O pior pesadelo da direita portuguesa

Autoria: Luís Vargas@Geringonça

Será Miguel Esteves Cardoso um emissário de Belzebu, disfarçado de monárquico convicto? Ele sempre foi adepto

MEC e David Bowie. Um génio a escrever sobre outro génio

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/pela-primeira-vez-nas-nossas-vidas-sabemos-o-que-david-bowie-vai-fazer-1719876

Saudade

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© Sofia Martins, Praia da Granja, Dezembro de 2006

Sempre que um colega estrangeiro me pergunta o que é a saudade, recordo-me de Sophia e do rapaz da Menina do Mar:

A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.

Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

– É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
– Isso é por causa da saudade – disse o rapaz.
– Mas o que é a saudade? – perguntou a Menina do Mar.
A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.

Lembrei-me da saudade, ao ler, no Público de hoje, a crónica de Esteves Cardoso acerca da tradução inglesa (2014) do Vocabulaire Européen des Philosophies, Dictionnaire des intraduisibles (2004), organizado por Barbara Cassin.

A parca presença da língua portuguesa no Vocabulaire, com quatro verbetes, da responsabilidade de Fernando Santoro, foi objecto de umas “breves e despretensiosas nótulas” de Marisa das Neves Henriques (2010) e o próprio Vocabulaire mereceu uns interessantes parágrafos de Mario Perniola (2006: 115-8). [Read more…]

A prosa de Paulo Portas embotada pelo Expresso

Estava o meu fim-de-semana (com hífenes, claro) a decorrer tranquilamente, quando alguém teve a excepcional ideia de me dar a ler um texto publicado hoje, na Revista do Expresso, em que Filipe Santos Costa nos indica que Paulo Portas terá escrito,

em Agosto de 1988, sobre Miguel Cadilhe,

Quem promete números tem de os cumprir. Quem fala algarismos tem de ser exato. Quem faz a política do rigor não pode desconversar.

em 1992, sobre o Tratado de Maastricht,

(…) é a própria conceção de uma Europa de negociação e respeito que está em causa dando lugar à chantagem dos mais fortes sobre os mais fracos (…)

em 1993, sobre Braga de Macedo,

Não há um número certo não há uma conta exata não há uma previsão verificada.

e, no último texto como director d’O Independente, em 1995,

O objetivo do défice obriga a renúncias sociais que o eleitor nem sonha ou então a uma vaga de despedimentos na administração pública.

Terei começado a ler episodicamente O Independente poucos meses depois das linhas sobre Cadilhe [Read more…]

Não há tradução para português e não se fala mais nisso

De vez em quando, tão certo como dois e dois serem quatro, aparecem as objecções à TRR, emerge a enigmática figura da letra C em aflição e em aflito, projecta-se o espectro da corrente mais extremada do “anti-AO” (*) e intervêm os adeptos do “não há tradução” e do “não há palavra em português”. Dizer-se “não há palavra para X em português” ou “Y é intraduzível” é, amiúde, uma forma requintada de impressionar os indígenas e de disfarçar uma momentânea preguiça ou uma quebra de ânimo, preferindo-se o impressionante requinte ao taxativo “não sei” ou aos matizados “não me lembro” e “não me ocorre”.

Confesso que não estava à espera de ler Miguel Esteves Cardoso a achar que não há tradução para termo tão prosaico como fairness (felizmente, apesar de utilizar o termo propinas em inglês, Esteves Cardoso não o remeteu para o catálogo da intraduzibilidade). Por exemplo, há uns anos, depois de quatro shallows, Vasco Pulido Valente lá acabou por se lembrar de superficial. Esqueceu-se foi o jornalista de lhe recordar que, afinal, sempre havia tradução. Contudo, para nosso descanso, no título da entrevista, adoptou-se a versão portuguesa.

(*) Em meu entender, José Mário Costa atribui uma imerecida relevância a inócuo artigo que escrevi no Público, em Junho de 2011 (acrescento que, na versão em linha, há dois parágrafos, nos quais discorro acerca da introdução de 1949 do Was ist Metaphysik?, de Heidegger, escrito vinte anos antes). Aliás, certamente por lapso ou distracção (o depoimento tem vinte e seis notas), José Mário Costa esqueceu-se de indicar o artigo. Felizmente, o artigo, aludido, mas não referido, decerto por lapso ou distracção de José Mário Costa, pode ser encontrado através do Google. Basta procurar “greve na CP para comboios em todo o país” e aparecem quer a notícia, quer o artigo, quer a alusão sem referência de José Mário Costa.

Actualização (08/10/2013): Hiperligação em “não sei”.

babel bruegel viena

http://www.wga.hu/frames-e.html?/html/b/bruegel/pieter_e/06/01babel.html

O Luto e o Alívio

Mais uma boa crónica de Miguel Esteves Cardoso! Só ele para se lembrar de escrever sobre «coisas» como o alívio.

