Negacionismo vermelho

Após um número de campanha sobre a erosão costeira para as intercalares da freguesia São Pedro da Figueira da Foz protagonizado por Miguel Tiago, escrevi um artigo no Beiras em que confrontava as posições negacionistas do deputado com a questão da subida do nível do mar e com as posições e a intervenção de Os Verdes. O Miguel Tiago respondeu. Sobre as questões levantadas pelo Miguel Tiago sobre erosão costeira, estas já tinham sido abordadas em artigo publicado em janeiro no Beiras onde refiro que os “estragos causados pela ondulação na Praia do Cabedelo resultam da acumulação de vários fatores: o prolongamento do Molhe Norte, a redução do volume de areia das praias pela retenção de sedimentos nas barragens dos rios e o aumento do nível da água do mar. O prolongamento do molhe é sem dúvida o fator mais importante. (…) O aumento do nível da água do mar, por enquanto em cerca de 20 cm nos últimos 100 anos, tem um contributo menor, mas não se prevê que possa abrandar dado que o aquecimento global progride.”

O que não se pode ignorar de maneira nenhuma é que o Miguel Tiago acha que o aquecimento global é pseudociência, logo deve ser obra do acaso o aumento da nível da água do mar que se verifica: 20 cm nos últimos 100 anos. Recordo que recente trabalho em que se estudou em grande detalhe os últimos 6 mil anos, demonstra que a rapidez desta subida é inédita neste período e provavelmente em período superior se for estudado. Aliás o Miguel Tiago tem um texto no Avante muito elucidativo sobre a sua peculiar construção negacionista sobre o aquecimento global, num misto entre a conspiração e o conhecimento superficial sobre a imensa matéria publicada sobre o tema. Segundo o Miguel, a “investigação Científica é também um processo social, sujeito a instrumentalização pela classe dominante“. Não são as companhias petrolíferas que o Miguel Tiago denuncia, não são a Shell, a Texaco, a BP, a Ford, a GM ou a Daimler-Chrysler que há cerca de 15 anos criaram a Global Climate Coalition (entretanto dissolvida) com o objectivo de inventar um ambientalismo alternativo que negava o aquecimento global. Quem é atingido pelos propósitos do Miguel são os investigadores que mais trabalho realizam e publicam sobre o assunto, como os investigadores da Universidade de Lovaina, da Universidade de East Anglia e da NASA (recordo que estes se bateram contra o negacionismo de Bush). Noto que alguns destes investigadores são frequentemente convidados pelo grupo político do Parlamento Europeu a que pertence o PCP para participar em atividades sobre o aquecimento global.

O texto do Miguel no Avante tem muito que se lhe diga, é um manancial de negacionismo. Lá iremos, a todos os pontos, até porque a direita negacionista teve algumas tiradas trapalhonas recentes sobre o assunto que valerá a pena dissecar. Numa das passagens do texto do Avante podemos ler: “A climatologia e a paleo-climatologia não são propriamente ciências simplistas como se tem vindo a tentar fazer crer e não se compadecem com modelações baseadas em «regras de três simples» tão elementares quanto as que deram origem à tese ultrapassada do aquecimento global em «hockey-stick»“. Não só hockey-stick “não foi ultrapassado”, como passou a ser designação oficial da evolução da temperatura no hemisfério norte no último milénio e tem vindo a ser reforçado através de inúmeras medidas directas e proxies (sedimentos, anéis de árvores, etc.; ver imagem mais abaixo). Aliás medidas e proxies recentemente publicadas revelam com evidência o padrão do hockey-stick no Hemisfério Sul e a nível global (gráfico de cima). Sublinho que na base dos gráficos abaixo indicados estão centenas de artigos científicos revistos pelos pares publicados em revistas como a Science, a Nature e a Geophysical Research Letters. Poupem-me com sites internet manhosos e a meia dúzia de artigos datados sobre a matéria.

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Comments

  1. Briosa no Jamor says:

    Só uma questão, o texto do Miguel Tiago é no Militante, não no Avante. Em nome do rigor.

  2. asCético says:

    Estudos e gráficos, há-os para todos os gostos. Cada um mostra aqueles que “comprovem” as suas crenças. A verdade é que a Ciência sempre foi e será instrumentalizada. Uma coisa é certa, o nível do mar já esteve mais alto que hoje, e voltará a subir, tal como depois voltará a descer. São assim os ciclos da natureza contra os quais nada podemos fazer, a não ser adaptarmo-nos, para amenizar as consequências.

