O editorial esquerdalho do Financial Times

KM

O editorial que se segue foi publicado no Financial Times, sendo a tradução da autoria de João Rodrigues, perigoso ladrão de bicicletas. Tentem não entrar em pânico, não baixem a guarda, mas preparem-se: os esquerdalhos andam aí e querem comer os vossos filhos ao pequeno-almoço.

A existir um raio de esperança no Covid-19, este é a injecção de um propósito comum em sociedades polarizadas. Mas o vírus e o confinamento económico necessário para o combater, também lançaram uma luz horripilante nas desigualdades existentes, para lá de terem criado novas desigualdades. Para lá de derrotar a doença, o grande teste que todos os países enfrentarão em breve consiste em saber se os actuais sentimentos de propósito comum moldarão a sociedade a seguir à crise. Como os líderes ocidentais aprenderam na Grande Depressão e depois da Segunda Guerra Mundial, a exigência de um sacrifício colectivo implica oferecer um novo contrato social que a todos beneficie.

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A honra de estar vivo

Há poemas tão nítidos, tão aparentemente prosa, tão imediatamente coração que é fácil percebê-los e ficamos surpreendidos com essa facilidade, cheios de palavras de outros que dizem exacta e misteriosamente tudo aquilo que pensamos. O sortilégio da literatura, aliás, é este: encontrar, nos outros, palavras que são nossas.

Este poema de Jorge de Sena, ampliado pela voz de Mário Viegas, é ainda mais fácil de perceber quando nos apercebemos de que estar vivo é uma honra, de que cada vida vale mais do que qualquer mundo, de que as pessoas são mais importantes do que a economia. A economia, aliás, embora pense que não, precisa desesperadamente das pessoas. [Read more…]

Coronavírus: Srećko Horvat entrevista Noam Chomsky

De repente, a nossa sala parece maior, não parece?

CRM

Campo de refugiados de Moria, ilha de Lesbos, Grécia. Uma criança, possivelmente em fuga da eterna guerra na Síria, explica-nos, de forma simples, que estar fechado em casa, mesmo na esmagadora maioria das mais humildes que por cá temos, não é assim tão mau. Mau é ver tudo o que temos ser destruído por uma guerra, sermos obrigados a fugir da nossa terra, arriscarmos a vida na fuga e não irmos além da rede do campo de refugiados, onde nos sujeitaremos às condições sub-humanas que imperam em qualquer campo de refugiados, onde dividiremos uma tenda como esta com 5 ou 10 pessoas, não necessariamente da nossa família. De repente, a nossa sala parece maior, não parece?

Repensar as regras da globalização?

Há uns dias, dizia António Costa, em relação à chegada da China de 4 milhões de máscaras de protecção, que não é possível estarmos nesta dependência de uma coisa que é produzida na China, que é transportada pela Ethiopian Airlines para finalmente chegar ao Porto – não passando de uma reserva que dá para uma semana.

Levará esta catástrofe que desabou sobre a humanidade a um tão necessário ajustamento dos princípios e regras que vêm regendo a economia global nas últimas décadas?

Parece muito duvidoso.

O jornal alemão TAZ publicou ontem uma notícia sobre prioridades da Alemanha durante a Presidência do Conselho da União Europeia, que o país irá assumir a partir do dia 1 de Julho. Na política externa e comercial, Berlim pretende não só finalizar o acordo de comércio EU-Mercosul como “retomar um amplo diálogo político de alto nível (…) e desenvolver e implementar uma agenda comercial transatlântica positiva”. Ou seja, repescar o TTIP (acordo EU-EUA), mesmo que numa forma “light”.

Os receios de Berlim em relação às ameaças de tarifas punitivas dos EUA sobre as exportações alemãs de carros têm a maior potência para alavancar a agenda de liberalização abrangente, a favor da indústria de exportação. [Read more…]

O choque de ventiladores

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Primeiro foram os chineses, que, “tendo o problema controlado” (so they say), começaram a enviar ajuda para países europeus. Depois vieram os cubanos, com os seus médicos comunistas, infectados até ao tutano de perigosíssimo marxismo cultural, seguindo-se os russos, que enviaram ajuda médica para Itália.

