O lapso de Cavaco Silva

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Laura Santos

Nós devemos dar graças a Deus por termos a rede de instituições de solidariedade social que temos em Portugal“.

No dia 29 de Abril deste ano, Cavaco Silva agraciou várias instituições e individualidades ligadas ao exercício da Solidariedade Social. Na curta intervenção efectuada na altura, ressaltou que, nos últimos anos, tinham conseguido “atenuar o sofrimento de milhares de portugueses que foram atingidos pela crise económica e financeira”.
Até aqui, nada a objectar. O problema, a meu ver, surge quando Cavaco Silva afirma que “Nós devemos dar graças a Deus por termos a rede de instituições de solidariedade social que temos em Portugal”, frase a que alguns canais televisivos deram destaque.

No nosso país, há felizmente separação entre o Estado e as diversas religiões ou comunidades religiosas, como é dito no ponto 4 do Artigo 41.º da Constituição. Que Cavaco Silva, como simples cidadão crente e católico, queira dar graças ao seu Deus pela existência das instituições de solidariedade social, é algo que pertence ao foro da sua liberdade pessoal. O problema é que Cavaco Silva é Presidente de uma República não confessional e proferiu essa afirmação no âmbito do exercício do seu cargo, como se todos os portugueses devessem dar essas “graças” a que aludiu.
Esta é uma linguagem que não se compagina com a dita separação entre religião e Estado, nem com a mesma separação existente nos países mais próximos do nosso (neste aspecto, o Reino Unido tem obviamente características particulares e, fora da Europa, os EUA também). Julgo que até um católico se deveria sentir desconfortável com essa linguagem, pois fere a isenção religiosa do Estado.

No domínio da política, ou seja, no domínio do governo da polis, ninguém pode ser valorizado ou desvalorizado pelas crenças religiosas que tem, mas pelo trabalho efectivo que desenvolve em favor de uma melhor vida em comum.

Aliás, julgo perigoso que, neste contexto da solidariedade social, se vinque demasiado o aspecto religioso das instituições
que para ela contribuem. Vem-me à memória a carrinha de uma instituição particular de solidariedade social que, numa pequena vila, fazia o bom trabalho de recolher as crianças para as levar para a “escola primária”, mas que, para isso, não batia às campainhas das casas nem instruía os pais para terem as crianças à porta a determinada hora, mas que percorria as diversas ruas a buzinar, manhã bem cedo, não só contra as regras do código da estrada, mas sem ter em conta quem não precisava de acordar a horas tão matutinas, porque trabalhara até tarde, porque estava doente, ou simplesmente porque queria dormir mais, sem precisar de se explicar diante de um juiz. Perante as reclamações, a instituição irritou-se e justificou as «buzinadelas» com o trabalho meritório que fazia com as crianças. Só quando o propietário de algumas casas alugadas viu o incómodo que os apitos repetidos causavam em vários inquilinos e, temendo perder o aluguer, usou a sua influência para pôr cobro à situação, os condutores da carrinha passaram a não buzinar. É fácil justificar o mal com o bem. Fácil e perigoso. Quando muitas instituições de solidariedade social são ligadas à Igreja Católica, maioritária em Portugal, há também o perigo de excluir quem não pertence ao “rebanho”, por não frequentar a Igreja ou ter convicções que a Igreja não aprova. Mais ainda, é a própria Igreja que, sentindo a importância de que se reveste num período de crise, mais facilmente pode ceder à tentação do desrespeito pelos que não partilham a sua crença ou pelos que a vivem de um modo considerado menos “ortodoxo”. Refira-se, por ex., as missas e os terços transmitidos por altifalante para fora dos templos, algo que decerto não acontece em Lisboa, mas acontece noutros pontos do país. Cristo resistiu às tentações do deserto. Não esperemos, sem mais, que quem diz segui-lo manifeste a mesma resistência.

Professora Aposentada da UMinho (laura.laura@mail.telepac.pt) in Público 18-05-2015

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    O homem tem inclinações conhecidas do público, desde o Estado Novo.
    E neste contexto a Trindade, Deus Pátria e Família, não se esquece… nem nesta espécie de democracia…

  2. Carvalho says:

    Mas alguém ainda liga ao que bolsa este indigente mental?
    O homem é uma aberração intelectual e moral, que mais se há-de esperar senão bostas?
    Quando algum dos meus alunos comete erros, eu corrijo e ensino. Mas à minha cadela não procuro ensinar o que ensino aos alunos, por manifesta incapacidade da mesma.
    Por que razão haveríamos de esperar que essa coisa que habita o Palácio de Belém fosse mais capaz que a minha cadela? Não o é certamente.

