Que giro!

Apresento-vos o primeiro emigrante português residente longe da pátria. É dos lados de Ourém e disse-me pelo telefone que estava com pena de ter perdido o filme, da responsabilidade de Al Gore, ex-vice presidente dos Estados Unidos, sobre as malfeitorias que vários países, incluindo o seu, fazem à Natureza. Informo que o filme está no cineminha do meu bairro e que eu, por falta de tempo, também ainda o não vi. Acertámos ir os dois nesse mesmo fim de tarde. E fomos. As falas do Al Gore eram claras. O filme, em si, era barulhento a valer:desabamentos, ventanias, estrondos, sirenes. Nós, de olhos colados no ecran. E as sirenes que não se calavam. Até que a imagem desapareceu, as luzes se acenderam, e se ouviu uma voz calma e bem timbrada a pedir-nos que, sem pânico, mas rapidamente, saíssemos porque havia um incêndio no prédio. Íamos a meio da escada rolante quando pelo altifalante fomos avisados que devíamos ir à bilheteira receber outro bilhete, para o caso de querermos ver os quinze minutos de filme que que nos faltavam, ou para receber o dinheiro do bilhete se não estivessemos interessados. O de Ourém disparou a pergunta: “precisa de ver mais filme para saber quem são os gajos que andam a lixar o mundo?”. Reconheci que não, não precisava. Chegados ao átrio, o rapaz foi direito à bilheteira e veio de lá com o dinheiro.
Tínhamos ido ao cinema de borla. Este é o português desenrascado.

O emigrante número dois era da margem sul de Lisboa. Digo era, porque já partiu. Foi dos primeiros membros da comunidade, num tempo em que não havia nenhum comércio português. O Joe ia todas as semanas ao talho abastecer-se. Reparou que deitavam para o lixo cabeças de porco inteiras. Pediu ao patrão, um loirão de bigodes, que lhe desse a cabeça dum porco. O outro, admiradíssimo, deu. A cena repetia-se pelo ano fora. Até que um dia o loirão perguntou a medo: “Oh Joe, como é que vocês comem isso?”. Sem inglês bastante para dar a receita, o Joe convidou o açougueiro e os empregados para um almoço na casa dele. Chegado o domingo, os “bifes” chegaram a casa do Joe todos lampeiros e ramo de flores na mão para a patroa. Sobre a alva toalha da mesa já sorriam o pão, o vinho, as azeitonas, as fatias de presunto, o queijo, os pastéis de bacalhau. Depois veio a cabeça de porco disfarçada com repolho, nabos, cenouras, feijão branco. E muito vinho. Ao fim do dia, foram-se embora um bocado tortos mas com o ar de quem tinha estado no paraíso. Dali a um tempo, quando o Joe se foi aviar e pediu a cabeça de porco, o loirão disse-lhe em surdina: “Joe, isso agora custa um dólar”. Ao contar-me a história, tantos anos depois, o Joe ainda estava indignado: “Não se pode ensinar nada aos canadianos. Eles aprendem logo tudo e em benefício deles”. Este é o português escaldado.

Segue-se o terceiro emigrante. Um padre açoreano. Nasceu em terra pobre, numa família pobre que vivia as incertezas da pesca. Desde menino na faina, sonhava ser frade e pintor daqueles livros que o missionário mostrava na Semana Santa. Um dia, uma dama rica soube disso e ofereceu-se para lhe pagar o curso nas Belas Artes. Na mesma altura, morre-lhe um cunhado de repente, nas terras geladas do Canadá. Deixou na ilha a mulher e dois filhotes agarrados à saia. O candidato a pintor foi à benfeitora, pediu escusa, emigrou e tomou a seu cargo a irmã e os filhos. Trabalhou e estudou. Quando os sobrinhos saíram   para casar, a casa que deu à irmã já estava paga e ele era oficial da emigração. Ofereceu a si mesmo uma longa viagem pela Europa para, sózinho, tentar perceber onde tinha ficado o sonho. No regresso, foi para o seminário e foi ordenado. Os arranjos de altar feitos por ele são obras de arte. Este é o português generoso, o que dá a camisa e até a vida se for preciso.

O número quatro, um ancião dos Açores, disse-me de ollhos marejados: “Saímos da nossa terra e ficamos com o coração partido ao meio toda a vida”. Este é o português sábio pela experiência.

Do número cinco, também açoreano,  direi que desabafou comigo nestes termos: “Os políticos são uns grandes coriscos. Arranjam dinheiro para tudo, só nunca arranjam para fazer a ponte”. Eu quis saber que ponte era essa. Explicou: “Sobre o mar. A gente metia-se no carro, levava comida e bebida, e em três dias chegávamos à nossa terra”. Este é o português a quem a saudade dá sonhos loucos.

Acabo com o emigrante número cinco. O que me telefonou para dizer: “Está cá o Ti Zé das Medalhas”. É assim que chamam ao José Cesário, secretário de estado das Comunidades, deputado pelo PSD, antigo mestre escola nas Beiras, muito dado a visitar as comunidades para condecorar a eito. O de Lisboa, acrescentou: “Deve cá vir por causa dos votos ou então a ver se nós salvamos os bancos. Grandes malandros”! Este é o português sem peneiras nos olhos.

 

Pegue-se no desenrascado, no escaldado, no generoso herói sem homenagem, no sábio, no louco sonhador e no de olhos abertos, e multipliquem-se por cinco milhões para termos o retrato da diáspora portuguesa.

 

Foi por isso que achei tão giro o que o governo anunciou para promover o regresso dos que, ainda não há muito tempo, convidou a expatriarem-se. Autêntica venda do vigésimo premiado. Pura vigarice. Dizem os jornais que o governante rapazola que anunciou esta facécia ao país se chama Lomba. Creio que é gralha, é erro. O rapaz deve chamar-se Alomba. Porque, de facto, alomba com a falta de vergonha de quem  manda no governo. Deve ser muito triste comer o pão da mentira. Acorde, rapazinho do governo, saia, emigre, abra os olhos à realidade, faça-se um homem.

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