Perante a multiplicação dos gestos de “solidariedade”, que se estenderam também aos EUA, pela mão do amigo Vladimir, Donald Trump ter-se-á apercebido do seu atraso na corrida pela instrumentalização oportunista da solidariedade da treta, e lá foi ele, esbaforido, a correr atrás do prejuízo. [Read more…]

Um inferno português…

A ideia que Holanda e Irlanda são paraísos fiscais, deixa implícita a existência, por simples oposição ao conceito de paraíso, que existirão infernos fiscais. Nada impede os que acusam tais países de concorrência desleal, de passarem a defender que os seus próprios países concorram com os demais. As empresas não são corpos estranhos, seguem a lógica das pessoas, porque até ver, por muito que recorram à robótica ou inteligência artificial, ainda são dirigidas por pessoas. Se um cidadão não encontra condições para se desenvolver numa localidade, desloca-se, de cidade, região, por vezes até de país, emigra. As empresas é igual. Cabe aos governos atraírem investimento, inteligência e capitais, para isso precisam ser concorrenciais. Agilizar processos e baixar impostos. Não acusem empresários de mudarem a sede das empresas, acusem o governo de não ter uma política fiscal que as mantivesse em Portugal. [Read more…]

A União Europeia ligada ao ventilador

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Na foto: dois imbecis holandeses

António Costa esteve muito bem, mas muito bem mesmo, a chamar os bois pelos nomes: as palavras do Ministro das Finanças holandês, que pediu uma investigação à falta de margem orçamental do governo espanhol para lidar com a pandemia, são, efectivamente, repugnantes. São repugnantes, irresponsáveis, negligentes e arrogantes. São mais um prego no caixão da União, que avança, triunfante, em direcção ao abismo da dissolução, para gáudio da extrema-direita. E são tudo que a União Europeia não precisa neste momento. [Read more…]

Brasil. Covid-19 já mata milhares… de neurônios.

A Covid-19 já chegou ao Brasil há mais de um mês. Os poucos dados atualizados e confiáveis indicam que o número de infectados só aumentam. Já são 4371 casos confirmados e 141 mortes até as 12h51 desta segunda-feira.

As proximas duas semanas serão decisivas na explosão de casos mas apesar de todas recomendações da OMS o dirigente maximo do país, Jair Messias Bolsonaro, contínua a minimizar os efeitos letais do vírus e tem incentivado em ações e discursos, a quebra do isolamento em nome da salvação da economia. A ultima dele foi sair às ruas de Brasília no domingo, cumprimentando seus eleitores. Em seguida declarou que é preciso combater o vírus como homem. Deve achar que será com um fuzil que venceremos a pandemia. Que o presidente brasileiro não entende muito de economia, isso já é sabido mas adotar uma postura que pode resultar num colapso muito maior na saúde e economia de toda a nação brasileira, é chocante.

As ações do presidente são apoiadas por seus eleitores e simpatizantes que estão promovendo manifestações (carreatas) pela abertura de escolas e comércio. Grande maioria empresários e dondocas em carrões, cansados de limparam a própria sujeira e cuidarem dos filhos (se é que o fazem pois já há registros de “serviçais” terem morrido ao pegar vírus dos patrões).

Enquanto isso governadores e prefeitos tem adotado uma medidas mais preventiva, fechando comércios, escolas e serviços, incentivando a população a se isolaram. Especialistas indicam que o Brasil terá muitas baixas. A mais otimista delas que li, indicava algo em torno de 40 mil mortes devido a Covid-19.

Não há certezas com relação aos números mas as previsões são de caos e uma crise sem precedentes. A parte da população que votou em Jair e acredita que o vírus é apenas uma gripezinha também sofrerão. Na verdade já sofrem. Seus neurônios, os poucos que tinham, já pereceram.

