A menina do papá e o filho da mãe

José Xavier Ezequiel

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A rapaziada de esquerda entrou em pânico com os resultados eleitorais das Europeias no Reino (dito) Unido e ‘na’ França.

O que sucedeu no ‘reyno de sua majestade’ não interessa para nada. No que diz respeito à questão Europeia, quero eu dizer. Qual lady Godiva, sempre esteve com um pé no estribo e o outro arreado. Só o facto de não ter aderido ao Euro, diz tudo. No fundo, nada de novo. Já Churchill afirmava — “Nós estamos com eles, mas não somos como eles”.

No entanto, o que se passa em França conta. E muito. Já que mais não seja porque, juntamente com a Alemanha, foi um dos dois grandes países fundadores da hoje União Europeia. Se ainda se lembram, durante décadas falava-se do eixo Paris-Bona. Agora, infelizmente, resta o eixo Berlim-Berlim.

Voltando ao princípio, não vejo na vitória do Front National um particular motivo de preocupação. Ou, pelo menos, uma grande novidade. Há mais de uma década que o FN tem sido o garante da V República. Cada vez que cresce um bocadinho, mete algum bom senso na cabeça dos franceses que, quando é a doer, acabam por relegar o FN para o seu lugar. Ou seja, a rua.

Por outro lado, o FN não saiu agora debaixo de uma pedra. Foi crescendo, paulatinamente, muito à custa da velha classe operária que antes votava PCF. Seja como for, toda a gente sabe o que é o FN. Lá porque a antigamente muito apetitosa Marine le Pen adocicou o discurso do papá, no essencial nada mudou. Nacionalismo, xenofobia, chauvinismo proprio sensu. A que agora a moça juntou um (até para mim) atraente discurso anti-germânico.

Ora, o que se passou em Portugal com Marinho Pinto (desde domingo pomposamente promovido a Marinho e Pinto) é substancialmente diferente. A criatura é, desde há vários anos, presença assídua nas televisões público-privadas. Tirando a vacuidade da justiça para todos (sobretudo vinda precisamente de um advogado), sei que tem um ódio de estimação pela actual ministra da justiça, que entende que a violência doméstica devia ser descriminalizada, que é basicamente homofóbico e que gosta de remixar o poeta Ary dos Santos (facto particularmente curioso, se tivermos em conta a opção sexual do poeta em causa). Tomou agora de assalto um partido fundado por um monárquico ecologista. Fez-se eleger, juntamente com outro bacano, que nem queria acreditar que lhe tinha saído o euromilhões, deputedo à prostituinte europeia (como diriam os anarquista durante o PREC). E anuncia já, qual rafeiro que se afeiçoou ao osso, a sua candidatura à presidência da República.

Se há semelhanças a tirar com as experiências fascistas dos anos 30 do século passado, devem ser assacadas a uma criatura como Marinho & Pinto. Também Adolfo Hitler tomou como seu o pequeno partido nacional-socialista e, depois, sabe-se como acabou.

Confundir a mesa de café com a mesa de voto, sempre foi, ao longo da História, o caminho das pedras de todos os demagogos. Estranho, por isso, que a esquerda portuguesa continue obcecada com o que se passa em França.

Comments

  1. Miguel says:

    Você perdeu tudo ao comparar o homem com Adolf Hitler.

  2. André says:

    “Se há semelhanças a tirar com as experiências fascistas dos anos 30 do século passado, devem ser assacadas a uma criatura como Marinho & Pinto.” Ai sim?? Como?
    Fala em demagogia e sai-se com uma tirada destas?!?!

    Marinho Pinto é conservador nos costumes, truculento e por vezes desagradável. Marinho Pinto é um homem que acredita nos direitos fundamentais do homem, é republicano e de esquerda. Não tem nada, absolutamente nada a ver com os movimentos fascistas da década de 30.

  3. Orlando Sousa says:

    Marinho Pinto é a pessoa para quem o Freeport nunca aconteceu, foi uma cabala contra José Sócrates.Isto diz tudo.

  4. Ferpin says:

    No que toca ao freeport o marinho pinto defendeu, não a inocência do socras, que isso ele não sabe nem pode saber, mas sim que as acusações ao socras pela TVI sem qualquer prova eram uma pulhice. E nisso eu concordo.
    Não pertenço ao grupo dos que acham que ver o smith em vídeo gravado pelos gajos que lhe deram o pilim para subornar no freeport a dizer “sim, dei o dinheirinho ao socras e não sei porque carga de água ele chumbou o vosso projecto” era prova suficiente para condenar o socras. E tenho até medo duma justiça comandada por quem achar que um vídeo de uma gajo a dizer que outro cometeu um crime sirva como prova de culpa. ( Neste caso ainda era pior porque o smith não era parvo de ir dizer aos ingleses que tinha ficado com a massa e dai o chumbo do freeport, ainda lhe tratavam da saúde). Enfim…


  5. Está certo: defende a extrema-direita franco-inglesa, e ataca um homem de esquerda (não será a minha, mas é esquerda, e falo com 30 anos de conhecimento pessoal do personagem).
    Faz mesmo sentido: a extrema-direita está furiosa por lhe terem ocupado o lugar.


  6. Talvez fosse mais relevante pensar porque 2/3 dos eleitores não se deram ao trabalho de ir votar. Talvez isso desse umas reflexões interessantes. Talvez fosse complicado digerir a alienação quase total a que os partidos conseguiram reduzir a vida pública.


  7. Ou assume que não percebe a diferença entre discriminalizar e crime público ou tem de explicar porque diz que Marinho defendeu a discriminalização da violência doméstica. Ser contra a adopção por casais homossexuais não faz ninguém homofóbico. Ninguém é basicamente homofóbico. Ou se é, ou não se é. O insulto é o único argumento quando não se quer aceitar debater uma ideia. Não gosto do estilo de Marinho e Pinto, mas não o insulto e, sobretudo, não insulto a inteligência. A minha e a dos outros. Comparar um homem que defende a liberdade com um fascista é absurdo para não dizer que está de má fé.

  8. Cunha says:

    Comparação infeliz. Conseguiu transformar um oportunista num herói, aos olhos de quem lê….Não foi hábil!!!!


    • Ao contrários dos políticos em geral e dos demagogos em particular, não participo em concursos de popularidade. Logo, não pretendo ser habilidoso, nem perseguir uma agenda mais ou menos escondida. Ou seja, digo o que penso. Enquanto posso. E mais lhe digo, da avaliação geral dos vários comentários, cada vez mais me convenço que a banha da cobra, o aloé vera e a baba de caracol, esses continuam a ser soberanamente populares. Enfim, quanto à questão de fundo, não posso desejar outra coisa senão estar redondamente enganado.

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