Postal de Sevilla #3

Que nunca seja ‘la azquena’

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este postal e o próximo são escritos já de Aveiro, ainda que neste as fotografias sejam de Sevilha ou dos seus arredores. Foram 4 dias cheios para mim, ainda que só dois os tenha de facto passado em Sevilha. Dois dias inteiros, três noites e uma manhã. Dias de dormir, exceto hoje que dormi mais, entre três a cinco horas. Dias que foram dois num só. Na verdade dias de estar acordada quase 20h. Trabalhar entre 7 a 10 horas e ir ‘de copas’ a seguir. Querer fazer muita coisa em pouco tempo. Querer estar com os colegas que também são, alguns, amigos e, todos, pessoas de que gosto. Aproveitar bem o tempo. Trabalhar, mas também rir muito, brincar, falar de política, levantar o punho cada vez que uma máquina fotográfica nos observa.

Do dia antes de ontem escrevi já um postal, sem fotografias. Sevilha é uma cidade magnífica. Dizem-me que tem o maior centro histórico da Europa e, pelo que andei (e não vi metade) acredito que assim seja. Sevilha e o seu folclore. As procissões, as meninas vestidas de Sevilhanas, os bares recriados como tradicionais para os turistas. A ‘movida’ intensa de sexta e sábado à noite. O flamenco mal cantado nas esplanadas, os turistas americanos, as mil e uma tapas e montaditos, as cañas frescas, o tinto de verano con blanca, uma exposição de ‘Genesis’ de Sebastião Salgado no meio de uma praça. A catedral, o alcazar, o pátio Banderas onde fica uma parte da UIMP, a Plaza Carmen Benitez, onde fica o hotel onde dormimos. Já não me lembrava que Sevilha fervilha e não é (só) do calor que falo.

Além do centro histórico, Sevilha é menos bonita. Subúrbios gigantes, prédios enormes, vias demasiado largas para terem uma escala humana. Quando vamos deixando Sevilha para trás, o caos acentua-se. O amarelo dos campos também, anunciando uma região seca que nem as muitas barragens ‘contra’ o Guadalquivir parecem reverter. O Guadalquivir é um rio canalizado ao longo de muitos e muitos quilómetros. Canalizado para evitar as inundações. No centro de Sevilha o ‘rio vivo’ acompanha, entre muros, um pedaço de ‘rio morto’, contou-nos a Carmen, sevilhana, que também nos ensinou a diferença entre Flamenco e sevilhanas, a colocar as mãos para dançar (primeira lição, muito básica), a interpretar a paisagem e o espaço que ontem visitámos, nos arredores da cidade. Espaços periurbanos, desordenados, com dezenas de construções ‘congeladas’, com equipamentos e infraestruturas mal planeados. Um urbanismo espontâneo que cresceu ao longo da linha de caminho de ferro, do rio e das autoestradas.

Que diferença entre este território e os dos pirinéus navarros e aragoneses, que visitámos há mais ou menos duas semanas. Isto ensina-nos muitas coisas que devem ser analisadas e interpretadas. Muitas coisas sobre os territórios rurais e a sua imensa pluralidade. Muitas coisas sobre as mobilidades. Muitas coisas sobre a sobrevivência e a resiliência dos territórios e as suas múltiplas causas e materializações. A Carmen é uma ‘guia’ perfeita. Vamos de novo (embora haja neste dia mais 3 mulheres que nos pirinéus) as quatro ‘talibanas del genero’, como nos chamou o Manolo, pensando que resumia assim bem as nossas constantes disputas e reivindicações por maior igualdade em todas as situações, incluindo as académicas e aquelas em que participamos. Os homens são estranhos e, apesar de estes que vão em outros carros, visitar a Gran Vega, serem dos melhores que conheço… a maior parte continua a ser estranha nestas questões.

Vamos parando nos pueblos, tirando fotografias, conversando sobre o que vemos durante quase 9 horas. Acompanhados, quase sempre, por campos infinitos de girassóis, que alegram o seco cenário e que, sobretudo, me alegram a mim. Campos infinitos de girassóis são a felicidade suprema. E vou no carro, por vezes um pouco alheada da conversa permanente e exclusivamente em castelhano, a rir de alegria para os campos imensos de grandes e profundamente amarelos girassóis. Não pode haver nada mais bonito. Tenho quase a certeza que não há nada mais bonito.

Ao jantar somos menos que no dia anterior. Tapeamos, eu, a Elvira, o Andoni, o Mariano e o Jesus. Estou muito cansada e a ficar de novo rouca (sim, ainda estou) do ar condicionado, das passagens contínuas entre o frio e o calor. Voltou a doer-me a garganta. Hoje, agora mesmo, ainda me dói a garganta, apesar de já não ter ataques de tosse medonhos como há dois dias. Apesar disso, a seguir ao jantar andamos até ao Guadalquivir, passamos a torre do ouro mas falta-nos a coragem para atravessar o rio. Regressamos de taxi ao hotel. Mas o Andoni lembra-se (claro) de irmos tomar ‘la ‘azquena’.

‘Azquena’ significa a última bebida, em Basco. Pois vamos ‘tomar la azquena’ os quatro que restamos. É uma da manhã, quase. Tomamos uma ‘azquena’ e logo outra e a seguir outra, enquanto a conversa flui sobre a esperança deles (e minha a seu respeito) que as coisas mudem de facto em Espanha, nas diversas autonomias e municipalidades. Parecem estar já a mudar em muitos sítios. Brindamos várias vezes com as também várias ‘azquena’ à mudança maior, em outubro em Portugal, em novembro aqui em Espanha. A Txus chega, com amigos, já passa das duas. Tomamos mais uma ‘azquena’ todos e logo outra e depois outra e mais não sei quantas. Eu e o Jesus conversamos muito sobre a guerra civil, os livros da guerra civil, as estórias da guerra civil. Acho que é um dos nossos temas mais recorrentes. E nunca acabado, claro. Saímos mais cedo que os outros, depois de mais uma ‘azquena’… afinal somos os mais velhos do grupo e são 4 da manhã de mais um dia que foi dois. Estamos mortos de cansaço.

Quando me deito penso que, com estas pessoas, é difícil tomar ‘la azquena’ e ainda bem. Que venham muitas mais ‘la azquena’.

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