A culpa é dos gregos

corridaaosbancos

Samaris, o jogador do Benfica, está tramado: até pode ficar no banco, mas será responsabilizado por qualquer mau resultado da sua equipa. Porque é grego, claro, e o demónio na Europa passou a chamar-se Grécia.

Um Verão abrasador? chuvas torrenciais? nunca mais se falará do anticiclone dos Açores, a culpa é do ciclone grego. Trema a terra um bocadinho que seja e os dedos serão apontados a Hércules, que não deixa as colunas de Gibraltar em paz.

Estou a exagerar? não, estou a apenas a caricaturar o que por aí se diz sobre a Grécia e os gregos. Um governo com cinco meses é acusado de todos os males, obra e graça dos governos anteriores que combateu. Cinco anos de austeridade falharam, por culpa dos gregos, não da austeridade, embora a mesma receita tenha tido o mesmo efeito em Portugal, na Irlanda e na Espanha, milagrosamente transformados em países onde tudo correu bem, pese que só pela nossa parte tenha desaparecido meio milhão de empregos, fora o saque a que chamam privatizações.

O grande romancista Vasco Pulido Valente, com a sua imaginação demolidora, diz que a Grécia moderna foi uma invenção dos ingleses (os milhares de gregos mortos na luta pela independência nunca existiram) e transforma a entrega da Grécia a Churchill, traição de Estaline, numa guerra civil entre democratas e estalinistas, como se ela não tivesse ocorrido entre resistentes ao nazismo e seus colaboracionistas.

Sem que ninguém lhes espete a verdade nas ventas ouço prostitutos comentadeiros nas televisões falando dos pensionistas gregos como se não tivesse havido nenhum corte nas suas pensões, e vai-se repetindo a cantiga do dinheiro emprestado à Grécia, como se não soubéssemos que apenas 15% da quantia chegou a Atenas, como se de um círculo vicioso de empréstimo para pagar empréstimo e juros de empréstimo não se tratasse, como se Portugal não estivesse nas mesmas circunstâncias e sujeito  a um dívida que nunca pagará, pelo simples facto de os nossos prostitutos e meretrizes do poder não serem em número suficiente para, colocados num bordel, renderem que chegue.

Para rematar temos o discurso da honradez, como se um país fosse uma pessoa, como se a dívida fosse pagável, como se os gregos fossem caloteiros (os alemães é que são uns santinhos), e nós um país cumpridor, onde já ninguém se recorda que quem não cumpriu as suas promessas foi este governo. Perguntar ao seu povo o que pensa disto tudo ganhou o estatuto de aberração: estamos habituados a que Passos Coelho pergunte a Merkel quando tem dúvidas. Estamos habituados a uma direita que leva séculos a trair o seu país, vendendo-se sempre que tem oportunidade. Não estranhemos, portanto, é a sua natureza, o lacrau morderá a rã mesmo sabendo que vamos todos ao fundo.

Ilustração: piada à corrida aos multibancos, o contributo do BCE para a chantagem habitual.

Comments

  1. J.Pinto says:

    A culpa não é dos gregos.

    – A culpa é do Passos Coelho, do primeiro-ministro da Espanha e da Irlanda, que não facilitaram nas negociações. Então o Passos é mesmo muito culpado, uma vez que é uma pessoa extremamente influente na Óropa.
    – A culpa é da Merkel, que não aceita emprestar mais dinheiro aos gregos;
    – A culpa é do FMI, que rejeitou prosseguir nas reuniões;
    – A culpa é dos mercados, que ficam logo atordoados só por ouvirem os anjos (ministros e PM da Grécia) falarem;
    – A culpa é do capitalismo e do neoliberalismo, porque não permitem que os gregos tenham todo o dinheiro de que necessitam aos preços que eles querem pagar (se quiserem pagar)
    – A culpa também já é do PS (ainda hoje o Carlos César veio acusar o governo grego que irresponsabilidade – isso não se diz);

    A culpa não é dos gregos, muito menos do Syriza. O PM grego e a sua equipa sempre se portaram muito bem nas negociações. Sempre, mesmo quando o ministro das finanças abondonou a última reunião. O facto de terem andado a brincar durante 5 semanas não é crime. Afinal, todas as crianças têm direito a brincar.

    Querer mais dinheiro (ao preço que me apetecer pagar) não é nenhum crime.