Crónica do Rochedo 33º – A pandemia europeia

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Quando Portugal procurou a ajuda dos seus parceiros europeus para a questão da violação dos direitos humanos em Timor, boa parte da Europa assobiou para o lado (então a Holanda…). Quando os países do sul da Europa precisaram de ajuda no combate à crise provocada pelo colapso financeiro de 2008/9, boa parte da Europa balançou entre o assobiar para o lado e o castigar esses “bebedolas”. Quando a Grécia se viu a braços (e continua) com o problema dos refugiados, boa parte da Europa fez de conta. Quando, hoje, perante uma pandemia sem precedentes a Itália pediu ajuda, parte substancial da Europa disse não ou, no melhor dos casos, nim.
A Europa está refém de uma doença infecciosa que se espalha entre parte substancial dos seus países, sobretudo a norte e centro, um vírus que se pode descrever como uma espécie de “eu quero lá saber dos outros países, do bem comum, o que importa é o meu interesse: o meu país, a minha economia, os meus problemas”. É uma pandemia europeia.

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Coronavírus: (quase) tudo o que precisa de saber

Fora com a CM TV


[Pedro Guimarães]


Regra #1 de como sobreviver a tudo isto.
#foracomacmtv

O que nos espera – um cenário

Vi há uns dias um vídeo muito esclarecedor sobre o possível controlo da pandemia do coronavírus. Sem mais apreciações, dizia o seguinte:

A expansão do vírus só pode ser bloqueada quando houver suficientes pessoas que lhe sejam imunes. No caso do coronavírus, a imunidade de grupo (ou efeito rebanho), o número suficiente de pessoas imunes, corresponde a entre 60 e 70% da população. Só nesse nível é possível reduzir as cadeias de transmissão.

A questão é, pois, como conseguimos suficientes pessoas imunes? Não existindo vacina, só quem já superou a doença tem imunidade (pelo menos durante algum tempo).

Ora, se não se tomassem medidas, aconteceria o seguinte:

Uma curva elevadíssima, ultrapassando a capacidade de resposta dos serviços de saúde, com um número elevadíssimo de casos e de mortos.

É pois necessário tomar medidas – isolamento social com o resultante congelamento da vida económica – para achatar a curva, de modo a mantê-la abaixo do nível de capacidade do sistema de saúde. Porém, pelos efeitos dramáticos que estas medidas têm para a economia, a curva não deve ser demasiado achatada, ela deve ser gerida; o que é tanto mais difícil porque as medidas só têm efeito uma ou duas semanas após serem aplicadas.

Não sendo possível, pelos custos catastróficos das medidas, esperar meses até que exista uma vacina ou medicamento, um modelo proposto por especialistas ingleses é o seguinte:

Começar com medidas muito rigorosas de distanciamento social que levem à redução de casos; quando se verificar que estes baixaram, abrandar as medidas – por exemplo abrindo de novo as escolas, lojas, etc. Como consequência, ao fim de algum tempo os casos aumentariam de novo, já que não haveria ainda suficientes pessoas imunizadas. Nessa altura, voltariam a aplicar-se as mesmas medidas rigorosas de distanciamento social, como fechar escolas e lojas, etc., e assim sucessivamente, apertando e aligeirando as medidas, de forma a ir-se conseguindo imunização progressiva, mantendo, no entanto, o número de casos num nível que não ultrapassasse a capacidade do sistema de saúde, para minimizar as mortes. O número de pessoas imunes aumentaria lentamente, ao longo de um longo período de muitos meses, talvez até 2 anos.

A quarentena e a redução de contacto social ajudam a ganhar o tempo que é urgentemente necessário para que os cientistas possam descobrir uma vacina e medicamentos eficazes. Paralelamente, são também precisos testes melhores e mais rápidos que permitam perceber e controlar a expansão da doença. Por exemplo, há pessoas que têm sintomas muito leves ou nem os têm, mas que podem infectar outras. Através de testes, estas pessoas poderiam ser identificadas e ficar em quarentena, a fim de não contagiarem outras. Além disso, são também necessários testes que permitam verificar se uma pessoa já tem anti-corpos contra o coronavírus, ou seja, se é imune. As pessoas imunes poderiam então circular, sem contagiarem outras, nem correm risco próprio, ajudando assim a manter o sistema social e económico.

