Um caso de socrateslalia, ou síndrome de Sócrates-Tourette, e seus sintomas

Catão, o Velho tinha o hábito de terminar todos os seus discursos com a frase Delenda est Carthago. É um exemplo clássico de uma obsessão, aplicada à oratória latina. Fez escola.

Entre nós temos hoje uma derivação: a culpa foi do Sócrates, tem sido uma das armas da propaganda governamental, e compreende-se: dá um certo jeito mandar para cima do homem a responsabilidade de uma crise do capitalismo, não vá precisamente a malta pensar que é o capitalismo que está em crise. Lehman Brothers, bolhas imobiliárias, produtos financeiros tóxicos, nunca existiram, ou se existiram foi lá longe, e como toda a gente sabe esta crise é nacional, foi o Sócrates.

Um dos problemas da propaganda é que em mentes mais fracas pode virar doença, e compulsiva. O síndrome de Tourette anda por aí, e para lá da clássica coprolalia observam-se agora casos de socrateslalia.

Conheço um caso, e é complicado. De manhãzinha levanta-se o caso, abre os estores, e começa o dia: “está a chover, a culpa é do Sócrates“. O último terramoto no Paquistão? foi o Sócrates – garante o caso -, mas vejam lá, não baptizem a ilha que por lá apareceu com o nome dele. Por vezes adormece no anacronismo e responsabiliza o ex-primeiro ministro pelo início de crise dos anos 30, as sete pragas do Egipto e o dilúvio universal. Benfiquista, nunca culpa Jesus ou o árbitro e reforçou agora a sua admiração por Roberto, um dos melhores guarda-redes do mundo, garante: quem trama o Benfica é o socretão do Sócrates.

O síndrome de Tourette é responsável por dezenas de sketches humorísticos, têm aí uma selecção encontrada no youtube, e como devem calcular isto complica a vida social do caso. Imaginem-no a devolver uma nata num café: “O sr. desculpe mas este pastel sabe a Sócrates” lançando pânico entre os empregados; ouçam-no a vociferar com os vizinhos barulhentos garantindo tratarem-se de filhos de um sócrates, e reparem como ao martelar um dedo solta um “Aí socratôda-se…“, um  bocado comprido para horas de aflição, temos de convir.

Ora o caso é este: dar a um mau primeiro-ministro a importância que não teve é dar-lhe prestígio; em política ninguém alcança e mantêm a fama sem ter inimigos, de preferência repetindo imbecilidades. Da fama que não merece, a de responsável pela crise, tratará a História.

Comments


  1. O caro João dá demasiada importância à prosápia socrateslalia do inergúmeno Joshua Joaquim. Cá para mim, se o Salazar fosse vivo e seu amigo, lá teríamos outro excelentíssimo dinossauro a escarrar prosa fascizante neste blogue. E o caro João a dar-lhe trela… Que paciência.


  2. O Sócrates tomou agora o lugar da Merkel?


  3. E no final Cartago foi mesmo destruída. Esperemos que a história se repita e o engenheiro dos domingos e seus amiguinhos, no mínimo, nunca mais voltem a tocar em dinheiro público.

    E se há muitos Tourettes por aí, também há muitas avestruzes a enterrar a cabeça na areia. Deixo um exemplo, com dados do PORDATA:
    – dívida pública em percentagem do PIB em 2005: 62,5%;
    – dívida pública em percentagem do PIB em 2011 (projecção): 108,2%.

    Maldito Madoff.


    • Trate-se, a medicina moderna consegue resolver mesmo os doentes mais discretos, como é o caso:

      Dívida pública actual: 131,3%

      E nem me dou ao trabalho de lhe explicar que entre 2005 a 2011 a contabilidade da despesa foi alterada, entrando nas contas por exemplo as empresas públicas de transportes, ou de recordar os malabarismos de, por exemplo, Manuela Ferreira Leite nas finanças. Quem vive obcecado com a mentira nem com um desenho lá chega.


      • Ah! Então a culpa é das regras de contabilidade. Antes podia-se varrer o lixo para debaixo do tapete e depois já não se pôde. Malditos TOC’s.

