Francisco José Viegas, o anjinho da procissão

000z90cfO chamado acordo ortográfico (AO90) assentou em três ilusões: o “critério fonético” (traduzido na expressão “escrever como se fala”), a “simplificação” da ortografia para facilitar a aprendizagem e a uniformização ortográfica do mundo lusófono como meio de criar textos ortograficamente iguaizinhos.

Não foi necessário perder muito tempo a pensar para se chegar, rapidamente, à conclusão de que o “critério fonético” acabaria por impedir a criação de uma ortografia única, cuja inexistência, aliás, já estava patente no texto do AO90, em que se admite que ponto máximo a atingir será o da “aproximação ortográfica”, o que correspondeu a destapar de um lado e tapar do outro. Nada disto, no entanto, tem servido de impedimento para que pessoas investidas de autoridade continuem a mentir, anunciando um futuro em que deixará de haver versões diferentes do mesmo texto ou edições diversas do mesmo livro.

Defender a simplificação de qualquer conteúdo a fim de facilitar a aprendizagem é um logro que serve para desvalorizar a importância do esforço e faz parte de um programa facilitista que está na base, por sua vez, de um processo de desinvestimento na Educação. Ainda por cima, um sistema ortográfico mal concebido e, portanto, incoerente, é fonte de confusão e nunca será fácil de aprender.

Devido aos seus defeitos de concepção, e aliado a muitos outros problemas anteriores, o AO90 tem estado na origem de muitos erros. O Francisco Miguel Valada tem-se dedicado a mostrar uma ponta do iceberg, com factos e contactos a serem substituídos por fatos e contatos, sendo de destacar o surgimento de tais espécimes no Diário da República.

O movimento brasileiro Simplificando a ortografia é, no fundo, a consequência inevitável de se ter alimentado as três ilusões acima referidas. Para lá de todas as críticas que o dito movimento possa merecer, a verdade é que há ali uma coerência: se o AO90 pretendeu privilegiar o “critério fonético”, por que razão havemos de cortar o C de “acto” e manter, por exemplo, o H de homem, se as duas consoantes não são pronunciadas?

É aqui que surge Francisco José Viegas (FJV), montado no cavalo branco de defensor da etimologia e dos dicionários, atacando a procissão de doidos que quer, imagine-se, colocar “a ortografia numa dependência aleatória e analfabeta da fonética.” Vê-se, pelo título do texto, que Viegas está irado, chegando mesmo a usar palavras fortes como “palermice” e “patetas”.

Nem quero imaginar que impropérios FJV irá, um dia, endereçar a todos aqueles que ajudaram a manter aberta a Caixa de Pandora que deu origem ao disparate que hoje critica tão duramente. Chego a temer a dureza com que Viegas atacará o anterior Secretário de Estado da Cultura, aquele mesmo que, sobre o AO90, disse umas canavilhices, gaguejou umas coisas e, uma vez saído do governo, chamou boçais e patetas a quem o tinha criticado. FJV deverá lembrar a esse antigo governante que quem se deita com o AO90 acorda com o movimento Simplificando a ortografia.

Fotografia encontrada em http://derterrorist.blogs.sapo.pt/133611.html

Comments


  1. Pensava eu que o OA já tinha dado o que tinha a dar – Dado — ou tirado – afinal tirou tanto e não deu nada a não ser o orgulho de jornalistas pelo menos do Negócio de acentuarem que escrevem segundo o OA – muito boa – de ser o Viegas a dizer isso – para que se não esqueça – o vazio económico e sociocultural do pais esvaziou até a língua e ortografia – o que se segue ?? nada

  2. Cristina says:

    Em Português de Portugal, sem a utilização do acordo ortográfico de 1990, não se utiliza “por que razão havemos de cortar o C”, mas sim “porque razão havemos de cortar o C”. Veja-se http://www.flip.pt/Duvidas-Linguisticas/Duvida-Linguistica.aspx?DID=1317
    ou
    http://www.priberam.pt/DLPO/porque


    • Não. É ao contrário: “porque” e “por que razão” ou “por que motivo”.


    • Aliás, a referência fornecida, da Priberam, deixa-o claro. “Por que razão/motivo” = “a razão / o motivo pela/pelo qual”. Cf. na referência ponto (3), (4b) e (5b). “Porque” isoladamente. A Cristina, queira conferir por favor.

    • António Fernando Nabais says:

      O leitor Rui antecipou-se e respondeu correctamente. Aproveito para referir que a palavra “português”, quando se refere ao idioma, deve ser escrita com minúscula inicial.
      De qualquer modo, defendo que o “porque” deveria ser apenas causal e nunca interrogativo, embora procure cumprir a regra. Para além disso, não me repugnaria que a referência a idiomas fosse feita com maiúscula inicial.


      • Sou eu, caro António Fernando, o Rui Miguel Duarte.

        • António Fernando Nabais says:

          Quando li a resposta, pensei que serias tu, mas só depois fui confirmar a identidade do “leitor Rui”. Foi um caso de deferência por prudência 🙂

    • Paulo Inácio says:

      Mas que terá isso à ver com o AO? Além disso a emenda que fez está errada!

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