O pântano, sempre o pântano

É uma das nossas tradições, esta dos governos terminarem manchados não apenas pela incompetência governativa, traduzida na incapacidade de sanar aquilo que eles mesmos começaram por definir como sendo os males do país”, mas igualmente pela suspeita de corrupção, tráfico de influências, abuso de poder, peculato. É o pântano e dele não saímos.

Os nossos governantes têm sido moralistas grasnantes, do alto dos seus pés de barro mal cozido, aparelhados com um discurso inchado de presunções de ética irrepreensível e integridade. As flagrantes traições às promessas eleitorais são sempre justificadas pelos números até aí debaixo dos panos, as conjunturas imprevistas. E já nem os preocupa a necessidade de camuflar a mentira, tal a fé na fraqueza de memória dos eleitores. No melhor dos casos, terminam os seus mandatos tingidos pela suspeita de serem coniventes com a corrupção instalada. Acabam invariavelmente apanhados pela contradição entre o seu discurso e as suspeitas nunca inteiramente provadas do que foi a sua prática. São criaturas formadas pelos partidos, pequenos “golem” amassados no barro do carreirismo nas juventudes partidárias, da vida profissional à sombra do partido, do parlamentarismo guiado pela obediência servil e pelo cálculo.

O guião é sempre o mesmo, já o sabemos de cor, até podemos prever o futuro. A cada semana o PSD ver-se-á a braços com uma nova suspeita de corrupção. Resolvida a crise antoniana no PS, em breve se multiplicarão os discursos entusiastas de comentadores, opinadores, bloggers, que nos garantirão que o líder socialista é o homem certo para o país, que romperá com o passado, que com ele tudo será diferente, que é um homem honesto, íntegro, irrepreensível. Alguns desses entusiastas receberão a recompensa, um cargozito de assessor, um contrato público por ajuste directo para a sua empreendedora empresa, outros ver-se-ao obrigados a subir o volume dos encómios, à espera da próxima distribuição de benesses. E haverá, não sejamos cínicos, os que o fazem por convicção e que talvez acabem apenas desencantados, coisa triste mas salvadora de consciências.

E o país mantém-se no impasse, esse permanente estado português, para tão longa espera tão curta a vida, fingindo acreditar que um dia serão diferentes os três partidos responsáveis pela ruína do país, repetindo a mesma acção à espera de um resultado diferente, queixando-se sempre de tudo mas nunca se responsabilizando por nada.

Haverá cura? Acredito que sim. Mas o impasse mantém-se e continuamos na lama.

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Comments

  1. José Peralta says:

    Em complemento do meu comentário no post “Passos Coelho Salcicha”, vejo sem surpresa (porque desta gentalha já nada me surpreende…) mas com mal contida raiva, as declarações do marco antónio costa, lídimo e sinistro representante da mais abjecta escroqueria aparelhística, sobre os portugueses que se “habituaram” a ter no aldrabão coelho, um referencial de comportamento ético e de transparência !!!!!!!

    Estes imbecis ignóbeis, continuam a laborar impunes, na mais pútrida esterqueira da mais odiosa mentira, na mais emporcalhada, pôdre manipulação, na indignidade política mais crapulosa, na canalhice mais obscena e desbragada !

    Mas quem querem estes fantoches sem ética nem dignidade cívica e política, enganar ?

    Leiam o link abaixo, e “apreciem” até onde pode chegar o viscoso e repelente marco antónio !

    http://www.ionline.pt/artigos/portugal/porta-voz-psd-enaltece-passos-coelho-referencial-etica-transparencia


  2. Reblogged this on ||.


  3. Gostei em especial do parágrafo:” E o país mantém-se no impasse, esse permanente estado português, para tão longa espera tão curta a vida, fingindo acreditar que um dia serão diferentes os três partidos responsáveis pela ruína do país, repetindo a mesma acção à espera de um resultado diferente, queixando-se sempre de tudo mas nunca se responsabilizando por nada.” – Assim tem sido e será. Estamos condenados???

  4. Nightwish says:

    Pois é, a seguir vem o Rio não é?
    Pois…

  5. Orvalho says:

    Parece-me que “esta dos governos terminarem manchados” é bem pior do que se aparenta na medida em que o que se sabe no fim é o que se sabia no início. Apenas pelo respeito ao tempo de cozedura é que a notícia vai sendo dada a conta-gotas.
    No caso deste Coelho, para além de cada vez mais evidências cirurgicamente divulgadas, nada que já não se soubesse.
    O que manipula tudo isto é que é tenebroso … e não tem cura!

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