A resistência grega

“A política na Europa tem de ser sempre de direita para manter a zona euro intacta” – José Gomes Ferreira (ligação para Facebook)

Era uma vez um consenso, entre a casta que domina a Europa dita democrática, e que mantendo a designação de socialista ou democrata-cristã bebe toda da mesma fonte, o neoliberalismo. Por esse consenso a escolha eleitoral dos povos estava restringida a eles próprios, excluindo obviamente a esquerda, esses perigosos comunas. Não Há Alternativa, declarou um dia um verme que proclamava não existir essa coisa da sociedade. E estava tudo a correr tão bem, os países mais ricos enriqueciam, os mais pobres enriqueciam alguns dos seus por conta de privatizações e do desvio dos fundos comunitários para negócios improdutivos. A Sul a corrupção alastrava, em toda a parte a alta finança especulava em liberdade. Estava tudo a correr tão bem, as desigualdades em crescendo, a liberdade de expressão presa na imprensa dominada pelos mesmos donos, a mesma casta, tudo assegurava a tranquilidade, a paz, um futuro brilhante.

Era uma vez uma fábula que um dia tropeça num país pobre, de ilhas e pedras. Onde um povo que sabe ter de seu o que conquistou disse que já chegava. Correu com os bandidos mais próximos, os dois ou três partidos que sempre a governaram, e escolheu um governo de esquerda.

Heresia, gritaram em Bruxelas, em Berlim, em Lisboa e Madrid. Os dogmas só sobrevivem quando o engano subsiste. E um grão na engrenagem pode destruir toda a engrenagem.

É onde estamos. A aflição actual resume-se nisto: se cedem ao governo grego perdem as eleições em Espanha, em Portugal e na Irlanda. E têm de abater a dívida com que a Grécia foi cilindrada. Não cedem, expulsam a Grécia do euro, perdem na mesma o celebrado calote (os idiotas quem andam por aí preocupados com o que a Grécia deve a Portugal esquecem que de imediato pelo menos 50% marcham com a desvalorização da nova moeda) e também não ficam em bons lençóis eleitorais, a especulação financeira trata-lhes daquilo a que chamam “recuperação de economia”, uma fantasia que proclama estarmos a recuperar (e estamos, ou melhor, eles estão: a venda de automóveis de luxo tem corrido muito bem em Portugal).

Verdade se diga que o prejuízo é aparente em caso de saída da Grécia: o BCE pode muito bem resolver o problema, uma vez que assumindo o prejuízo só tem de fazer dinheiro para o compensar. Mas isso viola 372 dogmas do neoliberalismo e, coitados, já lhes vai doer que chegue ver como um país com moeda própria e um governo de esquerda consegue recuperar a sua economia.

Claro que há outra opção: ressuscita-se a Wehrmacht e vai-se a Atenas cobrar a dívida. Desconfio é que essa possibilidade, se referendada na Alemanha, levava com um valente oxi. Ou nein?

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Comments

  1. Filipe says:

    Vocês hoje só se lembram de citar pobres de espírito.

  2. Nightwish says:

    Entre a esquerda e o euro, que se foda o euro que eu mijo na campa dele.
    “de imediato pelo menos 50% marcham com a desvalorização da nova moeda”
    Olhe que não, a dívida está em euros, mas podem sempre parar os pagamentos tendo superávit.

  3. Claudia says:

    Claro… Sr. JJC, a Grécia tem uma dívida de 300 000 Milhões (depois de um perdão de 50%) que não quer pagar e quer agora mais 50 000 Milhões. Claríssimo. Vamos todos nós os contribuintes de países com salários mínimos inferiores ao da Grécia aguentar mais um imposto extra para lhes “emprestadar” essa verba e daqui por um ano eles voltam à carga com a mesma lengalenga.