“Bastardo”

[Miguel Teixeira]

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Quem é Mark Rutte, o Primeiro-ministro holandês, que é contra os “eurobonds” (emissão de dívida conjunta dos países da União Europeia) e líder de um governo cujo Ministro das Finanças pediu “que a Espanha fosse investigada por demonstrar não estar preparada para uma crise como a do Covid 19“, irritando e levando a Itália a abandonar o Conselho Europeu?

É líder de um governo conservador de centro direita. Quis ser pianista, mas enveredou pela carreira política. A Holanda tem uma população de cerca de 17 milhões de pessoas e já 334 mortos por Covid-19. Terá também, à semelhança de outros países, acordado tarde para o problema: recentemente, numa Conferência de imprensa, na presença do Diretor de doenças infeto-contagiosas do Instituto de Saúde Pública, pediu aos holandeses para não se cumprimentarem. No final da sessão, não cumpriu o que tinha dito e cumprimentou com aperto de mão efusivo o responsável pela autoridade de saúde do seu país, a rir-se perante as câmaras.
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Isto é normal?


O programa da tarde da RTP, agora mesmo, a transmitir em directo de um Lar, com os idosos todos amontoados.

É mesmo?

É impressão minha, ou von der Leyen assume nesta crise uma posição europeia que contraria a egoísta do seu país? Com as palavras: “Estamos numa encruzilhada” (…) “Este vírus vai dividir-nos definitivamente em ricos e pobres, em favorecidos e desfavorecidos? Ou sairemos desta situação mais fortes e melhores, com as nossas comunidades mais coesas?”, questionou. “Vamos dar mais credibilidade à nossa democracia, como um bloco forte e um actor fiável a nível mundial?”  von der Leyen parece mesmo estar a avisar a Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia, de que a emissão dos chamados coronabonds – emissão conjunta de dívida – é imprescindível, se não se quiser aumentar mais ainda a desigualdade, por via de juros mais elevados para os países fracos e vice-versa, ao sabor dos todos poderosos mercados. A Europa, mais uma vez, a derrapar.

A política não é um vírus

António Costa brincou com o deputado João Cotrim de Figueiredo. Quem está na trincheira do primeiro, adorou o comentário e cantou uma vitória épica; do outro lado, houve quem se escandalizasse, também por não gostar que se chame a atenção para as contradições dos liberais. António Costa pode ter tido uma vitória tangencial, mas o episódio não passou de uma mera escaramuça parlamentar que não acrescenta nada de essencial. Parece-me, no entanto, que estamos diante de uma oportunidade para discutir se é possível o liberalismo em tempo de paz e estatismo em tempo de guerra, sabendo-se, desde já, que nada é assim tão simples.

Não é a altura para discutir isso, dizem alguns, porque estamos em circunstâncias adversas. Pelo contrário: é fundamental, porque o objectivo é que o mundo continue e que todos saiamos à rua para retomar as nossas vidas. É fundamental pensar que Estado queremos ou se queremos Estado.

O que me parece muitíssimo escandaloso em António Costa, por exemplo, é a afirmação de que não falta nada ao SNS, uma mentira que está a passar pelos pingos mediáticos sem molhar o primeiro-ministro. É verdade que, na trincheira do PS e de muita esquerda, há uma crispação quando se apontam os muitos problemas do SNS, como se isso fosse uma crítica ao conceito. Para mim, ser de esquerda é exactamente criticar o desinvestimento público que enfraquece o Estado em áreas em que tem de ser forte, áreas que não podem estar sujeitas à ditadura do lucro ou à libertinagem dos mercados. [Read more…]

Ascenso Simões no Twitter

 

 

 

 

 

Ontem, no Twitter, o deputado do PS Ascenso Simões insultou todos os que lhe apareceram pela frente a propósito de uma publicação sobre a Iniciativa Liberal.