O alívio é um prazer. Concordo. E é pouco elogiado. Concordo também!

Alívio parece nome de gente! – digo eu.

MEC escreveu ontem: “O alívio é o livramento do medo que acabou por não acontecer, do encargo da ansiedade, da angústia do trabalho depois de feito. (…) O alívio é a liberdade. É o tal grande peso que, num instante mas duradouramente, se alevanta do nosso peito e nos deixa respirar oxigénio puro como se fosse pela primeira (…)”.

Fui ao dicionário ver «alívio» e «aliviar». De «alívio», temos acto ou efeito de aliviar, diminuição de peso, de cor, etc.; descarga. De «aliviar», temos, para além do conhecido «aliviar a tripa», «dar à luz» e «aliviar o luto», que eu não conhecia, e que significa, esta última expressão, começar a usar um vestuário que não é totalmente de luto. [Read more…]

O nosso maior medo

«Betinho», não me parece, pelo menos nesta fase. MEC não era o meu género. Mas, ultimamente,  tenho apreciado os textos de Miguel Esteves Cardoso, sentimentais, amorosos, falando de outras realidades, no meio, no fim ou no princípio daquela que faz os jornais. Hoje, no Público, em «O meu maior medo», revela o medo de perder Maria João, no momento em que celebram 12 anos de casamento. É uma carta de amor.

O amor em todo o coração e em toda a parte se procura. Já anima a possibilidade de ser encontrado e a incerteza de não passar o resto da vida sem poder amar e sem poder ser amado. O que custa é acreditar naquilo que se tem, quando todos os dias, ao longo de longos anos, se consegue encontrar esse amor que se procura, na pessoa que se ama e no lugar e no tempo — aqui, agora, daqui a bocadinho — em que mais gostamos de encontrá-lo. [Read more…]

A felicidade também faz um jornal

Hoje, Miguel Esteves Cardoso (Público) sacia-nos com estas palavras, poesia perdida (?), poesia que não é um engano nos dias que correm, poesia que é a nossa maior necessidade. As suas palavras – intencionalmente encaixadas entre notícias de austeridade, troika, dívidas, TSU, pobreza, desaparecimento da classe média, etc.- que, com amor se casam uma às outras, como MEC e Maria João, falam do que verdadeiramente interessa na vida, ofuscado pela miséria que nos aparece mais visível:

O futuro contém a nossa morte e, depois dela, o infinito de nadas, chato como o ferro do cosmos, que antecedeu os nossos nascimentos.

A felicidade, se calhar, é desejar que as coisas não piorem muito, de dia para dia, para não se notarem tanto.

O presenteaquilo que ainda se tem, a começar por estar vivo e lembrarmo-nos de termos estado pior — é a felicidade maior, somada às memórias de felicidades que continuam vivas e que nos fazem sorrir, pertencer e desejar bem aos outros que ainda não as tiveram. Se não nos lembrarmos de termos estado pior ou não tivermos a esperança de ficarmos melhor, já não conta como felicidade; já não conta como presente. Não é só dizer “eu ainda consigo”: é preciso também haver a consciência de ter prazer, não em conseguir, mas nas coisas que se fazem.

Todos sabemos o que nos espera. Interessa apenas decidir não tanto o que fazer enquanto esperamos como descobrir as formas que ainda nos restam de nos distrairmos. A distracção é a forma mais exaltante da vida. Quem se pode distrair — amando, lendo, pintando, trabalhando, coleccionando, politicando — não pode ser inteiramente triste, não por não estar apenas simplesmente não-morto e vivo, mas por ter encontrado a maneira de fazer pouco do presente, em atenção ao passado ou ao futuro lembrado ou desejado, como momento e movimento em direcção a eles.

Restam as consolações.

Quando é ser momento ou movimento a única coisa, para se ser feliz, que se quer.

Parar de amar

 Miguel Esteves Cardoso é, às vezes, irresistível. Como hoje!

O título do seu texto no Público: «Ser amado». O homem «põe-se» a dizer aquelas coisas sobre o seu amor a Maria João e vice-versa e eu não lhe resisto. Transcrevo a passagem que considero mais interessante:

Às vezes, é preciso conseguirmos o que não se consegue: parar de amar por um momento, para se ser amado por quem se ama. Seria bom podermos parar para nos sentirmos amados sem ser de volta, na confusão de duas pessoas a amarem-se.

Parar de amar não se consegue!

Fazer um «stop», uma «pausa» em amar.

Amar é movimento? É uma canção? Amar o que é para se poder parar «por um momento»?

Desliga. Liga.

Carrega no botão: põe o amor em andamento!

Não, não sou Doutor

Muito se tem escrito sobre a licenciatura de Relvas feita em apenas um ano.

Miguel Esteves Cardoso escreveu muito bem sobre o caso: “Mas o não-dr. Relvas não tirou curso nenhum. Por muito mau que seja o curso de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Lusófona (UL) se o não dr. Relvas o tivesse tirado, não só seria dr. Relvas, como seria, com certeza, menos ignorante.”