    • Perdão uma ova: transferência da dívida dos bancos para os estados.
      E não vai pagar coisa alguma, qualquer reestruturação é coberta pelo BCE. Sabe o que é uma tipografia? É também onde se imprimem notas, ou seja, se faz dinheiro.
      Mas acho muito bem que a Grécia pague os 10% que chegaram a Atenas. A especulação, que eles e nós sofremos, pague-a você, que a mim já me roubaram.

      • Claudia says:

        Desculpe lá, mas por acaso sabe de onde vem os recursos financeiros do BCE? Dou-lhe uma pista: Não é de nenhuma tipografia…
        E também gostaria de saber a sua opinião sobre as viagens do camarada Tsipras a Moscovo? terão sido viagens de cortesia? ou terá ido mendigar ajuda ao político mais perigoso do continente europeu e veio de mãos a abanar?
        Para finalizar, ler e refletir deixo-lhe um link: http://www.elmundo.es/economia/2015/07/08/559c20d546163f1e728b459a.html?cid=SMBOSO25301&s_kw=facebookCM
        Sinta-se à vontade para comentar 🙂


        • Fabricar moeda é um recurso financeiro, excepto na cabecinha limitada de um neoliberal, que imagina a história da economia como uma cena que tem mercados, unicórnios corderosa e e a nossa senhora de thatcher em cima de uma azinheira.
          Considerar Putin mais perigoso que Merkel, é de anedota, lá porque ambos disputam os territórios do costume. Que eu saiba Putin não invadiu o Iraque, não criou o califado, limita-se ao seu território histórico que, sim, inclui boa parte da Ucrânia, agora invadida por milícias nazis e por um governo com tanta legitimidade democrática como o anterior.
          Eu compreendo que quem cita o jornal que despediu o seu fundador porque andava a investigar a corrupção ligada ao partido do governo desconheça, por exemplo, que a Grécia e a Rússia têm a mesma religião, e outros laços históricos (pese que Estaline a tenha entregue aos ingleses). Mas não me peça para o ler, cheira mal e suja as mãos.

  4. Claudia says:

    Curvo-me vencida por tanta asneira ignorância, tolice, burrice:

    “Fabricar moeda é um recurso financeiro”
    Então porque não sugere aos gregos que o façam? e se encomendarem na China vão conseguir um preço baratinho 🙂

    “Que eu saiba Putin não invadiu o Iraque”
    Nem a Crimeia, nem era “chefe” da KGB quando da invasão russa do Afeganistão… 🙂 e ajudou imenso os gregos pois o Tsipras voltou carregado de dinheiro para resolver a crise do seu país 😉

    “o jornal que despediu o seu fundador porque andava a investigar a corrupção ligada ao partido do governo”
    Bom não era o jornal que eu pretendia que analisasse mas sim as palavras de Petros Markaris um intelectual grego, sobre a crise que assola o seu país, mas talvez tenha dificuldades com a língua de Cervantes. Erro meu, mil desculpas 😉

    Vou então passar a ler as suas prosápias mas sem comentar, para me iluminar com tanta sapiência. Até sempre e que nunca lhe falte o nívea (como se dizia no meu tempo)


    • Não lhe falte vaselina, enquanto a sua cegueira ideológica se vai confrontando com o detalhe que vos falha: a sociedade existe, e a história não acabou.

      • Claudia says:

        Ai João José essa da vaselina deixou-me assim … a modos que… enfim que argumento tão esmagador!!!

        Termino então este “aceso debate” deixando-lhe um excerto de um poema que exprime um pouco do meu sentimento na hora do adeus:

        “Dulcineia, Dulcineia,
        volte ao que era:
        uma plebeia
        sem primavera”

        …e termina assim:

        “E volte à aldeia
        da sua labuta.

        Dulcineia, Dulcineia,
        deixe de ser Ideia
        e torne-se a carne e a alma
        da nova luta”

        Poema de José Gomes Ferreira (A Morte de D. Quixote, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim , 1977)
        Música de Manuel Freire

    • Nascimento says:

      No “teu tempo”, era mais a saudação romana que apreciavas….

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