    • Por repetir a mesma mentira (os gregos querem é dinheiro, a Merkel é uma santa, o Passos Coelho não está a pensar nas eleições, etc. etc), não passa a ser verdade.
      Nem deixa de ser verdade que o Não Há Alternativa do neoliberalismo domina todos os governos europeus menos um.
      E gosto muito dessa do “portar bem nas negociações”. Quem se portou bem foram os que levaram a receita falhada da austeridade para casa. Então por cá tem sido uma felicidade, a economia cresce a olhos vistos.

      • J.Pinto says:

        Há alternativa a tudo. A Grécia escolheu a alternativa. Bom, não era bem esta alternativa…….o Syriza prometeu que não ia negociar com credores e andou 5 meses a tentar negociar com a troica (perdão, instituições)….

        Quanto à receita falhada, em parte concordo consigo. A receita era boa, mas saiu falhada porque os que mamam na teta do Estado não deixaram.

        Quanto ao neoliberalismo, volto a dizer-lhe: nunca Portugal tributou tanto os portugueses; nunca a despesa pública foi tão elevada…… Se isto é (neo) liberalismo, o que será o socialismo ou comunismo? Despesa ainda mais elevada? Impostos ainda mais elevados?

        “Por repetir a mesma mentira (os gregos querem é dinheiro, a Merkel é uma santa, o Passos Coelho não está a pensar nas eleições, etc. etc), não passa a ser verdade.”. Oh João, não utilize uma mentira para responder a outra mentira. O Passos Coelho é um socialista como os outros (eu acabei de escrever que a despesa e oom impostos nunca estiveram tão altos); não tenho opinião sobre a Merkel nem me interessa o que ela faça – os Alemães, pelos vistos, gostam dela, já que lhe deram algumas vitórias…nunca me ouviu dizer que o Passos e a Merkel são santos; nem sequer a defendê-los. Apenas lhe disse que a culpa é deles relativamente à Grécia. Os gregos, especialmente o seu governo, é que não têm nenhuma culpa.

        O mais engraçado até foi ouvir o Alexis defender o programa que foi implementado em Portugal…

        Também gosto muito de ver e ouvir o João e outros criticarem o Passos por ele ter implementado o plano que implementou em Portugal, responsabilizando-o pelos resultados obtidos, mas relativamente ao Alexis Trsipas, defendem-no (com resultados catastróficos). Mas a estratégia da extrema esquerda é sempre a mesma: como as políticas não dão resultados culpam-se os outros. Sempre foi e sempre será assim. Vejam o que acontece na Venezuela e Cuba, por exemplo: como as pessoas vivem muito mal e são governados pela extrema-esquerda, a culpa é dos EUA e outros. Deles e da sua política é que não é…


        • Primeira mentira: deixar de negociar com a Troika significou que funcionários deixaram de negociar com ministros eleitos e deixaram de dar ordens por mail. Faz uma certa diferença, e chama-se democracia.
          Segunda mentira: o neoliberalismo não é só o conceito utópico de um mundo sem impostos, que por natureza é impossível, é sobretudo a lógica em que o mercado está acima da política, e de que a isso não há alternativa.
          Terceira mentira: socialista é aquele que defende uma sociedade socialista, onde os meios de produção estão na posse dos trabalhadores, seja lá o que isso for. Nem é um social-democrata e muito menos será o Passos Coelho, que faz o que pode pela ideologia neoliberal, não pode é fazer mais porque para isso tinha de impor o recolher obrigatório e a lei marcial.
          Quarta mentira: Tsipras queixou-se, com toda a razão, de que medidas alternativas com igual peso no orçamento tinham sido aceites em Portugal e na Irlanda. As dele claro que não, porque tributavam o capital, e não o cidadão comum.
          E claro que a Venezuela e Cuba tinham de ser chamadas à conversa. Eu então, passo a vida a defender o regime cubano, nunca critiquei o messianismo venezuelano, etc. etc. Mas que os pobres na Venezuela votam bolivariano, é um facto. O estômago deles lá saberá porquê.

          • J.Pinto says:

            Primeira mentira: a democracia não é só na Grécia. Em todos os restante países da Europa as eleições são livre e os respetivos governos foram eleitos para defenderem o interesses dos eleitores dos respetivos países e não dos gregos:

            Segunda mentira: claro que o liberalismo não é um mundo utópico sem impostos; mas ntambém não é de certeza um mundo em que os impostos NUNCA estiveram tão elevados;

            Terceira mentira: pois, mas o mundo em que os trabalhadores, só por serem trabalhadores, ficam com os meios de produção já não faz parte da liberdade (aquela palavra que muitos dizem defender). Com o regime atual, os trabalhadores também podem ficar com os meios de produção: trabalhando e constituindo as suas próprias empresas. Mas isso dá muito trabalho e é muito arriscado…..por isso é melhor defender a posse dos meios de produção através da impostagem aos outros.

