Discuto a Grécia por Portugal

André Serpa Soares

Nas redes sociais há temas que desgastam os “artistas” que ousam debatê-los abertamente. Por exemplo, o futebol. Existem rivalidades óbvias, motivadas por “clubites” mais ou menos exacerbadas e tantas vezes credoras de racionalidade.
Apesar de uma ou outra recaída, como discutir futebol no facebook era algo que acabava por me desgastar – sobretudo, creio, porque não sou adepto do clube da “maioria ruidosa” – deixei-me disso por aqui.

No caso da Grécia, parece que estamos no mesmo pé. Discute-se profusamente a Grécia. Há posições firmes de um lado e do outro. Tenho ideia que os meus amigos de direita são contra qualquer nova ajuda ou perdão à Grécia e os de esquerda são favoráveis às posições do Syriza e do auxílio ao povo grego.
As posições, de argumento em argumento, vão-se extremando. De tal forma que acaba por parecer que estamos de novo a discutir o Sporting e o Benfica.

Não há meio termo. Não há flexibilidade na discussão. Tudo é branco ou preto.
Pessoalmente, não discuto a Grécia pela Grécia. Não tenho especial simpatia pelo Estado grego, nem pelo povo grego. Mas também não tenho antipatia. Politicamente, não tenho qualquer simpatia pelo Syriza. Mas sei que foi eleito há apenas 6 meses e que não tem qualquer responsabilidade no estado a que a Grécia chegou.

Discuto a Grécia por Portugal. Por nós. Não consigo falar da Grécia sem ser à luz da minha vida. Da nossa vida. Reduções de salários. Cortes nas pensões. Cortes na SS e no SNS. Desemprego, sobretudo jovem. Emigração massiva. Graves problemas na pirâmide etária. Falta de capital. Ausência de investimento. Dívida que, ao fim destes anos de austeridade, ainda não deixou de aumentar. Carga fiscal sufocante. Reforma do Estado por fazer. Tudo é comum. Parece que a diferença é que nós temos os cofres cheios e os gregos têm os cofres vazios. Mas continuamos no lixo. E quando os especuladores limparem a carne dos ossos gregos, se a Grécia for abandonada à sua sorte, terão de se alimentar de outra vítima. E essa vítima somos nós.

O nosso esforço de serviço da dívida em percentagem do PIB é maior que o da Grécia (7% cá, 5% lá), sim.
O nosso Estado nunca aldrabou contas, foi apenas mal gerido, ao contrário de lá, sim.
O Estado português é, apesar de tudo, muito mais eficiente e moderno que o grego, sim.
Cumprimos melhor o programa da Troika e conseguimos sair do “protectorado”, enquanto eles continuam e pretendem continuar, sim.
Somos melhores que os gregos em termos de sacrifícios? Talvez. Mais mansos somos, isso é evidente.
Estamos a salvo? Não. Seremos a próxima vítima. Pouco importa se somos de esquerda ou de direita. Isto não é um Sporting – Benfica. É a vida de um povo inteiro. A vida básica: paz, pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério enquanto houver. E eu quero ser livre.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Certo,
    E quem controla o Banco e a emissão de moeda manda nesta coisa toda chamada zona euro.
    Parece impossível como aceitamos as regras que nos subjugam…
    Depois há as frases chavão do economês e do politiquês para nos enganar…

  2. Nightwish says:

    Saímos do protectorado? Mas a troika não continua a ditar o orçamento? Que raio de saída é essa?
    De resto, para apoiar o Syriza não é preciso ser de esquerda, é preciso saber do básico de economia, que o que propõem não é nada de radical. Ou não era até à 20 anos… Agora inventam-se uns modelos que nem no excel batem certo e proclama-se Eureka.


  3. Há um brocardo latino, que os juristas utilizam muito, que diz “ubi commoda ibi incomoda”. Esta frase ainda hoje é muito atual, embora tenha já mais de 2000 anos e significa que quando se têm as vantagens de uma coisa também se têm as desvantagens da mesma. Traduzida para a situação atual da Grécia significa que não se pode querer ser membro do Eurogrupo e depois não cumprir as regras dessa comunidade…


  4. Excelente artigo de opinião, efetivamente canso-me de posições extremadas nesta matéria, de um lados tudo é bom, o meu Benfica também merece sempre o melhor e vencer, do outro lado são todos maus, mesmo uns ladrões, uns malandros, uns oportunistas e sei que mais que só vencem pela força dos árbitros.
    Na verdade a realidade está no meio, mas o que não sei mesmo é aonde a realidade irá parar.

