Grécia, Europa, vamos ao que interessa…

Não entrei no circo mediático em torno da Grécia. Percebo o interesse, fui lendo aqui e ali diferentes argumentos técnicos e ideológicos, mas nunca tive grandes dúvidas que a Grécia iria continuar no Euro, pelo menos para já, desde logo por razões internas, apesar da vitória eleitoral do Syriza, a saída da moeda única não constava do programa de governo, muito provavelmente por saberem que a maioria dos eleitores gregos não querem ouvir falar no assunto. Por outro lado a U.E., por muita influência que a Alemanha possa ter, é mais que que a mera vontade de Berlim, não poderia expulsar um país, porque isso não está escrito em qualquer tratado e nem mesmo Angela Merkel queria ficar com o odioso para si. Todos cederam politicamente um pouco, permitindo agora continuar a discussão se Bruxelas obrigou o governo grego a recuar no seu programa  ou pelo contrário, Tsipras e Varoufakis abriram um precedente na U.E., posição esta muito oportuna para fins eleitorais em Portugal e Espanha.

Falta-me tempo e vontade para entrar nestas guerras de alecrim e manjerona. Nem tenciono votar nas legislativas que irão eleger o próximo governo da choldra, porque não mudará a incompetência e mediocridade dos partidos. É ver da esquerda à direita, salvo honrosas excepções, a falta de quadros qualificados nas bancadas, substituídos por carreiristas formados nas jotas. PS que será provavelmente o partido do futuro governo e PSD que lidera o actual, estão parasitados por tralha inqualificável. E não falo apenas dos deputados que são a face mais visível, mas também de assessores e boys sem qualquer percurso profissional relevante, vivendo à custa do contribuinte. A única mudança expectável será o rotativismo costumeiro, que substituirá lá mais para final do ano os titulares de cartão laranja pelos seus congéneres de cartão rosa. António Costa incapaz de apresentar programa, para fugir à discussão aproveita já o momento para dizer que não pode fazer promessas, quando o resultado vai depender de negociações a 28.

Voltando ao principal, o Euro. A existência de moeda única implicou a perda de soberania por parte de todos os Estados aderentes. O tão criticado Tratado Orçamental que limita o défice, procurando travar que os Estados se endividem para lá do razoável é um instrumento fundamental para fazer funcionar a moeda única. Goste-se ou não. Poderíamos discutir se o limite de 3% está correcto, no final poderíamos chegar a um entendimento se era 5% ou 10%. Essa discussão é completamente irrelevante. Poderíamos criar uma folga, ganhar tempo, mas estaríamos apenas a adiar um problema, pois mais cedo ou mais tarde, nem que fosse daqui a 10 anos, o assunto voltaria à ordem do dia. Algum governo haveria de chegar ao limite mais cedo que os restantes. Para existir moeda única são necessários alguns pressupostos, desde logo regras aceites por todos. Obviamente as regras são passíveis de mudança ou alteração, mas existem e sempre existirão limites. Desde a primeira hora sempre defendi que é muito difícil para não dizer impossível, criar uma moeda comum com diferentes políticas fiscais e económicas. Seria como avançar para um exército comum, mas continuar a permitir que cada país pudesse decidir por si os gastos militares e se entrava em guerra comprometendo com a sua decisão os restantes. Não funciona.

É moda criticar os actuais líderes europeus, dizer que lhes falta a visão estratégica dos políticos das décadas de 80 e principalmente 90, que aprofundaram a integração europeia. Nada mais falso. Foi a demagogia nos 90’s que provocou a fuga em frente, avançando rumo ao federalismo sem o discutir, assinando Tratados que rejeitados por eleitores como Maastricht na Dinamarca, que o cartel europeu logo tratou de mandar repetir até ser aprovado, mais tarde haveriam de repetir o feito na Irlanda com o Tratado de Lisboa e nos trouxeram até aqui. PS e PSD que prometeram referendar matéria europeia e nunca o fizeram, estão profundamente comprometidos nesta questão. O outrora eurocéptico CDS/PP juntou-se à gamela e mudou de posição. Longe vão os tempos em que o deputado Paulo Portas, sentado ao lado de Manuel Monteiro, Manuela Moura Guedes e Jorge Ferreira entre outros, dizia que era bom para o país os ministros de António Guterres irem negociar a Bruxelas saudavelmente pressionados pelo parlamento português.