A violência da linguagem utilizada, sobretudo contra mulheres, provocou uma censura generalizada. Afinal, trata-se de um representante da Nação com responsabilidades enquanto tal.
Mas a agressividade de Ascenso Simões no Twitter não é de hoje. Ora vejamos:

 

 

 

 

A mesma conta, a mesma linguagem desabrida a chamar a atenção da Comunicação Social e até do Polígrafo.
Ontem, depois da polémica, o deputado do PS veio dizer que aquela era uma conta falsa, que não era sua, etc, etc. Eliminou a conta anterior, criou uma nova e, sem explicar por que nunca denunciou uma conta que era falsa, terminou com uma pergunta:

Quem tem estado atento às intervenções de Ascenso Simões nos últimos anos sabe bem qual é a resposta.

Oferecemos viseiras de protecção a profissionais de saúde e lares

Todos os empregos importam, mas há empregos mais importantes que outros…

Causaram indignação as palavras do CEO da padaria portuguesa. Já se sabe que o rapaz tem dificuldade em passar a mensagem, que nem interessou muito à maioria, ávida por bater no mensageiro. Era o que faltava um patrão ter dificuldade em pagar salários ou ameaçar despedir. O governo já indicou o caminho às empresas, endividem-se e logo se vê. A conta há-de chegar.
A cereja em cima do bolo para a turba que exulta com o aproveitamento da crise que atravessamos para promover a sua agenda ideológica, foi a graçola do primeiro-ministro dirigindo-se ao líder da Iniciativa Liberal, sugerindo que mudasse o nome para Iniciativa Estatal, a qual mereceria logo ali a resposta que após impor restrições aos portugueses, António Costa faria bem promover a mudança de nome do partido que lidera para Partido Fascista. [Read more…]

«Centeno admite recessão», mas os Açores admitiram receção

OK. Efectivamente, convém que Centeno esclareça a *receção económica dos colegas dos Açores. Eis o pdf (pp. 15 e 16). Exactamente.

Sondagens e outras coisas que não interessam

No tempo em que havia futebol e, consequentemente, programas em que se discutia corrupção e arbitragens, era vulgar perguntar aos telespectadores, através de inquéritos, quem seria o futuro campeão nacional ou se pensavam que o árbitro teria prejudicado ou beneficiado determinado clube em determinado lance. Confesso que nunca fiquei espantado com os resultados. Mais: nunca estive interessado em conhecer os resultados.

Hoje, fiquei a saber que, de acordo com uma sondagem, os portugueses (é sempre assim que anunciam o resultado de uma sondagem) têm uma opinião positiva acerca da actuação do primeiro-ministro e do presidente da República ou vice-versa. Se fosse ao contrário, também não me admiraria. Mais: não estou interessado.

Mesmo sabendo que é complicadíssimo gerir um país nas circunstâncias em que o mundo se encontra, haveria outras sondagens mais importantes. Por exemplo: quantos profissionais de saúde pensam que António Costa estava enganado (ou que mentiu) quando afirmou que não faltava nada nos hospitais nem era previsível que viesse a faltar?

Há muitos argumentos contra: que devemos estar todos unidos, que o corporativismo pode atrapalhar, que pode haver pessoas do contra. É tudo verdade, mas eu continuo a preferir que as pessoas de cada área falem da área em que trabalham. Na verdade, as sondagens nem sequer fazem muita falta, sobretudo se dependerem de politiquice ou de clubismo, que são mais ou menos a mesma coisa.

Je suis Uderzo

Hoje, morreu-me Uderzo. Esta construção verbal, não sei se uma reminiscência da voz média, é perfeita para exprimir que as mortes de outros nos afectam, que há mortes que nos matam um bocadinho.

Não cheguei ao ponto de chorar ou de ficar depressivo, nem sequer melancólico, até porque, por profundo egoísmo, fico satisfeito por saber que a morte de Uderzo não levou – nem eu deixava – os meus velhos álbuns das aventuras de Astérix, que continuam alinhados, sempre à espera de mais uma releitura ou, até, de uma consulta para recordar um diálogo genial criado pelo Goscinny ou um desenho brilhante do Uderzo. Pegar num desses álbuns (e cheirá-lo, claro) é, também, a garantia de que volto a ter dez anos e estou deitado ou sentado, a rir-me e a comer as raivas feitas pela minha avó ou pela minha mãe (ainda há migalhas arqueológicas espalhadas pelos livros). [Read more…]

A vida em estado de normalidade

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Vulcão de areia e tocha de fumo, Costa Nova, 2019.