        Em relação à MFL, se for ver os valores da dívida pública em percentagem do PIB nos anos em que ela foi ministra verá os seguintes valores: 53,7 para 2002, 55,7 para 2003 e 57,5 para 2004. Foi um aumento de nem 4 pontos percentuais contra os 40 pontos percentuais de aumento do filósofo da Cova da Beira. A propósito, tem consciência de que as PPP’s do “inginheiro” previam custos para o Estado para os próximos 30 anos, não tem? E que os 40 pontos extra de dívida pública traziam agarrados como bónus juros para pagar nos anos seguintes? E que tudo isto, juntamente com a baixa do PIB (agravada por uma política errada que incide sobre a receita pública em vez de incidir sobre a despesa) faz aumentar o rácio dívida/PIB? Voltando a Manela, já não tenho bem presente as medidas que ela tomou, mas decerto que não dava subsídios atrás de subsídios nem aumentos atrás de aumentos a bem do “estado social” e cuja factura era deixada para os que viessem a seguir.

        Não entendo também como sendo você de esquerda não se une às críticas (mais do que justas) ao Sócrates. Não devia estar a apostar em aumentar o número de deputados do PC/BE à custa de PS e PSD em vez de se contentar com os restos que os socialistas deixam àqueles dois partidos?


        • “Ah! Então a culpa é das regras de contabilidade.”
          Sim, do apertar das regras europeias para acabar com as engenharias orçamentais, uma tradição nacional, pergunte ao Cavaco. Isto é História, tal como o exemplo dos transportes. Tradição tão velha como a das PPP’s ou o automatismo de ir salvar o banco do PSD para salvar o regime. Um mau primeiro-ministro, fazendo o mesmo que os outros, e que levava o país na sua trajectória normal, não particularmente brilhante, quando lhe aterrou uma crise do capitalismo financeiro em cima. Uma daquelas que ocorrem de 80 em 80 anos.
          Mas é preferível fingir que isso não aconteceu, como se o capitalismo mundial tivesse crises, que ideia, o capitalismo respira saúde, é tudo um problema nacional, a culpa foi do Sócrates, enfim, propaganda.


          • No tempo do Cavaco a dívida estava estável, bem como no tempo do Guterres e no tempo do Durão/Santana. A dívida disparou precisamente no governo Sócrates. É indesmentível que a crise mundial surgiu a meio do seu primeiro mandato (nem eu culpo o Sócrates pela crise internacional), mas qual foi a reacção? Despejar dinheiro para cima do problema e esperar pelo melhor, que nunca apareceu. O BPN foi um desses casos. O banco era do PSD, mas foi o PS quem o salvou, numa medida que de capitalista não tem nada. A atitude capitalista/liberal seria deixar o banco ir ao charco e deixar a economia real aguentar com as ondas de choque (depósitos que se perdiam, dívidas que ficavam por cobrar, investimentos que iam ao fundo). Foi uma medida socialista (de clara intervenção estatal na economia) que custou aos portugueses 5/6 mil milhões de euros e que se não tivesse sido tomada traria provavelmente consequências de menor (recorde-se que até 100 mil euros os depósitos estão garantidos em caso de falência). A nossa situação actual é resultado de tudo isto. Sofremos com a crise internacional, mas sofremos muito com o socretismo. Passamos por uma crise financeira do Estado, uma crise de dívida que nos colocou numa situação de quase incumprimento, que só foi evitado graças a uma intervenção financeira externa. Este governo, ou qualquer que se seguisse a Sócrates, ficou com a tarefa de limpar os cacos.

            Quanto à malvadez do capitalismo, se há período na História de maior crescimento/desenvolvimento a todos os níveis, esse período corresponde aos últimos 200-250 anos. A revolução industrial, que trouxe consigo os aumentos de produtividade e os desenvolvimentos tecnológicos (consubstanciados depois na segunda e terceira revoluções industriais) e o aumento da riqueza foi um fenómeno eminentemente capitalista, surgindo da ambição e ganância das pessoas. Foi um fenómeno corrigido e bem pelos movimentos operário, sindical, socialista/marxista que contribuíram para uma maior conciliação entre a ganância e a dignidade humana. Em todo o caso, o motor de desenvolvimento económico do Ocidente continuou a ser o capitalismo. Teve crises, é certo, que contudo não o mataram, como aconteceu por exemplo com a revolução socialista soviética, que morreu e foi enterrada em finais dos anos 1980. O problema tem sido precisamente uma tenacidade em não aprender com a História e cometer novamente os mesmos erros do passado. O problema está aí, não está no capitalismo.

            Kudos por uma bela discussão com troca de argumentos em vez de troca de insultos.


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