            Quarta mentira: não sei o que é tributação do capital. Esse jargão só existe na Venezuela, Cuba, Coreia do Norte e países similares. Na sociedade contemporânia (em países desenvolvidos), é o capital que dá trabalho às pessoas. Ou seja, é através dele que as pessoas trabalham e ganham dinheiro…

    • Nightwish says:

      Vai aí tanta confusão e mentira, além falta de compreensão básica de economia que nem sei como lhe responder.

      • J.Pinto says:

        Quais são as noções básicas de economia? O Keynesianismo? A curva de Phillips?

        Lembre-se apenas que essas teorias (todas filhas da mesma) basearam-se em tempos em que o socialismo (constantes défices) era menos visível.

        Mas pode sempre começar por dizer quais são as mentiras. Se puder, prove que são mesmo mentiras. Prove que não é a Grécia que necessita de dinheiro (dinheiro que mais ninguém lhe quer emprestar); prove que eles não têm défices atrás de défices; prove que, apesar de terem o mesmo PIB per capita que o nosso, não têm salários mais elevados.

        • Nightwish says:

          Para já, confunde capitalismo com socialismo, o capitalismo é que requer constante défice e constante dívida, com a consequência da constante acumulação de valor na banca que cria todos os anos pelo menos 3% de mais dinheiro independentemente da economia aumentar 3% ou não.
          A Grécia, a tal que só sofreu uma quebrazinha de 25% no PIB mas não fez austeridade, tem um superavit, por isso não, não precisa; além do mais, a reestruturação da dívida não tem nada de anormal ou de incomum.
          De resto, se a única coisa que é certa com a proposta europeia é mais deterioração social e económica baseada na teoria da austeridade que nem no excel resulta, espera que os Gregos façam o quê? Aceitar que os filhos, netos e talvez os bisnetos vivam cada vez pior?
          Juízo, homem.

          • J.Pinto says:

            Bem me parecia que mais impostos e mais dívida era qualquer coisa, menos socialismo ou comuismo.

            Então já percebi porque é que o Alexis quer mais dinheiro: ele é um capitalista. Boa resposta a sua, sozinho não conseguia chegar lá.

            Quanto ao criar dinheiro, os países liderados por socilistas e comunistas criam muito mais: olhem para a inflação e para o valor das moedas das venezuelas deste mundo.

            Eu também considero que reestruturar a dívida não tem nada de mal. Só não percebo como é que, com tantos apoiantes, os verdadeiros socialistas e comunas não se disponibilizam a emprestar dinheiro à Grécia. Querem sempre que sejam os outros a fazê-lo.

            Aliás, o governo grego foi eleito dizendo que não negociava com ninguém. Porque é que andou 5 meses a brincar às negociações. Simplesmente não comparecia e seguia o seu próprio caminho; o caminho anti-austeridade. Porque é que precisa dos outros para prosseguir o caminho do progresso?

          • Nightwish says:

            Antes o estado a criar dinheiro do que a banca a meter ao bolso, os outros que paguem como puderem, nem que seja com as casas. Ou 2008 não lhe diz nada?
            O que se quer é que quem andou a apostar no casino, a encobrir a realidade, a manipular taxas de juro e a cometer usura se vá foder para o bilhar grande, que já roubou muito aos europeus nos últimos 7 anos.

        • P. Santos says:

          Este Pinto só diz merda, e não sai nada de jeito…

    • joão lopes says:

      a culpa na verdade é do dr.estranho amor(shauble) .um homem com demasiado poder na europa e que é na verdade ,não o ministro alemão das finanças,mas sim o que manda nas finanças de toda a europa.é por isso que a democracia acabou na europa.

