“Os Condenados” – Peça de Teatro

ESTC - Os Condenados  (c) Filipe Ferreira

foto: ESTC – Os Condenados  (c) Filipe Ferreira

Exercício-espectáculo dos alunos finalistas do Curso de Teatro, Licenciatura, da Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC). 24 a 26 de Julho, Sala Garret, Teatro Nacional D. Maria II. ENTRADA LIVRE.

Carlos J. Pessoa, encenador e autor do texto, teve inicialmente como ideia para o trabalho de final de curso deste grupo de actores (há outros grupos a trabalharem outros textos/propostas), “Os Cenci”, uma tragédia familiar italiana, na Roma do final do século XVI, na qual Beatriz Cenci, a filha, é decapitada, punição que recebe por ter assassinado o seu pai tirano.

Esta estória, documentada nos “Anais de Itália” (Ludovico António Muratori, 1749), é apenas no verão de 1819 que Percy Bysshe Shelley a cristaliza numa tragédia em 5 actos, a qual é adaptada e levada à cena em 1935 por Antonin Artaud, precursor do Teatro da Crueldade, no qual se pretende a inexistência de distância entre o actor e a plateia. Todos são actores e todos fazem parte do processo.

É precisamente tendo este contexto em perspectiva, que tudo faz sentido para o encenador Carlos Pessoa, ao ver na televisão a execução de um grupo de cristãos coptas numa praia Líbia, pelo auto-proclamado “estado islâmico”, colocando-o em perspectiva para escrever e encenar “Os Condenados”, peça que sobe à cena durante o próximo fim-de-semana de 24 a 26 de Julho. Com ligações pessoais e profissionais a Alexandria, no Egipto, estas realidades/culturas que por vezes nos parecem longínquas, não lhe são estranhas e pôs mãos à obra para aquilo que até poderá ser considerado como um upgrade do Teatro da Crueldade, para o Teatro dos Horrores.

Neste âmbito, Pessoa concebe o actual momento histórico como de transformação civilizacional, com um Mundo à beira do abismo, com questões de fundo do qual o estado islâmico é apenas mais um actor. A questão das migrações em massa, da ditadura financeira, da Grécia, metáfora perfeita de uma Europa desunida, cuja solução global para o encenador/autor, terá obrigatóriamente que passar pela mudança do Eu para o Nós. Não para o Nós da cooperativa, o Nós da cantina, ideológicamente concebido noutros tempos, mas para o Nós do que é que andamos aqui a fazer, o Nós do que é deixamos enquanto legado para as gerações futuras, o qual nos permitirá a perspectiva de que não temos nada, mas apenas herdamos a Terra e respectivos valores das gerações anteriores e a(s) passamos às gerações vindouras.

E, se assim fosse, talvez os 5 minutos finais de vida de cada um dos condenados, assunto central da peça, tivesse pensamentos com mais confortos e menos vazios e, a eternidade não soasse “a palavra terrível e medonha”, conforme diz o texto.

À conversa com os actores

Começo pelo fim, para vos dizer que durante a longa conversa que se manteve permanentemente animada nas arcadas do D. Maria, me ficou o sentimento de que é tão bom ser-se português e ver o Mundo a partir do Rossio. De que o que melhor sabemos fazer é concordarmos em discordar e ali ficarmos em paz, na alcatifa do sofá, a falar sobre a guerra e a baixar a persiana porque o sol às vezes também incomoda.

Num dos quadros da peça, há um dos condenados que é tratado por Salvador, o que me deixou na dúvida se seria o nome deste, ou o que ele representava. Fui esclarecido que é o que ele representa. Mas como, se no território sírio e iraquiano dominado pelo estado islâmico, o Salvador, o Redentor é interpretado pelo terrorista, sendo aliás por isso mesmo que mata, para salvar o Mundo do pecado? Fui de novo esclarecido, sendo que esta inversão propositada de papéis visa colocar o carrasco no papel do verdadeiro condenado. A morte liberta, a mancha fica, o algodão não engana!

O que mais impressionou este grupo de jovens actores durante o processo de pesquisa e visualização das execuções, foi a tranquilidade dos condenados, o que até parece conferir uma certa dignidade à morte que os abraça. Nada disso, esclareceram-me de novo, a sofisticação mediática do estado islâmico passa também ela por um processo de encenação teatral, de ensaios de morte contínuos, criando inclusivamente ao longo deste “processo criativo”, uma crescente empatia entre condenados e carrascos. Os degolados nunca sabem que o vão ser, conferindo uma genuidade e uma frieza ainda maior à cena… sim, à cena, cujo expoente máximo último, teve lugar num teatro romano na cidade de Palmira, em ambiente de ópera-bufa, já que inverosímil.

O que este exercício teatral de fim de curso vem também fazer, para além de demonstrar que não vivemos num país distraido e à parte, é desmascarar a farsa que é esta nova entidade que se quer afirmar como um adquirido político. O processo de construção do califado, é assim baseado em técnicas hollywoodescas, cuja mentira virá sempre ao de cima, como as fezes num alguidar de águas turvas, por muito que os efeitos especiais as tornem límpidas.

De la merde, meus/minhas queridos/as, como dizia com o pudor de início de século a Nossa Amélia Rey Colaço.

Termino, citando o encenador/autor Carlos J. Pessoa, numa mensagem que me parece sintetizar 3 anos de trabalho e “deslargar” para os próximos 30, aqueles que certamente irão dar muito que falar:

“Uma escola de teatro, como a entendo, é um espaço de liberdade e cidadania no qual se forjam estratégias para um Mundo melhor e mais justo. Fazer teatro, como procurei transmitir a estes alunos, é tentar reinventar o Mundo subtilmente; é, subtilmente, tornarmos o tempo e o espaço numa casa feliz de todas as épocas e de todos os homens e mulheres que vivem, viveram e amaram. É estar em sintonia, mais do que com o público, com a História e deixar-se impregnar pela emoção de servir, humildemente, os outros. Que estes novos servidores da causa teatral tenham firmeza, argúcia e talento; que o futuro se abra às suas queixas, que os seus discursos inundem o povo de alegria e consolo. Faça-se Teatro, faça-se Mundo.”

Os Condenados

24 a 26 de Julho de 2015

Sala Garret – Teatro Nacional D. Maria II

6ª e Sábado 21h / Domingo 16h – ENTRADA LIVRE

Ficha Artística

Texto e Direcção: Carlos J. Pessoa

Interpretação: Alexandra Pato, Ana Góis, Ângelo Rodrigues, Duarte Amaral Soares, Eugeniu Ilco, Francisco Andrade, Inês Martins, Leonor Wellenkamp Carretas, Mariana Ferreira, Mário Coelho, Mia Tomé, Olena Rudakova e Sylvie Dias

Fotografia: Filipe Ferreira

Raúl M. Braga Pires, a Low Level Researcher, em Lisboa e que escreve de acordo com a antiga ortografia!

Em colaboração com o Jornal Dínamo

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Comments


  1. Esta estória, documentada nos “Anais de Itália” (Ludovico António Muratori, 1749), é apenas no verão de 1819 que Percy Bysshe Shelley – Verão está mal escrito.

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