único argumento possível é um chorrilho de palavrões, especialmente quando nos defrontamos com o descaramento dos selvagens que se instalaram no governo e dos necrófagos que se alimentam da carne do lombo das fortunas que pagamos para não termos direito a saúde ou a educação, para não termos direito a viver

Mário Soares chamou-lhes delinquentes, o que é, na realidade, um eufemismo. Faz ele parte da mesma súcia que anda a mastigar-nos há anos? Fará, mas nem isso o impede de ter razão, de vez em quando, como não me impede de não votar num PS com cheiro a Sócrates, ou seja, a Passos Coelho, isto é, a Barroso, no fundo, a Cavaco.

Poiares Maduro veio representar, há pouco tempo, a rábula dos “recursos humanos” a mais. O Paulo Prudêncio notou que o próprio tique de chamar recursos a pessoas é elucidativo (“humanos” serve para disfarçar). No fundo, é o que os delinquentes que assaltaram o governo fazem – sem se preocuparem com uma verdadeira análise, ansiosos por ajudar privados, tornando os vínculos laborais simplesmente laborais e nada vinculativos, só têm na cabeça duas ideias: despedir ou baixar salários.

Vem a caminho mais um corte salarial na função pública, esse grupo de recursos a mais. O corte será progressivo e, desta vez, atingirá aqueles que recebem mais de 600 euros ilíquidos por mês. Não sei se leram bem: ilíquidos.

É claro que aparecerá algum angelocorreia que, arrotando a subvenção vitalícia, explicará que estes funcionários tinham ficado de fora nos cortes anteriores e que, portanto, agora, face à situação, e porque a troika isto, e é inevitável aquilo, como se, na realidade, esses mesmos trabalhadores já não tivessem sentido dificuldades, face ao aumento de outros impostos e taxas e produtos cujo efeito aparentemente indirecto já foi o de os levar a ganhar menos, que é o que acontece quando se ganha o mesmo e os bens de consumo aumentam.

Os restantes funcionários públicos já tinham sido assaltados anteriormente. Estou a referir-me aos que ganhavam mais de 1500 euros. Assim, contas feitas, um funcionário público que ganhe mais de 2000 euros poderá sofrer, no próximo ano, um corte de 12%. O mesmo angelocorreia, mamando um puro, dirá que se trata de um rendimento apreciável, preferindo ignorar que qualquer pessoa planeia a sua vida tendo em conta os rendimentos a que tem direito (porque é, pelo menos moralmente, um direito ser pago pelo trabalho que realiza).

Alguns, aparentemente mais melífluos, dirão que é assim, que o Estado não tem dinheiro, que o Estado Social é chão que já deu uvas, fingindo, despudoradamente, que não sabem que o dinheiro está mal distribuído e mal aplicado e que continua a ser mal gasto.

Muito a propósito, ficou a saber-se que bastaria lançar um imposto sobre as PPP para evitar o corte nas pensões de sobrevivência e “que o Estado teria poupado 30 milhões de euros se os doentes encaminhados para o Hospital da Cruz Vermelha, entre 2009 e 2011, tivessem sido tratados no Serviço Nacional de Saúde (SNS).” Basta pensar um bocadinho para termos a certeza de que ler estas duas notícias é ver a ponta do iceberg: a “externalização” (adoro!) dos serviços e outras engenharias financeiras só servem para esconder o aumento do défice, entre outros crimes.

Os delinquentes beneditinos e os angeloscorreias adjacentes dedicam-se, entretanto a perorar sobre a necessidade reformar o Estado, o que obrigaria a verdadeiros estudos sobre as reais necessidades da administração pública, mas a palavra “estudos” sempre fez muita confusão a gentinha como Passos Coelho. Em vez disso, fingem que fazem contas e chamam gordura a órgãos vitais do país, ou seja, aos funcionários públicos.  A gordura do Estado é constituída, efectivamente, pelas adiposidades do centrão e pelas banhas dos empresários amigos.

Imagem de Dissidente-X

Comments

  1. sinaizdefumo says:

    Muito bem.

Trackbacks

  1. […] Continuar a cortar salários e aposentações é um erro. Como é uma estupidez continuar a encher salas de aula ou a cortar apoios aos meninos especiais. […]

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