A falta de discussão é transversal à esmagadora maioria dos países europeus, excepção feita ao Reino Unido, que desde Margaret Tatcher, colocou sempre as questões europeias em discussão interna. E sempre foram criticados no continente por se mostrarem eurocépticos, mas continuaram a prática qualquer que fosse o governo. Major, Blair, Brown e agora Cameron, ninguém ousa ceder soberania sem consultar o povo. E nem sonham avançar para referendo porque sabem à partida o resultado. Até mesmo um referendo sobre a permanência na U.E. provoca calafrios em Westminster e Bruxelas, imagine-se o que seria trocar a Libra pelo Euro.

O problema grego poderá ter sido resolvido ou apenas adiado, o Euro poderá sobreviver à saída da Grécia caso o governo do Syriza estique a corda e aconteça uma ruptura com Bruxelas, pode até vir a acontecer o mesmo a Chipre e Portugal. Mas caso a questão se coloque em Espanha ou Itália, o caso muda completamente de figura. Porque são “too big to fail”. Como aconteceu na questão do resgate, terá que se encontrar outra solução. Também eram demasiado grandes para serem resgatados. Mas cedo ou tarde a discussão terá que ser colocada em cima da mesa. O Euro. Que Europa queremos? Que rumo traçamos? Onde tudo pode e deve ser discutido pelos povos, da integração ou federalismo ao regresso à CEE da livre circulação de pessoas e bens. Sem tabus nem golpes nas costas dos eleitores. Até lá continuaremos a ter uma europa de burocratas, de costas voltadas para os cidadãos cada vez mais desinteressados, até que o barril venha a explodir… Ou que o sistema todo ele colapse.

 

 

Comments


  1. «(…) Nem tenciono votar nas legislativas que irão eleger o próximo governo (…)». Está tudo dito, nem percebo por que escreveu tanto neste post António de Almeida.

  2. joao lopes says:

    tem razão quando diz que o ps,psd e cds(tudo com letra pequena) estão cheios de jotas opurtunistas e mercenarios(por isso mesmo não voto nestes partidos).tem razão quando diz que o bloco central é ps e psd ,ou seja uma e a mesma coisa e tem razão quando critica uma possivel implosão da EU…mas eu vou votar,não sei bem em quem,mas vou,nem que seja um voto em branco

  3. Alexandre Carvalho da Silveira says:

    Muito bom, eu subscreveria este texto sem reservas. A única diferença é que eu tenciono votar na próximas legislativas, e como diz o comentador João Lopes, nem que seja com um voto em branco.


  4. Concordo, no geral. Mas todos esses problemas que o Euro acarreta não estarão precisamente relacionados com a dificuldade que alguns países têm em cumprir os tais 3%? Portanto os défices não serão um sintoma, e não a causa dos problemas?


    • Se fosse 5% teríamos o mesmo resultado. Para uns seria mais fácil que outros. A única variante seria o valor da moeda em si mesma. E pode colocar 10%. A partir do momento em que exista um limite, qualquer que ele seja, o problema existe. Portugal não é a Alemanha. E nunca o será.
      A única possibilidade seria existirem limites diferentes, mas a simples existência de limites, são isso mesmo, um travão à soberania nacional. Que poderemos aceitar ou não, isso é outra questão. A verdade é que nunca o debatemos. Nem nós, nem os outros países.
      Por isso eu diria que o problema é a existência do Euro em si mesma. Os défices, ou melhor, os seus limites, são consequência da existência da própria moeda única. Enquanto trouxe vantagens, como foram as descidas dos juros, que permitiram folgas orçamentais, ninguém reclamou como é óbvio. Esgotada essa folga, temos o problema na agenda política. Se neste momento decidissem permitir um défice de 6%, ficaria criada no imediato uma folga, haveria dinheiro para gastar e teríamos os políticos no seu melhor (pior)… Uma vez chegados lá, voltaríamos à discussão dos dias que correm.
      Dito isto o Euro tem vantagens e desvantagens. Nunca houve um debate legítimo e tomada de decisão democrática no abdicar dessa parcela de soberania nacional. Tudo feito nas costas dos cidadãos.

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