Alguém adormece em Kalachi, um autocarro arde em Buenos Aires


Andamos todos uma pilha de nervos. Eu ando. E vós, aposto que também. São injustiças por todo o lado, abusos de poder, é uma carta que chega das Finanças e a gente fica a tremer (ministra Cristas dixit), é a impunidade dos poderosos, é a deterioração de um modo de vida, com direitos que achávamos adquiridos, com garantias que pensávamos inalienáveis. E a revolta que isso nos provoca e que há-de tornar-se uma úlcera, se não coisa pior. O cidadão irritado, espoliado, indignado e de mãos atadas. O cidadão sozinho contra um sistema iníquo que, tal como a serpente que morde a própria cauda, foi o mesmo cidadão que permitiu que se fosse consolidando.

Por tudo isto, a cidadã pilha de nervos que sou eu gostou de conhecer, há pouco, a personagem do grande actor Ricardo Darín numa das curtas-metragens do filme argentino “Relatos Selvagens”, um engenheiro a quem passam uma multa de estacionamento indevida e que por isso se lança numa cruzada contra o sistema. Pelo meio, perde o emprego, a sua mulher pede o divórcio, a filha afasta-se dele, e até acaba por perder a liberdade. Depois de embater na arbitrariedade de quem manda e na apatia e falta de solidariedade de quem, como ele, deve obedecer, acaba por decidir mandar pelos ares (ele é um especialista em implosões) as instalações da empresa que lhe havia cobrado indevidamente, e, por isso, é detido mas transforma-se num herói popular, alvo de atenção da imprensa e das redes sociais. O povo baptiza-o de “engenheiro Bombita”.

O mesmo povo incapaz de organizar-se para mudar o estado das coisas é aquele que consagra o Robin dos Bosques local, o justiceiro capaz de boicotar o sistema. Pedem-lhe que rebente com tal sítio, e outro, e outro, que ponha fim a todas as injustiças. Está preso, sim, mas tem a satisfação de ter feito alguma coisa para se vingar dos seus perseguidores e de, com isso, ter obtido o reconhecimento dos seus concidadãos. É o engenheiro Bombita, o inimigo do sistema.

As personagens das outras curta-metragens que compõem o filme têm em comum o facto de começarem por ser pessoas normais, tão normais quanto as circunstâncias o permitem, com pavios que começaram por ser mais ou menos longos mas que apanhamos já em chamas, e assistir às suas histórias acaba por ser aguardar pelo momento em que esse pavio se consumirá e elas cruzarão a linha, com consequências mais ou menos gravosas, mas sem volta atrás. O que verdadeiramente assusta nessa loucura temporária é que a reconhecemos em nós. Quem não esteve a ponto de perder a paciência por completo? De pegar no extintor e partir o vidro da repartição em que somos tratados pelo número de contribuinte, pelo número da conta bancária, pelo de beneficiário da Segurança Social? De perder as estribeiras de cidadão pacato e ordeiro e transformar-se num insubmisso que não tolerará mais faltas de respeito? Num selvagem, enfim? Quando estive em Buenos Aires, já lá vão uns anos, estava o país a recuperar da grave crise, recordo-me de ouvir que nessa tarde, num bairro dos arredores, uma multidão enfurecida depois de ter estado horas à espera de um autocarro, quando finalmente o viu aparecer pegou-lhe fogo e celebrou enquanto o via arder.

Andei a pensar nisso uns dias e lembrei-me de Kalachi, a pequena vila do Cazaquistão. Aí vive-se um clássico das histórias de terror: um mal vago, impreciso, que vai atingindo os membros de uma comunidade, um por um, sem que ninguém consiga determinar a sua origem e muito menos descobrir como travá-lo. Há um primeiro caso, logo outro, e ao terceiro ou quarto percebe-se que os casos não estão isolados, que se trata de uma epidemia que poderá atingir qualquer um. Tem-se medo de falar, tem-se medo de perguntar, suspeita-se de que as autoridades não dizem a verdade toda (mas quando é que as autoridades dizem a verdade toda?), há famílias que fogem com as suas crianças e deixam tudo para trás, outros resistem e passam as noites sem pregar olho. Todos vivem apavorados, com medo de falar, com medo de sair, com medo de ser o próximo.

A quem vive em Kalachi pode acontecer o mesmo que a Maria Felk, que num momento estava a ordenhar uma vaca, e no seguinte dormia um sono profundo. Maria dormiu dois dias e duas noites, por vezes agitada pela tentativa de acordar, murmurando que precisava de ir ordenhar as vacas, e acordou no hospital, para seu grande espanto. Foi o primeiro caso, em 2013, mas seguiram-se vários. Uns dormem um dia ou dois, outros chegam a estar uma semana sem que ninguém consiga despertá-los.

