Sons do Aventar – The National – Primavera Sound Porto

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Escrever sobre o concerto dos The National na noite de ontem no NOS Primavera Sound do Porto não é fácil. Acreditem. Nada fácil. Por isso este vai ser longo…

O Parque da Cidade (Porto) é especial e quem “descobriu” o seu potencial para um festival como este merece receber as “Chaves da Cidade” numa próxima cerimónia da CMP ou mesmo uma Comenda pelas mãos do PR. O local é irreal de tão bom. A fauna não fica a dever muito ao espaço. São poucos os festivais que se organizam por cá onde se consegue assistir a concertos sem ter de aturar hordas de bêbados ou teenegers histéricos/as a tudo o que acontece e ao que ainda está para acontecer. Isso e malta de costas para o palco na conversa, literalmente a marimbar-se para a música e a incomodar quem está ali pela música, como acontece em demasia no SW. Aqui, tirando uma ou outra excepção, estamos todos pela música aproveitando o espaço e o ambiente. É por isso que, juntamente com Paredes de Coura, este é o “meu” festival. A escolha das bandas é de excelência e o público idem.

É nesta altura que tenho saudades do meu tempo de estudante. Logo eu que não sou muito de nostalgias, como diz o outro, saudades tenho do futuro. O meu lamento é não ter o tempo disponível que tinha. O trabalho obriga-me a ser criterioso nas escolhas e eu que adoro concertos e festivais tenho de seleccionar em vez de fazer como antigamente que “papava” tudo como se não houvesse amanhã. Por isso, este ano olhei para o cartaz e tomei uma decisão: só dá para ir sábado e mesmo assim, só de noite. Não podia perder o concerto dos The National por nada deste mundo! Não foi coisa simples e só tenho de agradecer penhoradamente a um cliente (e antes de tudo Amigo) por me ter dispensado das actividades já marcadas e aos restantes a sorte de não terem marcado nadinha para a noite de 7 de junho!!!

Tratadas as questões de trabalho, faltavam as do divino. Na madrugada de sábado arrisquei escrever (na minha página de facebook) a S. Pedro e que lhe disse eu? Coisas simples: “…Ora, a malta gostava imenso de os ir ver sem ter de levar com uma molha tal que termine tudo de molho e a tomar antigripine como se não houvesse amanhã. Será pedir muito? Estás à vontade para fazer cair água aos baldes em Gaia, na Maia, Valongo e eu sei lá que mais. Só evita, sff, ali para a zona do Parque da Cidade do Porto. Uma trégua entre as 19h deste sábado e as 03h de domingo, assim como quem não quer e a malta fecha-se em copas, não se diz nada a ninguém. Eu sei que tu sabes que sou agnóstico. Porém, sou fácil de convencer do contrário. É só acudires a este meu pedido e terás mais uma ovelha para o teu rebanho. Caso contrário serei obrigado a seguir os caminhos do demo“. Ó pá, estou tramado! O S. Pedro foi um amigalhaço e tanto. Estivesse ele pelo Primavera Sound e juro que lhe tinha pago umas valentes caipirinhas em copo XXL!!! E agora, eu agnóstico, vou ter de abraçar os caminhos de Cristo e tornar-me mais uma ovelha do fiel rebanho, essa é que é essa…

Descobri os The National com “Sad songs for dirty lovers” (2003) mas foi com “Boxer” em 2007 que despertei a sério para estes americanos. “Fake Empire”, do Boxer, é de tal ordem transcendente que a uso muito até em trabalho (um dos melhores vídeos de campanha política alguma vez feito é de Obama2008 e a música é mesmo esta. Em 2013 usei-a para a Trofa, por exemplo). Porém, não é fácil escolher uma música ou mesmo um álbum que seja “o melhor”. Em 2010 lançaram “High violet” e em 2013 “Trouble will find me” e continuo a amar tanto como “Boxer”. Por isso ontem as expectativas estavam altas, muito altas.

O espaço em redor do palco NOS estava à pinha. Foi logo a primeira surpresa. Com os bilhetes a começar nos €45 e a noite a ameaçar chuva já para não falar naquele ventinho frio vindo do mar tão típico da zona (a boa camada de gordura que tenho, estilo foca, ajuda a temperar estas coisas) é sentida como desagradável pela maioria dos mortais. Já devidamente munido de bebida e tabaco, avancei rumo a um local que me permitisse assistir a tudo sem ter de andar a desviar-me “do sacana que está à minha frente e faz o favor de ser mais alto e de farta cabeleira” – por falar em pêlos, a barba estilo Raul Meireles está na moda, eram ver irmãos do rapaz aos molhos pelo recinto! Estou tentado…