  3. Carlos Ramos says:

    Não lhe fará mal nenhum ver e ouvir o cientista brasileiro Luiz Carlos Molion no Youtube

  4. António Duarte says:

    As questões levantadas são pertinentes e complexas, parecendo-me a mim que a razão não é exclusiva de nenhum dos lados.

    O aquecimento global originado pela actividade humana é uma realidade que não se pode negar ou menosprezar, e transporta consigo problemas ambientais graves que precisam de ser, já não direi solucionados, pois andamos há demasiado tempo a fazer asneiras que agora não se reverterão fácil nem rapidamente, mas pelo menos controlados e minimizados nos seus efeitos.

    Mas também me parece errado um fundamentalismo ecológico que ignore toda a dimensão social e humana do problema e que se nessa medida facilmente se deixará instrumentalizar pelos grandes interesses que vão fazendo do ambiente uma promissora área de negócios, favorecendo a apropriação privada de recursos públicos e perpetuando tanto as assimetrias do desenvolvimento como as desigualdades sociais.

  5. Vladimiro Vale says:

    Eu já sabia que o anti-comunismo é um poderoso condicionador do raciocínio. Apesar de já saber isto, nunca deixo de ficar surpreendido com a sua capacidade de toldar certas cabeças. O Miguel Tiago esclarece que o que critica “com severidade – tal como o meu partido – não é o conceito ou a velocidade com que se verificam alterações climáticas, mas as falsas soluções de mercantilização da atmosfera que o capitalismo nos tem imposto a pretexto da salvação do planeta“

    O aspecto mais negativo de como RCS está a conduzir esta discussão é que a questão fundamental fica por discutir: A mercantilização do Ambiente! Ao contrário os desejos, que alguns confundem com a realidade, o PCP tem vindo denunciar a campanha de propaganda mundial que, aproveitando conclusões de estudos, visa contribuir para aprofundar a mercantilização do ambiente e para que não sejam, de facto, tomadas as medidas necessárias para a preservação dos valores e recursos naturais.

    O que o PCP tem denunciado são os mecanismos decorrentes do protocolo de Quioto como “Esquema Europeu de Transacções (ETS) que, introduzido em 2005, não conduziu à desejada redução de emissões de gases de efeito de estufa, bem pelo contrário.” Mecanismos que “pretendem não é uma efectiva redução dos gases de efeito de estufa, mas a criação do comércio do carbono que visa, sim, tornar-se numa máquina bilionária de geração de activos financeiros fictícios (em tudo semelhantes aos gerados pelos mercados especulativos bolsistas) expostos às imprevisíveis variações do sistema que os cria. Bastaria recordar a sucessão de bolhas financeiras especulativas e crises à escala mundial, dos últimos 20 anos, para perceber que se está a alimentar um novo monstro financeiro, desta vez orientado para o comércio do carbono. Estima-se que, a curto prazo, a bolsa de carbono poderá representar um mercado de mais de 700 mil milhões de dólares.”

    • Argumentar com o anti-comunismo tem a mesma validade da acusação de heresia quando proclamada por uma religião.
      O texto não se limita à questão do mercado do ambiente, em que até estarei de acordo, mas nega as alterações no clima, logo nega o papel do capitalismo como sua causa directa (é do capitalismo e não da mera acção humana que falamos) e repete o discurso neoliberal que precisamente defende o direito do capital a fazer o que lhe der na bolha, o planeta aguenta.
      É um texto reaccionário, e se discordo da crítica do Rui é num aspecto: isto é negacionismo amarelo, enfeitado com umas pintarolas encarnadas. Não é uma citação de Engels que faz dele vermelho.

  6. Vladimiro Vale says:

    Sobre a questão em concreto… Nada! E as operações de mercantilização da Natureza? E o discurso neoliberal que quer privatizar a atmosfera ao serviço das coorporações que são responsáveis pelos ataques ao ambiente. E o discurso dos que querem que a natureza funcionde como o capitalismo? Não será SEGUIDISMO AMARELO não falar do esquema ardiloso, que partindo da identificação de problemas ambientais reais e graves, que até coloca objectivos nobres à cabeça, para depois começar a urdir a teia do engano, que neste caso é do aprofundamento de instrumentos que querem aplicar ao ambiente as regras de funcionamento do capitalismo?