[Pedro Guimarães]

Numa sociedade perfeita, medidas de contenção como as actuais não teriam qualquer consequências na Economia e não passariam de um pequeno mal estar fruto do afastamento social necessário. O estado de emergência devia ser o estado normal, porque é apenas no mundo virtual que não vivemos em permanente emergência: climática, social, ambiental, demográfica.
Por isso mesmo, no mundo real, tudo o que é desnecessário, destrutivo e predatório, como o é a mobilidade e o consumo excessivos, deveriam ser questionados criteriosamente, em vez de financiados os postos de trabalho que daí resultam.
Portugal, como tantos outros países, vive uma crise sanitária a que se seguirá um crise de negação. A procura de soluções faz-se recorrendo a mecanismos que não contemplam curas, apenas curadorias, curandices.
A solução, inevitavelmente, virá de fora, de um país socialmente mais flexível e apto à mudança, em que as grandes empresas estratégicas e seus empregados serão públicos, logo afetos à causa comum. Nesses países, o conceito de trabalho será redefinido, nenhuma gripe poderá parar o sistema: uma grande empresa de aviação poderá em poucos meses se transformar num grande prestador de serviços de saúde, uma fábrica de automóveis poderá em pouco tempo produzir equipamentos médicos.
E ninguém irá perder a sua individualidade por causa disso.

Para grandes males, grandes remédios – Rendimento Mínimo Incondicional

Numa petição europeia apela-se à União Europeia, e ao Eurogrupo em particular, no sentido de ser criado um instrumento financeiro que permita aos estados-membros da UE instituirem rapidamente um Rendimento Mínimo Incondicional como medida de emergência que, de forma célere e sem complicações burocráticas, permita aliviar todos os cidadãos da Europa cuja segurança económica e existência se vê ameaçada pela crise provocada pelo coronavírus.

“Desde a última grande crise de 2008, a UE já injectou milhares de milhões de euros no sector financeiro para colmatar as falhas do mesmo. Chegou a hora de apoiar as pessoas.”

 

Toda a Crise é uma Oportunidade

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#oportunidade

Howl*

 

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Há anos, precisamente nos idos anos setenta, num teste de História no liceu, uma das perguntas era esta: comente a seguinte afirmação – “A História começa na Suméria” .

A frase era nem mais nem menos do que um título de um livro, publicado cá pelas Edições Europa-América, da autoria de Samuel Noah Kramer. Era a questão do aparecimento da escrita, e a partir daí considerava-se que a História começava.

Um marco no tempo e no calendário. Outro é o nascimento de Cristo, temos o tempo aC e dC. (há naturalmente outros acontecimentos e outros calendários, no Oriente por exemplo).

Na investigação científica, especialmente em Arqueologia, quando se trata de datações com base no carbono 14, os resultados são apresentados em anos, mas com a menção BP (before present).

E por aí fora.

Ainda hoje ouvimos os mais velhos (cá e na Europa) dizerem “isso foi antes da guerra”. Referem-se, como é óbvio, à II Guerra Mundial.

A partir de agora teremos outro tempo e outro calendário, e desta vez para todo o mundo, aC19 e dC19.

*Allen Ginsberg, 1956

A imagem  (foto minha) é de um painel existente no Museu de História Natural, secção de Geologia, em Londres

Telegrama aberto à comunidade educativa

Em primeiro lugar, e respeitando algum corporativismo, escrevo aos meus estimados colegas que estejam obcecados em inundar os alunos com trabalhos para casa. Nestes tempos extraordinários, os alunos e as famílias precisam, também, de paz, de alívio para a tensão. Manter os alunos activos faz sentido, mas é preciso não exagerar. As vossas intenções serão as melhores, mas é dessas intenções que o inferno se alimenta. É preciso lembrarmo-nos, ainda, de que há muitos alunos com poucas ou nenhumas condições de trabalho em casa, porque um computador é um luxo.