  2. Victor Nogeira says:

    Penso que a “culpa” (esse sentimento judaico-cristão que afasta a “responsabilidade” não é dos alemães mas sim do grande capital entre o qual se encontram o capital nacional e transnacional alemão, britânico, estado-unidense, japonês, entreoutros, que com êxito contilnua a joga no divisionismo contra o internacionalismo proletário.e dos povos contra o capital


  3. Estava com o medo de que a solidez da Europa estivesse em risco por causa da Grécia, mas hoje fiquei mais calmo, quando ouvi Cavaco dizer que a Europa está sólida. É que ele nunca tem dúvidas e raramente se engana. Por exemplo, disse recentemente que o BES era um banco sólido e que os clientes poderiam estar tranquilos e não falhou. Viram? Grande Aníbal!


  4. Só fãs das ecónomias albanesas ou norte coreanas.
    Não obrigado… e felizmente passos coelho ainda não morreu.

    • J.Pinto says:

      Tudo o que seja obrigar os outros (através do confisco cada vez maior) a pagar-lhes os direitos adquiridos, é só fãs ……


      • Conquistados. Os direitos conquistam-se. Não tivéssemos todos conquistados alguns e o Pinto estava a estar hora a prestar a sua corveia, admitindo que se tinha safado de servo.

        • J.Pinto says:

          E que tal conquistar os tais direitos através do trabalho? Ou seja, em vez de se obrigar os outros a pagar os direitos adquiridos, constitui-se uma empresa (acho que é fácil), paga-se 10 000€ a cada funcionário; no fim ainda se fica com uns milhões (milhões, claro, uma vez que oiço muitas vezes dizer que os patrões ganham muito dinheiro).

          Dá trabalho, não é? Sempre é mais fácil obrigar os outros a pagá-los, não é?

          • Nightwish says:

            Neste país não se fica rico com o trabalho, é com as cunhas.


        • Boa ideia. Vou já constituir uma empresa. Em Portugal nem preciso de saber ler e escrever, basta a impressão digital.

          • J.Pinto says:

            Não faça isso. Dá muito trabalho e depois pode chegar à conclusão que não conquistou os tais direitos.

            O melhor caminho para conseguir os tais direitos é mesmo o que está a seguir.- Continue, homem.

          • Rui Silva says:

            Depois queremos ter vida de ricos.
            Um pais onde os licenciados ( a geração mais preparada de sempre…) é ultrapassada pelos analfabetos …

            cumps

            Rui SIlva


  5. Se hoje não estamos melhor, como os países da europa do norte ou central, deve-se ao pequeno período do gonçalvismo, que arruinou a economia portuguesa e ainda hoje pagamos por esse erro.


    • Claro. Foi isso e o reinado do Fernando I, nunca mais nos endireitámos.

    • Daniel says:

      Voce de certeza que nao vive nessa europa do norte. Eu vivo e trabalho. Veja la que o sistema de seguranca social e gratuito na noruega. Ok paga 40 % de impostos mas eles nao se queixam. A corrupcao tornou-se endemica nos circulos do poder dos paises do sul. Circulos do poder, entrada de dinheiro sem controlo durante anos e voce vem falar de alguns meses em 75?!?

    • Daniel says:

      E por uma questao de curiosidade voce viveu os eventos de 1975 ou e so o que ouviu nalguma conversa?

    • Nightwish says:

      Pois, as privatizações, as PPP, os contractos com o estado, a interminável lista de empresas a viver à custa do estado incluindo muitas firmas de advogados que também estão no parlamento, o Euro, a banca, os privilégios para os ricos, os paraísos fiscais, nada disso tem a ver, né?

      • J.Pinto says:

        Tudo isso tem a ver, tem razão.

        Tudo isso tem uma coisa em comum: Estado. Percebe porque é que não quero que o Estado se intrometa na vida das pessoas? Porque só faz merda. Quanto menos Estado, melhor. Mas muitos não querem menos Estado, pois isso implicaria perda de direitos adquiridos e conquistados com lutas, muito suor e poucas lágrimas.

        • Nightwish says:

          Pois, isto na mão das empresas era uma maravilha, era uma polícia privada, ar privado, rios de quem poluísse mais, as empresas a tratar os trabalhadores como quisessem… dá sempre tão bom resultado, não sei como não se continua a repetir as experiências do passado.
          A maravilhosa EDP tem aumentado a electricidade em quanto, mesmo? Que maravilha! Então com a água privatizada é que vai ser giro, voltamos a não ter água em casa mas ao menos temos os canos.

          • Nightwish says:

            Além do mais, para aí metade tem a ver com o estado, a outra metade tem a ver com corrupção e fraude legal que acontecem independentemente do tamanho do estado, mas dependentes das leis e da cultura. E nós sempre gostamos de votar em contadores de mitos urbanos.

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