Nas mãos dos abutres

Desde a década de 1960, existem em Espanha as “Viviendas de Protección Oficial” (VPO), casas cuja renda tem um valor limitado, estabelecido por lei, e a que apenas têm acesso cidadãos que reúnem certos requisitos. O objectivo é garantir que pessoas com rendimentos baixos tenham acesso à compra ou arrendamento de habitações dignas a preços acessíveis. A gestão destas VPO depende de cada uma das comunidades autónomas.

Em Julho de 2013, a Comunidade Autónoma de Madrid, vendeu 1.860 (um terço) das VPO que possuía em regime de arrendamento à norte-americana Magic Real Estate-Blackstone Group International Partners, por 125.5 milhões de euros. A Blackstone é aquilo a que se chama “fundo abutre”, fundos de capital de risco que investem em dívida pública de estados ou empresas em risco de falência. Compram títulos de dívida por valores abaixo do seu valor nominal num mercado secundário para depois pressionar as entidades devedoras a pagar o valor restante.

A Comunidade de Madrid informou os arrendatários das VPOs que o seu senhorio passaria a ser a Fidere Comunidade, a marca registada em Espanha do fundo de investimento Blackstone. Com a taxa de desemprego mais alta da UE, e um número de despejos diários que em 2013 já superava as cinco centenas, depressa começou a a haver quem, de entre os novos inquilinos da Blackstone, não pudesse continuar a pagar a renda. E se nos serviços sociais da Comunidade de Madrid poderia haver funcionários sensíveis às dificuldades que estas pessoas atravessam, e propostas de regularização faseada das rendas em atraso, a um fundo abutre não se pode pedir semelhante coisa.

O video que se segue conta a história do despejo de um homem, inquilino de uma dessas casas nas mãos da Blackstone. Chama-se Andrés, tem 53 anos, é viúvo, vive com um filho de 22 anos, desempregado. Andrés também está desempregado, tem um cancro, vive com um subsídio mensal de 426 euros e paga uma renda de 586 euros. Recebeu ordem de despejo. Nos últimos meses, vizinhos e activistas uniram-se para travar o despejo de Andrés e conseguiram evitá-lo por três vezes. Finalmente, à porta de Andrés pararam sete carrinhas de polícias anti-motim e várias patrulhas da polícia. Chegaram às 7h18, quinze minutos antes dos activistas da “Plataforma de Afectados por la Vivenda Pública y Social” e da Assembleia Popular de Villaverde, e bloquearam o acesso ao edifício.

Este video, da equipa do “Periodismo Humano”, mostra como foi. E são imagens muito perturbadoras porque nos fazem sentir que a lei deixou de ser justa e que as forças que deveriam proteger os mais débeis se transformaram nos seus carrascos.

Foto: Alejandro Martinez

Comments


  1. Penso que foi Corneille a escrever, há uns séculos, que “as leis conservam autoridade, não porque sejam justas mas porque são leis”.
    Mas custa quando as leis injustas podem requisitar a autoridade para se imporem.
    Que desequilíbrio!


    • É com base nesse principio que o governo quer tornar as indemnizações de despedimento sem justa causa iguais aqueles em que a causa existe. Mas, eles não conhecem o Corneille.

  2. doorstep says:

    Verdadissíma – Corneille não conhecem.

    Mas são todos especialistas em futebol, como o Mindinho, que é o que continua a dar…

Trackbacks


  1. […] de se tratarem de casas com rendas sociais ou as circunstâncias dos habitantes. (ver video aqui http://aventar.eu/2014/04/30/nas-maos-dos-abutres/) O grupo Blackstone tem sido o alvo de muitos protestos nos últimos meses em consequência da […]


  2. […] à especulação financeira, parecia, desde logo, de uma flagrante insensibilidade (veja-se este caso, de 2014, de um homem desempregado e doente com cancro, a quem os novos senhorios não aceitaram […]

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