Pigmeus políticos

O sibilino José Eduardo Martins não encontrou melhor forma de se luzir na campanha de Teresa Leal Coelho que recitar-lhe, em altos brados, um poema de Sophia de Mello Breyner. Eu sei que ninguém é proprietário exclusivo de poetas. Mas há qualquer coisa de sórdido nesta cena. De batota. E, curiosamente, dirigir a Teresa Coelho versos como “Porque os outros vão à sombra dos abrigos/ E tu vais de mãos dadas com os perigos/ Porque os outros calculam mas tu não”, é uma rematada mentira. Não da poetisa, claro, mas do declamador, que sabe que a sua dama não merece nem corresponde a um único destes versos.

Isto é poesia de gente grande, para gente grande. Não para pigmeus políticos e oportunistas.

“E sempre os inimigos sobejaram

A quem ousou seu ser inteiramente

Saudade

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© Sofia Martins, Praia da Granja, Dezembro de 2006

Sempre que um colega estrangeiro me pergunta o que é a saudade, recordo-me de Sophia e do rapaz da Menina do Mar:

A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.

Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

– É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
– Isso é por causa da saudade – disse o rapaz.
– Mas o que é a saudade? – perguntou a Menina do Mar.
A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.

Lembrei-me da saudade, ao ler, no Público de hoje, a crónica de Esteves Cardoso acerca da tradução inglesa (2014) do Vocabulaire Européen des Philosophies, Dictionnaire des intraduisibles (2004), organizado por Barbara Cassin.

A parca presença da língua portuguesa no Vocabulaire, com quatro verbetes, da responsabilidade de Fernando Santoro, foi objecto de umas “breves e despretensiosas nótulas” de Marisa das Neves Henriques (2010) e o próprio Vocabulaire mereceu uns interessantes parágrafos de Mario Perniola (2006: 115-8). [Read more…]

Duvidas

Há quem duvide que Sophia de Mello Breyner mereça o Panteão. Eu duvido que o Panteão mereça Sophia.

Camões e a tença

Sophia de Mello Breyner Andresen

http://bit.ly/11QOJzg

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente
—Sophia, “Camões e a tença”, Dual (1972), p. 73.

Salgueiro Maia e os outros

SALGUEIRO MAIA
Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

Sophia de Mello Breyner Andresen

São todos, mas todos, tão pequeninos à beira dele.

Sophia

Sophia

Sophia, sempre Sophia. Sempre. Há um ano, aqui no Aventar, também o Ricardo Santos Pinto nos trouxe este Poema. Como já tive a oportunidade de escrever, «Em português europeu, Abril não é abril. Em português europeu, Abril é Abril. Sempre».


Caminho com Sophia

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Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. [Read more…]

25 Poemas de Abril (XXIII)


Esta é a madrugada que eu esperava
0 dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner

Miguel Sousa Tavares e a luz de Sophia: o lado bom da Força

Doação do espólio de Sophia de Mello Breyner à Biblioteca Nacional

Miguel Sousa Tavares faz-me lembrar Luke Skywalker, pois também dentro dele convivem o lado bom e o lado negro da Força. Tendo como ponto comum a frontalidade, há um Miguel Sousa Tavares inteligente e sensível, o mesmo que dirigiu a Grande Reportagem, por exemplo, e um outro que escreve e fala com a clava de um troglodita, quando defende o seu clube (é uma espécie de Leonor Pinhão de calças, pronto), quando ataca os professores ou quando argumenta com o volume de vendas dos seus livros como prova da qualidade dos mesmos. Hoje, tive o grato prazer de reencontrar o melhor Sousa Tavares: na companhia das irmãs, fez a doação do espólio da mãe, Sophia de Mello Breyner, à Biblioteca Nacional. Trata-se de um gesto absolutamente grandioso, de uma generosidade tão absoluta que só pode ser apanágio de pessoas que estão acima do portuguesinho egoísta, para quem a posse é um direito e a partilha é impensável. Vale a pena ler esta reportagem e apreciar as palavras de Miguel Sousa Tavares, com direito a brinde: uma história engraçadíssima que inclui Azeredo Perdigão, Sophia e dois patos.

Fui roubado

Prometeram-me uma terra da fraternidade e um dia inicial inteiro e limpo porque a poesia estava na rua e podia livre habitar a substância do tempo.

Fui roubado, quero apresentar queixa. Alguém sabe qual é o modelo do formulário?