Miguel Relvas é um não-doutor que chegou a ministro.

Ao mesmo tempo, há «doutores» –  efectivamente, comprovadamente e merecidamente doutores -, que têm que esconder que são licenciados, ou mestres ou doutores para conseguirem um emprego.

Há jovens licenciados que “criam várias versões do seu CV de forma a garantir que os chamem mais depressa para entrevistas de trabalho“. “Reduzem as habilitações ao 12.º ano como estratégia, tornando o currículo simples e atraente”. ??

Há portugueses que negam a sua formação, que quase têm vergonha do seu esforço e da sua formação académica de alto nível. Anos das suas vidas que têm necessidade de negar com medo!!!!Portugueses que recebem um salário muito aquém daquilo para que se prepararam.

Há portugueses que se sentem prejudicados por excesso de habilitações. O que é isto? E ainda se lhes pede: voltem à escola (Mariano Gago)!!

Isto é uma vergonha! Uma vergonha nacional!

A Educação em Portugal: «só para inglês ver».

Um retrato do nosso país.

P.S.: E há portugueses que não são «doutores» por falta de oportunidade para estudar e a quem respeitamos! Uma palavra para eles, como o meu pai: não têm mais que a 4ª classe mas são «doutores» pelo respeito que me merecem, pelo exemplo que dão nas suas vidas de gente íntegra. O meu pai, com mais de 60 anos, acabou agora o 9º ano (Novas Oportunidades). Parabéns a todos os que, com esta idade, procuram actualizar as suas habilitações académicas, desinteressadamente…

Chorar de felicidade

A amada de Miguel Esteves Cardoso não tem mais metástases no corpo! Uma boa notícia.

“Desta vez estava a chorar de felicidade. Como chora cada vez que ouve ou lê palavras doces, a dar força, a partilhar a dor, a juntar-se para que ela saiba que há muita gente a sofrer com ela, tal é a vontade delas que ela não sofra. Ou sofra pouco.” («Desmorrer», Público, 30-5-2012)

Que doce e fácil é o choro da felicidade.

Chorar de felicidade – que misteriosa contradição humana (que as crianças não compreendem)!

 

Eu desejo um dia normal

Há muito, muito tempo, que queria escrever, nem que fosse uma linha, sobre a normalidade no nosso quotidiano. É muito bom chegar ao fim do dia e dizer «tive um dia normal, sem sobressaltos. Os nossos filhos estão bem, os nossos pais e irmãos atenderam-nos o telefone.»

Muito bem escreveu Miguel Esteves Cardoso a propósito da chegada da sua amada a casa, depois da já conhecida cirurgia:

 Não há no mundo maior delícia do que a normalidade.

Um dia normal, é um dia sagrado!

Pastel de Nata

A cura pelo pastel de nata ou «natoterapia», como escreveu hoje Miguel Esteves Cardoso, em mais uma crónica totalmente dedicada à sua amada Maria João, que recupera da cirurgia (a um tumor do cérebro há cerca de quinze dias).

Diz-nos como Maria João se delicia com um simples pastel de nata e que o come como uma autêntica princesa.

É um texto muito bonito, romântico. E depois? Quem não gosta de pastel de nata e de uma declaração de amor? [Read more…]

Correu bem

 

“A remoção do tumor correu bem. Vivam os outros, que nos salvam de nós próprios”, escreveu Miguel Esteves Cardoso, hoje no Público, a propósito da onda de solidariedade que se criou à volta de Maria João. Uns rezaram, outros escreveram-lhe mensagens bonitas (também uma forma de orar!). Fomos muitos. Estivemos com eles e valeu a pena! [Read more…]

Nas mãos de Deus

Pensei que hoje não fosse sair a sua crónica por razões óbvias. Mas Miguel Esteves Cardoso escreveu sim, depois de um dia de cão, talvez o mais longo das suas vidas: o dia em que Maria João foi operada a um tumor que tinha alojado no cérebro.

Ontem, MEC colocava a sua Maria João nas mãos dos médicos e cirurgiões. Entregava-lhes inteiramente a sua mulher, confiando cegamente, «que remédio».

Mas hoje, MEC confia-a a Deus, escrevendo-lhe uma carta: ” Ajuda a Maria João, se puderes. Faz o que só um Deus pode fazer”. [Read more…]

Hoje

Miguel Esteves Cardoso é desconcertante, sobretudo quando escreve sobre a sua mulher. Hoje, 2 de Maio, li a sua crónica «É Hoje» e já não me apeteceu ler mais nada: vão tirar o maldito tumor que Maria João tem no cérebro “sob o olhar de João Lobo Antunes. É a minha Maria João inteira que eles têm de ter na cabeça, nos olhos e nos dedos das mãos. É graças a médicos e cirurgiões que ela está viva. Será graças a eles que ela não morrerá”. [Read more…]