Arranca o concerto e à segunda/terceira música já o público está rendido. E eu mudo de espanto. A primeira hora passou e eu jurava à parceira que só tinham passado 10 minutos! De repente dei por mim a pensar que estava a assistir a um momento irreal. Recordei três dos melhores concertos ao vivo a que tive o supremo prazer de assistir: Placebo e Portishead no Coliseu do Porto e Sigur Rós no Campo Pequeno. Este já lá estava. Pouco depois, ainda mudo de espanto, veio-me à memória Lila Downs na Casa da Música nos idos de 2007. Não era possível estar a acontecer uma coisa daquelas. Que concerto. Que entrega. Que coisa de outro mundo. Meus amigos/as, ontem o Parque da Cidade, do meu amado Porto, viveu uma noite de magia graças a estes americanos. E muito, mesmo muito graças a um Matt Berninger que largou o seu fato e gravata, o seu estilo certinho e distante e se entregou, totalmente, a um público que merecia. Se merecia. Entrou pelo meio da multidão, deixou-se levar e levou-nos a todos para o paraíso, numa viagem inesquecível de sons e sensações só possíveis ali, com eles e assim.

Quando terminou o concerto fiquei alguns minutos a olhar para palco e em redor. Ainda não acredito no que aconteceu. Um verdadeiro turbilhão. Um concerto não é só a música. É uma equação onde a música é uma parte a que se soma o espaço e o ambiente e se multiplica pelo sentimento. Este é uma variável, é muito pessoal. Não sei se esta foi ou não importante/fundamental para o que senti e sinto após a noite de ontem. Se tivesse de definir o concerto dos The National no Primavera Sound do Porto diria que foi pura emoção.

A mesma emoção que se sente quando se experimenta pela primeira vez algo que nos emociona, que nos seduz. Eu imagino o que não terão sentido aqueles que viram ontem o seu primeiro concerto dos The National. Imagino aqueles que, sentindo o mesmo que eu, não o transmitem por algum pudor (passa com os anos) e receio de incompreensão (sim, é verdade, nestas coisas de sentimentos a linha que separa o ridículo do “normal” é fininha como um cabelo). E ontem a noite foi mesmo mágica. Tão mágica como “I Need my girl” do álbum “Trouble will find me”: I need my girl, I keep feeling smaller and smaller, I need my girl, I keep feeling smaller and smaller.

Pois é, nós precisamos de momentos assim na vida. De concertos como o de ontem. Sem medo, sem frio. Com emoção. Com vida. Sem meias palavras. Sem mensagens subliminares. Façam o favor de ser felizes!

 

 

Comments


  1. Olhe Fernando, a leitura do seu artigo, só pelo entusiasmo, “vibração”, emoção, “vivência” extraordinariamente FELIZ…que lhe proporcionou, como que induz uma pessoa a ficar bem disposta, ainda que os concertos não sejam, enfim…a nossa grande paixão.
    Simplesmente…acho fantástico as pessoas sentirem-se felizes, devido a algo que gostam verdadeiramente.
    Parabéns pela exposição e…continue com essa alegria contagiante. 🙂
    Paula Pedro


  2. tão bom de ler. e, como muito muita pena de não ter estado lá.

    Vi-os em 2008, nos jardins do centro cultural de vila flor, numa noite quente e de lua cheia de verão. Foi tal e qual como descrevou. o ponto alto da noite foi quando tocaram o about today. Magnífico 😉


  3. Permita-me um pequeno reparo:
    Adoro música!…Aliás é uma das minhas grandes “paixões”.
    Esta, em particular, “I Need My Girl” é extraordinária! 🙂
    Por acaso, também aprecio concertos; O último em que tive a possibilidade de assistir foi no ano passado, na Expofacic: Os KEANE. Uma das minhas bandas preferidas. Mas…estava de férias.
    Realmente, também tive pena de não ter tido a possibilidade de assistir ao Concerto dos “The National”, ainda que pelos motivos do costume: profissionais.
    O azar foi meu…eu é que perdi! 🙁

    Paula Pedro


  4. Tenho pena de não ter estado neste grande festival. Revejo-me completamente na sua análise ao tipo de público que prefere. Aquele que está lá pela música, que aprecia cada música como um gole de um bom vinho tinto e não de uma forma histérica como quem diz “eu conheço esta !!! eu conheço esta!!!”. Mas ao mesmo tempo que um público que mesmo não conhecendo o artista se abre e se deixa conquistar sem tiques de “a banda que eu gosto é melhor que a banda que tu gostas”. Os últimos grandes concertos que vi, com um interacção com o público absolutamente mágica foram todos em Lisboa. Alt-J, Mumford & Sons e os enormes Arcade Fire.

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