  5. Eduardo Fernando Gaspar says:

    Do meu ponto vista, sem margem para qualquer dúvida, estamos em presença de um excelente contributo para nossa reflexão. Porém, não gostei desta: «Não tenho especial simpatia pelo Estado grego, nem pelo povo grego» mas, por razões óbvias, não a irei comentar.

  6. Ausente52 says:

    Nao se trata de direitas ou de esquerdas. De a favor ou contra.
    Trata-se tao so de que a Grecia ja beneficiou de dois emprestimos e um perdao parcial da divida.
    O que fizeram ao dinheiro?
    Eles sao todos gregos esquerda ou direita.
    Tal como nos somos um povo do 8 ou do 80. Pensamos mais com o coracao do que com a cabecca.
    Ficou provado que a Grecia mente. A Grecia sabe tirar partido do panico em que se encontra a UE e os banqueiros obviamente.
    Os gregos sao espertos e oportunistas.

    • lolwordpress says:

      Este tipo de comentário é impressionante.
      “Os gregos sao espertos e oportunistas.”, eu acho mais que são inteligentes e verdadeiros democratas. E não se deixam levar por conversa da treta e ainda pensam pelas suas próprias cabeças! Ao contrário deste tipo de comentário e da sociedade portuguesa.

      Ora o dinheiro emprestado aos gregos, segundo este jornal verdadeiramente “comunista e vermelho” foi para aqui: http://www.theguardian.com/world/2015/jun/29/where-did-the-greek-bailout-money-go

      Mas como ler é complicado, para mais em Inglês, tem aqui um desenho simples se quiser: http://ocastendo.blogs.sapo.pt/para-onde-foi-o-dinheiro-emprestado-a-1933438

      E se acha pouco, e acha que eles não fizeram nada, então outro jornal “vermelho” diz isto, em Português para ser mais simples de perceber: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Internacional/interior.aspx?content_id=4668755

      É por comentários destes que vejo que enquanto país, enquanto sociedade, e muito com pena minha e contra a minha vontade, só temos o que merecemos porque somos mesmo medíocres.

      Bastou-me 45 segundos na Net para ir buscar esta informação, que não é “filtrada” pelos nossos “excelentes” comentadores/opinadores. Esta gente que hoje habita neste nosso país não gosta de pensar por si, prefere “comer” opiniões já formadas por outros, quando contrariamente ao passado a informação está tão simples de aceder…

    • Nightwish says:

      E então? Isso quer dizer que a austeridade funciona ou pelo contrário, continua a ser um grande embuste destruidor de nações?


  7. “Os gregos sao espertos e oportunistas.”

    E por aí adiante nos estereótipos:

    – os portugueses são calões

    -os franceses são xenófobos

    – os alemães são nazis

    – os pretos são pretos

    – os brancos são caucasianos

    etc

    Que isto deve ser dos pólens……

  8. Judite Cardoso says:

    Concordo em absoluto …Discutir a preto e branco cansa e toda esta “coisa” e b mais profunda..
    Um dia acordamos como os gregos ou pior pois estas crises financeiras internacionais a alta finança resolve com guerras.Lembram-se antes 1a guerra?
    E quanto a outra a Alemanha e que deve mais a Europa..

  9. Helder says:

    há comentário à espera de moderação 🙂 Obrigado


  10. Vale a pena ler o que disse o ex 1º ministro belga. E a austeridade pode muito bem ser um reajuste aos niveis possíveis para a economia do país. Todos concordam que se houver défice alguém tem que entrar com o dinheiro. E como se vê na Grecia o cuidado com os bancos não é só paranóia. Segundo ouço as industrias que não conseguem receber em dinheiro vivo estão a parar; e quem tem que importar está frito, como os gregos importam mais de 50% do que consomem imaginamos o que por lá não virá de sucessos governativos.

    • Nightwish says:

      Pode, mas não é, é um disparate económico numa recessão como prova a queda de 25% do PIB grego, o português já nem me lembro, mas deve andar por metade disso. Agora comparemos com a Islândia e chegue-se a conclusões.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.