    • Como escrevi acima, com isso estou genericamente de acordo. O problema não é a crítica ao capitalismo, é o esquerdismo dogmático que vê no combate ecológico o mesmo que os neoliberais, negando evidências científicas.
      A prova está neste comentário abaixo onde como não poderia deixar de ser aparece um negacionista puro e duro, a pedir para se ver um filme que além do seu anti-comunismo primário é um manifesto em honra da imbecilidade, em defesa da superioridade do capitalismo. De resto mais que desmascarado há anos.

  7. Manuel says:

    a teoria do aquecimento global causado pelo homem não tem base científica e que a elevação da temperatura decorre de um ciclo natural.

    ver doc “The Great Global Warming Swindle”.

    os oceanos emitem cerca de 40% do co2 para a atmosfera.
    quanto co2 é emitido pelo homem?

    existem mudanças climaticas, não existem mudanças climaticas provocadas pelo homem!

  8. Vladimiro Vale says:

    Eu já desconfiava: O último comentário do João José Cardoso esclarece – JJC ou não quer compreender ou não faz a mínima ideia do que está a falar! O Al Gore e as corporações que representa são progressistas. O Pavan Sukhdev – conselheiro especial e chefe da Green Economy Iniciative –banqueiro do Deutsche Bank, em licença sabática com destacamento de serviço na UNEP (United Nations Environment Programme, Programa Ambiental das Nações Unidas) que se descreve como um “capitalista total” e diz que o nosso problema não é termos capitalismo a mais é termos capitalismo a menos. Será que também é progressista?

    Ao menos tenham o cuidado de ler (até ao fim) as posições do PCP sobre o tema e partam delas para uma análise séria. Por favor não partam do que dizem das posições do PCP, nem do que gostariam que fossem as posições do PCP.

    “O PCP, reclama do Governo Português uma atitude na Conferência de Copenhaga que coloque a necessidade de uma ruptura com o actual paradigma de desenvolvimento, que sacrifica os recursos naturais e a força de trabalho humano à crescente acumulação do lucro e da riqueza produzida. Para salvaguardar não só os recursos naturais, mas a sua fruição democrática, é urgente:

    – Uma real política de limitação de emissões com efeito estufa e outros poluentes, através de normativo específico, sem atribuição de licenças transaccionáveis e que tenha em conta a necessidade de redução das emissões de GEE e uma justa distribuição dos esforços para as alcançar, por sectores e países;

    – A diminuição da dependência face aos combustíveis fósseis (que satisfazem actualmente 85% das necessidades energéticas a nível mundial), nomeadamente através do aumento da eficiência energética e do desenvolvimento e aplicação de alternativas energéticas de domínio público, que não ponham em causa a segurança alimentar das populações – como é o caso dos agrocombustíveis;

    – A defesa da produção local e redução da amplitude dos ciclos de produção e consumo. A travagem da liberalização do comércio mundial, factor de incentivo no aumento do consumo energético e de emissão de gases com efeito de estufa, e de agravamento das desigualdades.

    – A protecção dos ecossistemas naturais, terrestres e marinhos, e a recuperação de ecossistemas degradados, dado o importante papel que desempenham no ciclo do carbono, absorvendo uma parte significativa das emissões de dióxido de carbono.

    É ainda urgente uma política de preservação de recursos naturais e valores ambientais que assente na interacção entre as populações autóctones e o meio em que se inserem, sem lugar à gradual apropriação de recursos a que vamos assistindo por parte de grandes grupos económicos, como tem acontecido em Portugal com a complacência e apoio do Governo. ”

    Discutir e aprender sempre! Mas com quem faz a mínima ideia do que está a falar. Portanto, ficamos por aqui.

    • Lá está: eu não estou a discutir a posição do PCP mas um texto de um deputado do PCP. Mesmo que publicado onde foi, não o confundi com a posição oficial do partido.
      Tal como não misturo o Al Gore ex-vice-presidente com posições progressistas (embora discutíveis) que tomou posteriormente. Tão simples como isto: na frente da luta ambiental cabem muitos de quem discordo politicamente, tal como na frente de luta antifascista sempre sucedeu o mesmo. Se seguíssemos a prática sectária de esconjurar todos os que não pensam como nós, ainda estávamos em plena ditadura.

  9. Manuel says:

    o “hockey-stick” é uma falsificação
    aqui:http://resistir.info/climatologia/falsificacao_da_historia_climatica.html

    ainda melhor é ler “A ecologia do absurdo” de Tom Thomas e deixar os preconceitos de lado.

  10. Manuel says:
  11. Manuel Latas says:

    Oh João José: “Se seguíssemos a prática sectária de esconjurar todos os que não pensam como nós, ainda estávamos em plena ditadura.”

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