  3. Rui Silva says:

    O homem quando foi eleito já era católico, é natural este tipo de frases nos católicos.
    Você acha que pelo facto do individuo estar a ocupar um cargo público não pode usar a seu estilo habitual. Desde que não seja em sentido discriminatório não trará qualquer problema.
    Mas o politicamente correto será mudar de tipo de linguagem para agradar aos não católicos. Daí os não católicos gostam do “politicamente” correto. Nem todos , eu p.e., não sou católico e não me sinto incomodado.
    Não me parece também que as instituições católicas de solidariedade social descriminem os não católicos. Aliás parece-me a mim que a igreja católica é das menos discriminativas.
    A mim o que me preocupa neste assunto é o monopólio e os lobbys existentes no setor , com a ajuda do estado.

    cumps

    Rui Silva

    • j. manuel cordeiro says:

      Não. Quem ocupa um cargo precisa de saber distinguir posições pessoais de posições institucionais. Uma instituição não se resume a uma pessoa.


    • O tiro no cavaco está na moda;entao aqui os trolls pelam-se por estas palhaçadas.

      • j. manuel cordeiro says:

        ena, uma inesperada auto-crítica.

        e porque estará na moda bater no Cavaco? só pode ser devido à profundidade e isenção das suas intervenções. como a inventona das escutas em Belém e a solidez do bes, só para não ser exaustivo.

    • Nightwish says:

      O presidente representa o país e todos os seus cidadãos, por isso não pode levianamente em crenças religiosas tal como não pode falar em caminhos únicos e que determinado governo faz maravilhas, mas pronto, é o que temos.

  4. amiguel says:

    Laura Santos perdeu uma ocasião para estar calada !!
    A maior parte dos portugueses são cristãos, mas os judeus e os mulçumanos também dizem Graças a DEUS.
    Cavaco não é santo da minha devoção e é o principal problema de Portugal, mas, com franqueza, se perdêssemos tempo com coisas sérias….
    Esse escrito de Laura é a exterirorização de complexos muito profundos, deverá ir a um psi.
    Lute-se pelo amor, pela solidariedade, pela paz e deixe-se que um qualquer diga Graças a DEUS.
    Mesmo o ateu que diz de Graças a DEUS é até…. merece solidariedade.
    Quanto a Cavaco merece que o enviem para casa e rapidadmente, mas isso é outra questão.

    • Nightwish says:

      Ai são? Só se for em casamentos e funerais (e referendos), porque de resto ninguém põe os pés na igreja nem muito menos sabe o que diz a bíblia. Se isso é ser religioso, enfim.

    • Ferpin says:

      O problema não é o cavaco dizer graças a Deus.
      O problema é ele ser PR, ter sido anos e anos PM e achar normal que o estado falhe na assistência, ou até que ache que isso não é sua obrigação, para deixar essa assistência à caridade cristã.


  5. Detesto ter de defender o Cavaco, mas detesto discussões de não assuntos. Dizer “dar graças a Deus” é uma expressão idiomática que já não tem, na linguagem coloquial actual, qualquer conotação religiosa. Isto é um não assunto. Valha-nos Santa Ifigénia.

    • Carvalho says:

      Isto não é, de maneira nenhuma, um “não-assunto”.
      Você é que é uma “não-inteligência”. Vá lá, uma besta.


  6. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

  7. joão lopes says:

    “graças a deus” que já falta pouco para mandar o cavaco para boliqueime(e a poetisa cavaca)

  8. José Lima says:

    O facto do Estado ser laico não significa que tenha de ignorar ostensivamente a realidade religiosa e, ainda menos, banir do espaço público qualquer manifestação de religiosidade. O que a autora do texto visa, a pretexto de uma suposta defesa da neutralidade religiosa do Estado, é algo bem diverso, é patrocinar um controleirismo politicamente correcto e promover uma agressiva política de ateísmo prático, algo em que a generalidade dos portugueses – e hoje a grande maioria deles já nem sequer tem qualquer prática religiosa… – julgo que não se reverá.

    • Nightwish says:

      O presidente é suposto representar e falar por todos os portugueses em geral, não apenas os da tribo, mas já sabemos como a múmia é.


  9. Deu um post interessante apesar de ter partido dum argumento meio esquinudo: tenho muitos amigos que não têm religião e usamos o graças a deus como expressão corriqueira que nada tem a ver com crenças. Desafiava-a já que tem veia escritora para desenvolver o problema de ofensa aos direitos das crianças com a massificação que fazem a crianças de pouca idade com as rezas e praticas religiosas, antes que elas possam perceber do que se trata.Contribue isto para odios que mais tarde dão origem a intransigencia entre credos.
    O ministro da educação do Paquistao (fugido em Portugal por ameças de morte dos fanaticos islamicos) em entrevista apontou as madrassas muçulmanas que levam as crianças pequenas a mergulhar naquelas repetições insanas do alcorão como um viveiro de terrorismo. Felizmente vivemos no ceu, mas vale a pena alertar e vexas saberia melhor expressar a ideia que lhe deixo.

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