Chegaram, entretanto, equipas de cientistas para estudar o solo, a água, o ar. Entrevistaram os habitantes, procuraram sem sucesso indícios de vírus, bactérias. Uma antiga mina de urânio levantou suspeitas, mas não se conseguiu encontrar um elo entre uma possível contaminação radioactiva e o sono profundo. Nenhuma teoria foi confirmada até ao momento, apenas se sabe que o fenómeno só acontece ali, em Kalachi. Como a bela adormecida do conto, os habitantes de Kalachi caem num sono profundo do qual virão a despertar sozinhos, sem beijo salvador, dias mais tarde. Em alguns casos, nos dias seguintes sofrem de alucinações e todos se queixam de dores de cabeça e perdas de memória. Acontece indistintamente a homens, mulheres, velhos e crianças, a cidadãos nascidos ali e a estrangeiros de passagem.

Como não há estranheza a que os seres humanos não se habituem, os habitantes de Kalachi mantêm o seu saco preparado com tudo o que podem precisar caso sejam internados no hospital. Mas temem pela sua saúde, e em particular pela das suas crianças, e sentem-se negligenciados e provavelmente enganados pelas autoridades.

Tenho seguido as notícias sobre Kalachi como quem acompanha um folhetim. Espero pela resposta racional que a ciência há-de dar a tal fenómeno, mas aprecio-o pela sua força metafórica : o torpor que atinge os cidadãos e os mergulha num sono profundo do qual não conseguem despertar. As pessoas de Kalachi estão a sós com o seu medo. Nas histórias de terror, a comunidade não se junta para esconjurar o seu medo, não se reúne no centro da vila, não acende a noite negra com as tochas de cada um, antes ficam todos em casa, com as portadas cerradas, as trancas à porta e o medo que os há-de sufocar. Quando a epidemia termina, os forasteiros (vindos de outro espaço ou de outro tempo) não entendem que pode ter acontecido ali, que psicose profunda e colectiva levou toda essa gente a encerrar-se no seu terror e a esperar o pior, convictos de que nada poderia ser feito.

Uma pessoa adormece em Kalachi, um autocarro arde em Buenos Aires, e é impossível dizer que invisível fio liga ambos.

Comments

  1. 1984 demasiado próximo, demasiado real…

  2. Temos que ter calma e paciência até que a “Caverna de Platão” tenha mais um pouco de luz e possamos saír da escuridão em que nos encontramos neste mundo actualmente.Tenho muitas esperanças naqueles dois homens gregos, que estão numa luita pela dignidade do seu País, possam despertar nestes ignorantes que estão governando o mundo,unicamente pensando no TER, esquecendo o SER ; fomos criados para ser felizes nesta passagem pela mortalidade !!! Já vi um cartaz numa “manif” na Grecia pedindo a ajuda de Jesus !!! Não podemos esquecer que a Grécia é o berço da civilização ocidental !!!

  3. Rui Silva says:

    Cara Carla Romualdo,

    Não acha que aqui chegamos porque causa do objetivo de proteger os “desprotegidos”?
    Eu acredito que assim é.

    Ou seja será que ao pretendermos ajudar, causamos toda esta desgraça?

    Obs. Gosto muito de ler os seus posts.

    cumps

    Rui SIlva

    • Tenho alguma dificuldade, e não estou a ser irónica, em perceber o alcance dessa afirmação: proteger os desprotegidos causa toda esta desgraça. Como? Por quê?

      • Rui Silva says:

        Correndo o risco de sintetizar demais, acho que o problema começa quando alguém “decreta” a obrigatoriedade um homem ajudar outro homem. A ajuda tem que ser voluntária. Quando alguém idealiza algum tipo de sistema em que alguém é obrigado a ajudar alguém, segue-se inevitavelmente um caminho que nos leva ao totalitarismo.

        cumps

        Rui SIlva

        • que porcaria de comentário..por amor da Santa!se a ajuda fosse totalmente voluntária, então da parte de Ruis Silvas (infelizmente há muitos!!) o sonho de sociedades mais justas, não só baseadas em $$$$ morria sem ajuda,,,, foram gente desta que não contribuíram para o fim da 2ª G.Mundial…nem para sociedades mais democráticas… lol

          • Rui Silva says:

            Cara Teresinha,
            Vejo que não acredita na Boa Vontade, na Generosidade, na Compaixão, Solidariedade, e outros sentimentos que nos tornam humanos e capazes de feitos fantásticos entre nós, como a entreajuda a cooperação etc etc.
            Mas é pena, pois o mundo poderia ser melhor.

            cumps

            Rui Silva

          • Rui Silva, parece-me que Terezinha acredita, de forma genérica, na Boa Vontade e Generosidade, parece é, pelo teor das sua palavras, não acreditar que Rui Silva a tenha.

  4. José almeida says:

    Cara Carla, é mais uma crônica excelente. Vivemos em transição sempre. Penso continuamente como poderia ser uma sociedade mais justa e equilibrada, mas quando parece que estamos a chegar a algumas conclusões, aparecem os ‘Luis Silva’ que nos despertam desta ilusão utópica e nos fazem ‘cair na real’
    . Os meus parabéns pela crônica e por não desistir.

  5. Excelente crónica sobre a qual todos devíamos refletir. No que me diz respeito, identifico-me muito com esse pensamento e esses sentimentos. Sempre me interessei pela psicologia das massas que nada tem a ver, como sabemos, com a psicologia da pessoa.

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