Há uma razoável quantidade de idiotas que afirma que os professores não trabalham. Um idiota nunca aprenderá por muito que se lhe explique. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha por causa de uma razoável quantidade de idiotas. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha, porque isso é idiota. Vale a pena trabalhar, o que implica, no contexto actual, uma série de decisões que podem ir no sentido de aliviar o trabalho dos alunos. [Read more…]

Crónicas do Rochedo 31º – Ainda o Turismo e os supostos apoios

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Depois da publicação da Crónica anterior, vou continuar a desenvolver a problemática económica que se avizinha para o turismo agora na óptica dos apoios já tornados públicos. Para se perceber a grandeza do problema é ler a crónica anterior.

Analisando o que já está previsto e publicado pelo governo (site IAPMEI e PME Investimento) e que se pode resumir a apoios de tesouraria e fundo de maneio, acrescentando os apoios ao sector da Restauração e Similares (profundamente dependentes do Turismo na Grande Lisboa, Área Metropolitana do Porto, Algarve, Madeira, Açores, Região do Douro e em muitas das nossas cidades), temos o seguinte:

Em praticamente todas as linhas de crédito os spreads bancários (sublinho, apenas no que toca aos spreads) variam entre um mínimo de 1,928% e um máximo de 3,278%. 

Não encontrei de quanto é o juro nem tão pouco, se existem, os custos bancários para processamento e afins destas medidas. Nem que tipo de garantias são exigidas.

Vamos lá ver se nos entendemos: 

Neste momento, todo o sector do Turismo assim como o da restauração e similares dele dependente estão numa realidade surreal: receitas zero. Para piorar a situação, a principal época de facturação está compreendida entre 15 de junho e 30 de setembro. Ora, como facilmente se compreende atendendo à realidade actual, a chamada “temporada de 2020” foi ao ar. Não se enganem, não vamos ter turistas estrangeiros a tempo de a salvar. Mais, é muito bonito ver algumas iniciativas que circulam pelas redes sociais com a temática do “ajude as nossas empresas e este ano faça férias em Portugal”. Desculpem mas não resolve. A estrutura existente está desenhada para uma realidade de, pelo menos, 20 milhões de turistas. O aumento incrível do número de hotéis (e similares), restaurantes, bares, lojas de lembranças (etc) e o correspondente aumento de trabalhadores nessa área não é sustentável apenas e só com o turismo interno. Nem a esmagadora maioria dos portugueses vão ter, no final de tudo isto, capacidade financeira para esse luxo a que se chamam férias. Pensem um pouco, com a excepção dos funcionários públicos, todos os outros portugueses terão, no mínimo e a correr bem, um corte de 30% nas suas receitas. A correr mesmo muito bem. E, já agora, para piorar o cenário, por exemplo, aqui em Espanha também circulam as mesmas iniciativas de este ano fazer férias em Espanha. Suponho que será um sentimento generalizado noutros países…

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Diário da quarentena – A vida em tempos de Covid-19 (2)

Coisas que me ocorrem durante o auto isolamento:

  • Estou a adorar ver toda a gente fazer videoconferências de phones e à frente de estantes com livros. Espero que continue até depois de isto acabar. Deixem de ir a estúdios de televisão. Sejam o vosso próprio canal de Youtube.

  • Ocorre-me também que nunca cheguei a falar do documentário do Herzog sobre o Gorbachev. Vejam. Estará algures na internet (Netflix?). Extraordinário porque ele – Gorbachev – o é, e porque Herzog o tem como herói. Herzog começa por lhe dizer que é alemão e que o primeiro alemão que Gorbachev conheceu provavelmente queria matá-lo. Gorbachev ri-se e desmente, dizendo que os primeiros alemães que conhecera eram seus vizinhos, muito simpáticos, e davam-lhe doces. Extraordinário também pela frase do pai de Gorbachev após ter chegado a casa da Guerra, we fought until we ran out of fight. That’s how you must live. Extraordinário, também, e talvez sobretudo, pela forma como Gorbachev fala da falecida mulher.

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